quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A Comunicação

Já era manhã naquele dia que seria problemático com certeza. Assumindo um contato como esse, qualquer dia ficaria conturbado. Sem dormir, Jonas pensava em como trataria o assunto. Primeiro imaginou por muito tempo como conseguiria uma comunicação, já que percebeu que os visitantes não falavam nenhuma língua terrestre, nem emitiam som aparente de uma comunicação. Bem, se eles quisessem nos destruir já o teriam feito. Isso era inegável. Agora o mais improvável era colocar ele, um simples pesquisador matemático de universidade, a conversar com uma raça alienígena. O que será que ele diria? Tinha pensado em inúmeras teorias, em levar fórmulas matemáticas, em levar alguma coisa que pudesse expressar uma possível comunicação. Após algumas semanas sem dormir direito e praticamente sem dormir nada na noite anterior, Jonas caminhava agora para o helicóptero das forças armadas, que o levaria para o local de pouso da nave, e aonde ele rumaria dali para dentro dela sozinho. Junto de seu peito apertava uma pasta contendo papéis, um tablet, lasers, fotos, e uma gaita. Acharia que talvez a música poderia ser uma forma de comunicação, e já que arranhava alguma coisa na gaita... pelo menos era uma tentativa, ora. E todos usam música como forma primária de comunicação, certo?
Ninguém havia conseguido uma forma de contato ainda, e uma multidão de vários países já tinha tentado. Aparentemente os visitantes eram pacíficos e não fizeram nenhum tipo de destruição em sua visita aqui, a não ser ter dado um grande susto por parte das autoridades. O local também fora aleatório, já que seria bem improvável um pouso em um país de terceiro mundo, principalmente na floresta amazônica, local pouco habitado frente às metrópoles. Achou ridículo a postura das autoridades, que o vestiram com roupas espaciais, temendo alguma forma de vírus mortal. Achou que aquilo dificultaria ainda mais o já não fácil contato.

O helicóptero partiu em meio a uma enorme onda de flashes de máquinas fotográficas e um mar de câmeras de jornalistas. Seus quinze minutos de fama. Um evento maior que as Olimpíadas, com certeza. Ele só era mais um a ter uma tentativa de contato, já que físicos, políticos, filósofos, antropólogos e todo um mar de estudiosos tinham desistido porque não conseguiam extrair nada das tantas perguntas que todos tinham nas semanas que passaram. Será que os visitantes eram hostis? Por que vieram? De onde vieram? Como vieram? Quem eram? O que queriam? Como sabiam que estávamos aqui? Sabiam que estávamos aqui?

Jonas sentia um certo enjôo de tentar pensar em algo, mas depois de semanas de angústia após saber que ele seria o próximo, finalmente a espera estava acabando. Mais alguns minutos e seria a grande hora de conhecer os extraterrestres. Um filme de ficção não retratou essa hipótese desse jeito. Até em “O Dia em que a Terra Parou” houve um contato mais rápido e efetivo, mas dessa vez parecia que não estava funcionando bem. De repente teve uma idéia. Será que era isso? Será que um contato estava sendo “desenvolvido” por parte deles e todas essas semanas que estavam aqui era uma espécie de estudo de como se comunicar conosco? Será que até os próprios extraterrestres estavam aprendendo como nos comunicávamos?

Chegando ao local uma escolta armada o conduziu para a entrada da nave, num túnel de plástico até a nave, que estava com a (podemos chamar de) porta fechada. Ao chegar perto, como das outras vezes o casco dela ficou transparente e uma passagem de sua altura apareceu. Tudo igual ao roteiro das vezes anteriores com as outras pessoas. Isso o deu certa segurança e um certo desânimo também, de poder ser mais um a não obter contato.

Algo parecia diferente. Dessa vez estavam com ele não três, como relatado, mas oito extraterrestres. Era difícil descrever como eram, porque não saberia identificar membros, cabeça e tronco. Tudo parecia se mexer e pulsar. Não sabia para onde olhar, pois não havia aquele “meio dos olhos” em que nos fixamos para uma conversa. Era como olhar um quadro de Pollock. Havia uma espécie de cadeira ali, mas sabia que era algo improvisado, pois não se parecia como partes da nave, que certamente estava viva. Tudo era uma espécie de caos organizado, interagindo entre tudo. Em meio a muitos pensamentos foi que Jonas sentiu a dor. A princípio uma enorme dor de cabeça, que o fez cair de joelhos com as mãos nas orelhas, gritando. Depois de alguns segundos, imediatamente passou, e percebeu que seus pensamentos já não eram mais os seus, se é que isso seria possível. Ele estava na mesma posição, de joelhos, mas dessa vez o visitante à sua frente pedia desculpas. Com telepatia, seus pensamentos o guiavam para o que os extraterrestres queriam que ele pensasse. Incrível, pensou por si mesmo. Eles ainda estavam desenvolvendo uma forma de comunicar conosco. Por isso a demora em se comunicar, entendeu por fim.

E então, sem falar nada, pensou: “Por que vocês estão aqui?” Um pensamento lhe veio à cabeça: “Queremos primeiramente paz. Não vimos destruir nem conquistar sua casa. Você está conseguindo receber essa mensagem?” Jonas instintivamente balançou a cabeça, concordando e imediatamente entendeu que deveria pensar que sim também. Foi o que fez. “Sim, estou. Como vocês fazem isso de se comunicar dentro de meus pensamentos?” E uma resposta não tão animadora lhe veio à cabeça: “É uma forma de energia ainda não explicada pelo seu povo. Vocês a possuem, pois todo o universo parece a possuir, mas não a controlam.”

“Meu Deus, o bóson de Higgs!” pensou ele. “A partícula de Deus!”.

“Podemos dizer que sim, mas não necessariamente o que vocês entendem atualmente por isso”, retrucou o visitante, fazendo com que Jonas ficasse envergonhado, já que pensou sem querer nisso e sabia que tudo o que passasse em sua cabeça seria “lido” por eles.

“O que querem aqui? O que devemos fazer por vocês?”

“Queremos transmitir um pensamento, uma forma com que vocês entendam para onde precisam caminhar. Tomar um outro rumo com que vem fazendo até hoje. Vocês não estão sós. Mais povos existem e estamos aqui para lhe ensinar uma doutrina.”

“Doutrina? Uma religião?”

“Podemos dizer que seria uma troca de valores. Temos alguns pensamentos para fazer com que vocês assumam o desenvolvimento humano. Com isso será possível um reencontro conosco e com mais seres. Deixaremos tudo aqui, nesse dispositivo, e qualquer um que o tocar poderá absorver esses pensamentos. Nesses estão programados as respostas de como vocês poderão caminhar daqui para frente”

“Incrível. Teremos a chance de descobrir a verdade por trás das perguntas mais básicas de nossa existência, como a origem da vida?”

“Sim, porém receio que não será algo tão novo, já que vocês souberam parcialmente isso tempos atrás e aparentemente não tiveram vontade de praticar da maneira correta.”

“Um momento! Vocês já fizeram contato conosco antes?”

“Nós não, mas a mensagem passada anteriormente foi a mesma que agora estamos transmitindo, só que dessa vez esperamos que nosso registro seja seguido. A mensagem é universal e só com ela é possível transcender para uma nova realidade, e ao puro conhecimento do todo.”

“E que mensagem é essa? Posso ter ao menos uma ideia?”

“Uma ideia de conjunto”

“Gödel? Von Neumann?” Pensou Jonas prontamente, mais uma vez sem querer pensar com sua mente matemática, se referindo à teoria dos conjuntos do matemático-filósofo Kurt Gödel e do matemático Von Neumann.

“Nesse sentido, só que com pessoas.”

sábado, 18 de dezembro de 2010

Criacionismo

Estava pensando em escrever esse post com uma outra abordagem, mas resolvi de última hora não fazê-lo. Quero então comentar sobre o último livro que li, o qual ganhei de presente de um grande amigo.

Acabei de ler “Calculating God” de Robert J. Sawyer. Nesse livro um alienígena chega aqui na Terra, mais precisamente no museu de Ontario, no Canadá e procura por um palentólogo. O E.T., vindo do terceiro planeta da estrela Beta Hydri, quer estudar os motivos de extinção de vida. No final do período Ordoviciano, há 440 milhões de anos foi a primeira grade extinção. A segunda foi no final do Devoniano, algo em torno de 365 milhões de anos atrás. A terceira, e a maior, foi no final do período Permiano que ocorreu cerca de 225 milhões de anos atrás. Nesse período 90% de toda a vida marinha desapareceu, além de três quartos das famílias dos vertebrados terrestres. Tivemos outra extinção em massa no período Triássico, mais ou menos há 210 milhões de anos, e por fim a mais famosa aconteceu há 65 milhões de anos, no final do Cretáceo, quando os dinossauros sumiram. Como ocorreu na Terra por cinco vezes aconteceu também em seu planeta, despertando então o interesse em vir para cá.

O extraterrestre fica muito surpreso de constatar que os cientistas daqui, em sua grande maioria, não acreditam em um D(d)eus, coisa que ele o E.T. acredita e, segundo ele, com bases científicas. Esse alienígena está tecnologicamente somente uns 100 anos mais avançado que nós. Depois, no desenrolar do livro, umas das constatações do terráqueo, personagem principal, que trabalha junto com o alienígena (ou um dos que estão por aqui) em suas pesquisas sobre não acreditar em D(d)eus ou no design inteligente por parte dele, é mencionado na página 185 do livro, em que ele diz:

"Eu sabia o motivo em que estava resistindo tanto sobre o design inteligente - Porque quase todos evolucionistas resistem. Nós lutamos por mais de um século contra os criacionistas, contra tolos que acreditavam que a Terra fora feita há 4004 anos antes de Cristo durante literalmente seis dias de vinte e quatro horas; aqueles fósseis, se tivessem alguma validade, seriam os restos da enchente de Noé; que um Deus matreiro criou o Universo com luz estelar já ao longo do caminho, dando-nos a ilusão de grande distância e grande idade. (...)

Talvez devêssemos ser mais abertos, talvez devêssemos considerar outras possibilidades, talvez devêssemos não esconder a verdade tão prontamente sobre os baita buracos na teoria de Darwin, porém o preço era, e sempre deu a impressão de ser, muito alto."

Stephen Hawking disse em seu recente livro The Grand Design, escrito com o autor Leonard Mlodinow, que o universo surgiu “do nada”, de um completo acidente. No programa Larry King Live da CNN, Hawking declarou “Deus pode existir, mas a ciência pode explicar o Universo sem a necessidade de um criador”.

Em A Origem das Espécies, Darwin faz um adendo a um sofisticado instrumento presente na maioria dos seres, o olho: “Confesso abertamente: parece-me um absurdo do mais alto nível supor que o olho – com todos os seus dispositivos inimitáveis para o ajustamento do foco a diferentes distâncias, para a recepção de quantidades distintas de luz e para a correção de desvios cromáticos e esféricos – teria se formado por meio da seleção natural”.

Sobre o que o autor de Calculating God, Robert J. Sawyer, acredita, ele escreveu em seu site que “Atualmente acredito que a ciência triunfa sobre a religião, e que finalmente apenas o que é passível de ser provado, real, não sobrenatural e objetivo importa no final. Nisso, estou muito mais do lado de Richard Dawkins [de Deus, Um Delírio] que Stephen Jay Gould [evolucionista que disse que religião e ciência devem ser considerados dois campos distintos].” Fonte aqui.

Também o autor escreveu um tratado sobre o assunto onde diz que que confia plenamente na ciência, e só nela, porém o universo e a vida inteligente tem indícios bem fortes de possuir um design inteligente, e cita alguns fatos persuasivos, inclusive parafraseia o cosmologista Paul Davies dizendo que matematicamente as chances de um universo com essas particularidades todas e as particularidades para gerar vida é de uma em 10,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000.

Mais uma passagem do livro:

"Os arrogantes evolucionistas cruzaram os braços em 1953 quando Harold Urey e Stanley Miller criaram aminoácidos colocando uma carga elétrica sobre a 'sopa' primordial. O que eles pensaram, então, que seria a atmosfera primária da Terra. Pois estávamos no meio do caminho entre criar a vida em uma bacia, pensamos, e o triunfo final da teoria da evolução, a prova que tudo começou através de um processo simples. Se nós manejássemos a sopa de uma maneira mais correta, organismos auto-replicantes emplumados poderiam aparecer. Com exceção que nunca apareceram. Ainda não sabemos como sair de aminoácidos para auto-replicação."

O livro é muito interessante para quem afirma de pé junto que viemos realmente do macaco, que demos uma sorte danada de tudo ter dado certinho e que crer em uma divindade é uma bobagem para ignorantes ou fracos. Que demos mais sorte do que ganhar na loteria da sua cidade toda a semana por um século.

É preciso muito mais fé para ser ateu que crer em Deus. Por isso não entendo os ateus, que muitas vezes preferem atacar do que realmente defender seu ponto de vista.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Power Balance

O nome do novo remédio milagroso modista do mercado chama-se “Power Balance”. Essa pulseira mágica é capaz de arrumar marido, tirar mau-olhado, encontrar cachorro perdido, curar o câncer, te dar mais elasticidade, disposição e equilíbrio. Bem, na verdade o que eles prometem é só a parte da elasticidade, disposição e equilíbrio, mas mesmo assim se prometessem o resto não ficaria surpreso. E o que eles usam para te dar tudo isso? Um holograma mágico (forjado pelos anões de Moria) presente na pulseira que geraria "ondas" e impulsionaria toda uma reação em cadeia de seu corpo que contribuiria para todos esses benefícios. A pulseira vodu-malgalô-três-vezes está causando um furor de vendas nos Estados Unidos e agora está chegando aqui no Brasil, com os camelôs da 25 de março vendendo a “original” por 20 reais, sendo que a pulseira original, nos Estados Unidos (entenda-se sem impostos abusivos) custa US$ 49.00. Ouvi dizerem que nos shoppings custa R$ 180,00! Ela é tão mágica que consegue passar de 49 dólares para 20 reais no camelô e funciona do mesmo jeito. Os “testes” feitos no meio da rua mostram uma técnica chamada Cinesiologia Aplicada (kínesis = movimento + logos = tratado). Vejamos do que trata isso:

“Os cinesioterapeutas usam os testes musculares para detectar as desarmonias energéticas, as tensões e bloqueios no corpo, para em seguida, fazer as correções e o balanceamento do sistema nervoso e, para finalmente testar os músculos outra vez, afim de verificar se a desativação ou correção ocorreu realmente. O pensamento básico da Cinesiologia Aplicada é que todo estresse, desequilíbrio ou bloqueio no sistema nervoso pode ser detectado através do teste de Tensão em Músculos Específicos. Foi também descoberto que todos os músculos no corpo estão conectados internamente a diferentes órgãos, glândulas endócrinas, pensamentos e sentimentos, meridianos de acupuntura e outras partes do sistema elétrico do corpo. O teste muscular manual, usado pelos Cinesioterapeutas, não mede a força física natural que um músculo possa produzir, e sim, como o sistema nervoso controla as funções musculares.”



Lendo um pouco mais percebemos que funciona um pouco como efeito placebo.
O cérebro humano é capaz de coisas incríveis, se estimulado da maneira correta. Por exemplo, em uma matéria do jornal The Wall Street Journal mostrou que pessoas jogando Golf com a bola de cor verde, o que disseram a elas ser a "bola da sorte", conseguiram pontuar 6.4 vezes de 10 tentativas, uma taxa 35% maior que a média. É a “sorte” ou “segredo” atuando na mente das pessoas. O mesmo acontece com a Power Balance. Você pode assistir um vídeo no You Tube nesse link de uma reportagem feita com um participante do site Skeptic fazendo testes cegos nas pessoas com o Power Balance, ora colocando a pulseira original ora uma falsa. Os testes falharam, ou seja, é tudo uma grande mentira. Como diria Padre Quevedo: Isso NO ECZISTE!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Fórum Cristão e o Morro do Alemão

Fui no Fórum Cristão de Profissionais promovido pela Igreja Batista da Água Branca no dia 22 de novembro de 2010, cuja palestra (nesse link) deveria contar com a presença de Rodrigo Pimentel, o verdadeiro Capitão Nascimento, escritor de Elite da Tropa. Infelizmente ele não pode comparecer devido à operação na favela do Alemão, no Rio de Janeiro. A palestra do Ed Rene Kivitz foi muito boa, com tema de “Não Matarás”, mandamento de Deus escrito em Êxodo 20:13. Não tenho intenção de transmitir aqui apalestra, mas meu ponto de vista em relação a ela.

Naquela época, havia uma pseudo-sociedade judaica se formando ainda no deserto e Moisés recebeu as leis divinas e as transmitiu à população. Pela lei, quem matasse morreria, como punição. Ali, havia uma necessidade de formação de estado, com leis rígidas, e essas leis, principalmente os dez mandamentos, estariam fortemente ligados a formação das leis ocidentais de hoje, e não necessariamente com as mesmas penas impostas à época. A complicação acontece quando chega Jesus e diz para oferecer a outra face àquele que te agredir. Então, é para matar quem mata ou para oferecer a outra face?

O cristianismo é uma religião que prega o amor. Ele pega o amor e o coloca em primeiro lugar, mas não revoga a lei, mas seu cumprimento em detrimento da vida em sociedade, e o amor em detrimento das relações pessoais. Concordo que, baseado na palestra, quando você com autoridade de estado precisa impor uma lei, é necessário impor uma punição, e não necessariamente a morte, coisa que sou contra, mas alguma forma que dê a chance ao indivíduo se reintegrar à sociedade. Porém, o policial que matou ali, cumprindo seu dever, não recebe o crime de “não matarás”, porque está impondo a lei, seu dever como estado. Diferente seria se este entrasse em um barraco, o bandido colocasse sua arma no chão e desarmado levasse um tiro na cara. Aí sim seria assassinato, pois seria a vontade de um (o policial) perante a vontade do estado (a operação em si), fazendo justiça com as próprias mãos, ficando ele acima da lei, e portanto errado.

Portanto, como indivíduo, não devemos matar, e sim esperar a justiça fazer sua parte social, esperando em Deus a justiça individual, pagando o mal com o bem, como disse Paulo. E dar a outra face não significa, contudo, abaixar a cabeça e ir embora chorando. Isso é covardia. Dar a outra face não é fugir. É enfrentar omal. Como aquela cena do chinês no protesto na praça Tiananmem em 1989, em frente ao tanque de guerra, impedindo sua passagem, desarmado.



Quanto à pena de morte, quem seria justo o suficiente para julgar tal punição? Quando a prostituta cai aos pés de Jesus e o povo ali querendo o cumprimento da lei e a morte dela por apedrejamento, Jesus diz que está certo, a lei diz isso, então aquele que não tem pecado que atire a primeira pedra. Qual justo ficou? Por isso não acredito que exista a possibilidade de tal julgamento final por parte de um país corrupto, composto de humanos e, portanto, falíveis. O desejo é de reintegração, de arrependimento, de resgate. Não posso e não quero pensar na justiça pelas próprias mãos, movido pelo ódio, que usurpa a razão. Acredito que cada um deve sim fazer sua parte social e não se render ao bandidismo, achando que se todo mundo faz também vou fazer, querendo levar vantagem em alguma coisa, mesmo que seja pequena, furando o farol vermelho, jogando um papel no chão, desrespeitando as vagas de idosos. O discurso moralista não significa que faço tudo isso, mas sim que desejo fazer tudo isso. É uma utopia, sei disso, mas assim também é boa parte do cristianismo, e é nessa utopia que penso que devemos viver buscando, todos os dias, cada dia mais.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ficção Científica

Oi, tudo bem? Então, aceitaram o tema da minha tese do doutorado sobre consciência moderna. Vou ter que dar uma breve explicação lá para os anciões, e queria saber de você se minha abordagem está boa. Vou dizer mais ou menos assim: Sabe, as vezes me pergunto quem realmente somos, sem todos os implantes que fazemos. O que será que realmente somos? Como vemos o mundo natural? É sabido que existem algumas tribos longínquas e devidamente perseguidas pelo Império que não fazem nenhum tipo de implante nos recém-nascidos.
Ainda fico tentando imaginar como seria alguém sem o implante de RA2 (realidade aumentada 2), sem ver a programação ou fazer as videoconferências com seus amigos e parentes, ou até mesmo fazer as compras nas lojas virtuais. Hoje em dia é praticamente vital para alguém que viva em sociedade ter o implante básico da realidade aumentada. Fora que o indivíduo ficaria sem uma identidade, já que a identificação de todos faz parte do chip implantado quando nascemos. Imagine a pessoa querendo ir para algum local sem o itinerário devidamente traçado e a condução robótica devidamente identificada que levaria o indivíduo ao seu destino lendo seu chip identificador de vontade. Não fazer o implante do prazer por exemplo é opção de alguns, embora eu não concorde com a tribo das religiões, que preferem o prazer trocando fluidos corporais com outro, mas o de realidade aumentada é fundamental. Esses dias estava assistindo às minhas notícias específicas da hora enquanto estava indo para o trabalho, e no tópico ciência antropológica bizarra falaram dessa tribo dos contra-império. Falando eles de uma forma bem humorada sobre o assunto, até acreditei mesmo que essas pessoas são loucas, querendo viver perseguidas por todos e ter que plantar seu próprio alimento devidamente escondido dos satélites e rastreadores de vida, mas está começando um rumor disso nas colônias do sistema solar. Nossos vizinhos, aqui perto. Já nem sei se é possível hoje em dia diferenciar algo virtual do real, mas imagino que essas pessoas nascidas naturalmente não veriam nada do virtual, e consequentemente veriam um mundo bem diferente do que vemos. É disto, senhores, que trata meu tema.

Bem, enfim, isso é o que gostaria apresentar lá, como uma conversa informal mesmo, já que a moda é essa hoje em dia no mundo acadêmico, e outra: Depois do oitavo doutorado a gente acaba conhecendo os anciões e o que eles esperam. E aí, como foi seu trabalho? Provavelmente quando você receber essa mensagem já conseguiu a aprovação para o comércio de materiais raros no sistema solar, e se conseguiu mesmo pode me tirar da hibernação, beleza? Já deixei o Google programado para identificar sua expressão, e em caso de sucesso nesse dia ele provavelmente já me tirou do estágio profundo assim que você entrou, e seria uma questão de poucos minutos até que eu desperte totalmente, você sabe, estão espere eu acordar para que possa te ver, já que faz mais de um mês que só te vejo virtualmente. E olha que chego a ficar mais de uma hora, as vezes uma hora e meia em cápsula, ou "casa" como você prefere chamar.

Ah, deixei suspenso sobre o desbacterilizador seu alimento preferido, já que você é a única que conheço que prefere comer enquanto é limpa. E encontrei seu sabor preferido! Até que enfim voltaram a publicá-lo. Parece que estavam em falta devido a um dos componentes, se não me engano o CS725, já que o oceano terrestre passa por problemas de contaminação constante com os ataques dos extremistas. Só pra te lembrar, no sábado-um é aniversário do meu tetravô e esse ano ele disse que será seu último. Parece que ele quer desistir da vida no ano que vem. Uma pena, mas acho que já está na hora. Não há mais nada a ser substituído de seu corpo que faça alguma diferença em sua qualidade de vida. Fico me pensando quando será que irei desistir da minha, e se um dia o farei. Nossa, hoje estou falante, né? Ok, nos vemos depois, quem sabe. Beijo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Tropa de Elite 2

São pequenas coisas que levam à ruína. Uma soma de pequenas parcelas de coisas ruins formam a grande desgraça que normalmente não identificamos sua origem, pois as pequenas coisas são facilmente esquecidas. Não somos honestos. Ninguém é. A grande diferença de pessoas boas e más é que as boas colecionam mais pequenas boas ações que más.

Vi claramente no filme Tropa de Elite 2 como tudo que parecia teoricamente bom acabou numa desgraça ainda maior. A soma de pequenas partes ruins. Um gato na TV a cabo, uma compra de DVD pirata, um papel jogado aqui, um favor ali, um jeitinho acolá. Tudo se combina e destrói. O resultado final das partes ruins é exponencialmente ruim, e não só uma soma ruim. Você que usa seu voto para receber algo particular em troca e não pensa no futuro do país está contribuindo com sua pequena parcela ruim para uma desgraça final maior.

A velha frase "faça sua parte" caiu no esquecimento por aqui. Ninguém mais quer fazer a sua parte correta. E não são somente pessoas ignorantes que estou falando. O povo brasileiro, principalmente a classe média, desistiu. As pessoas ficaram amarguradas, e hoje baixar um jogo pirata para o Nintendo DS da filha é uma coisa tão corriqueira quanto escovar os dentes. Ninguém mais se importa se é ilegal. Ninguém mais se importa se pode causar um problema com as lojas que deixam de vender o jogo, e com isso tem que aumentar o preço para conseguir a margem de lucro, tornando a compra inviável. A sonegação de impostos, principalmente do gato no Imposto de Renda, culmina com menos arrecadação e com mais impostos para tampar o buraco, além da parcela da corrupção devidamente embutida.

Quem mais sofre com isso é o honesto, ou que pelo menos tenta ser honesto. Jogar um papel de bala no chão não parece ser tão errado assim, e por isso fazemos, sem entender a dimensão daquele papel quando milhares de pessoas jogarem o mesmo papel no chão. Quando Rudy Giuliani, então prefeito de Nova Iorque implantou o tolerância zero, dizem que conseguiu fazer com que a cidade baixasse seu percentual de criminalidade drasticamente. Mas a coisa aqui no Brasil não é apenas a base. A coisa toda está errada, desde lá de cima, e fico me perguntando se teria solução. Qual político votar? Qual político não está envolvido em corrupção? Seria então a anulação do voto a melhor opção?

Depois do filme Tropa de Elite 2 pude constatar que não adianta muita coisa. Na grande maioria, as pessoas só querem saber de levar o seu. Não importa a classe social, nem o grau de instrução. Por isso, a maioria que tenta ser honesta desiste. Ou vai embora daqui ou abre mão das tentativas de tentar fazer disso aqui um lugar bom, e quem gosta disso aqui ou é rico ou é desinformado. Há esperança?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uva-passa


“Tudo passa. O tempo passa. Até a uva...” A frase infame é tão ruim quanto a fruta desidratada. Estávamos conversando esses dias no café enquanto tentava comer uma daquelas barrinhas de cereal sonho de papagaio de pobre. Na minha barrinha tinha adivinha o que? A maldita da sem-graça entrona da uva-passa. Olhei novamente a embalagem e dizia: Sabor Maçã. Maçã é igual a uva-passa, meu Deus? Conheço poucas, muito poucas pessoas que ousam dizer na minha cara que gostam de uva-passa. E todo fim de ano é aquela mesma coisa de ficar caçando as malditas no panetone pra arrancá-las sumariamente e não deixar que estraguem o bolo italiano. Comecei a comprar chocotone por causa delas! E ainda tem a noite de Natal em que as pessoas fazem arroz (salgado e quente, portanto) com essas coisas pretas que agora não quero mais mencionar o nome. Que mau gosto! Como pode alguém gostar disso? Seria o mesmo que alguém gostar de alface, mas pelo menos o alface não tem essa consistência de doce de saco de bode. Tudo bem que gosto é gosto, já até aceito a fanta uva (que quando fica sem gás se transforma em fanta-uva-passa?), mas uva-passa é demais.

Será que a uva-passa é algum experimento do governo, parte de alguma conspiração mundial, para tornar a humanidade mais dócil frente às amarguras da vida? Sério, quando você a come, às vezes despercebida dentro do seu açaí, dá uma depressão tão grande... Aí faz-se aquela careta de boi bumbá psicodélico, querendo arrumar um canto pra cuspir a porcaria mole grudando no seu pivô, criando uma sensação de inferioridade entre os demais. Você se sente traído, pois não tinha percebido que aquela merda estava incutida aí, sorrateira, no meio da sua granola, disfarçada de algo saudável. E muitas vezes tem que engoli-la para não fazer feio em local público. Isso é colocado no meio das coisas mesmo sem as pessoas gostarem. Parece aqueles cartazes de pessoas felizes dando uma estrela na praia. Já percebeu que tem um monte de anúncio de pessoas felizes dando uma estrela? Quando eu fico feliz nunca me imaginei dando uma estrela, mas sempre tem aquela propaganda de alguém que ganha na loteria e a primeira coisa (após o infame iuhú) é virar uma estrela no meio do escritório. Que coisa mais boba. Quem falou que isso é sinônimo de felicidade? Deve ser a mesma pessoa que disse que é bom enfiar uva passa guela abaixo em tudo quanto é alimento.

Não concordo em colocar essa porcaria no meio do cereal (nem no meio de nada, a não ser no meio do lixo). Primeiro: Uva é cereal? Segundo: Quem gosta dessa porcaria levanta a mão! Chupar uva já é um negócio estranho, você ali engolindo aquela ostra doce com aparência de catarro, jogando a casca fora, agora imagina isso seco ao sol. Tudo de ruim. Esse post é um manifesto contra a migração predatória das uvas-passas nos alimentos considerados bons, como panetone, granola, sorvete, pudim, pães, barra de cereal e arroz (que é o pior caso esse último, porque ela além de uva, de passa, num meio salgado, ainda está quente). Vocês mães, tias e avós façam uma caridade de não colocar mais esse negócio no arroz de Natal. Eu sei que foi chique um dia, que traz prosperidade, ou qualquer outra coisa que vocês inventem para nos convencer, mas a grande maioria não gosta desse treco preto grudento mole. Se você gosta, compre um saquinho a parte e coloque no meio do seu arroz, ora. Agora vou ter que comer uma caixa de barra de cereal de maçã (que não menciona ter uva-passa na caixa) com essa porcaria no meio, porque nem poder tirar não dá, já que está incutida no doce. Faça-me o favor... Uva-passa: Passo longe.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Duna

Dez mil anos após a grande guerra Butlerian Jihad que eliminou todos os computadores pensantes do Universo, que ocorreu há onze mil anos de nossa data, começa a história de Duna. Então, lá para o ano 21.000 a humanidade colonizou diversos planetas e um grande Império surgiu (mas não é aquele império que você conhece, porque Duna foi escrito em 1965, e, portanto, antes de Star Wars). Esse império, controlado então por um Imperador, mantém o poder distribuído em casas aristocráticas que respondem a ele, divididas nas Casa dos Atreides, Casa dos Harkonnens e Casa dos Corrinos. A estória de ficção científica de Duna é mais geopolítica do que tecnológica, e é aí que esse excepcional livro conta com alegorias para um possível futuro da humanidade, que viveria então num feudo.

Frank Herbert, o autor, disse quando vivo que se baseou em alegorias para recriar seu universo, onde teríamos a briga por um produto, que no caso do livro se chama Melange (ou especiaria), que podemos fazer um paralelo com o petróleo, em um planeta deserto, que podemos visualizar o Oriente Médio, e um povo rebelde chamado de Fremen, que podemos comparar com os árabes, talvez (pois o personagem principal do livro pode ser comparado a T.E. Lawrense e sua ligação com o povo árabe na revolta contra os Turcos Otomanos em 1916, rendendo até um filme, Lawrense da Arábia). Nesse complicado enredo, começa uma história rica em detalhes de como a humanidade evoluiu.

Como mencionei acima, existiu uma guerra, em que a humanidade venceu os computadores, que em dado momento no futuro tomaram consciência e se rebelaram contra nós. Após a eliminação dessas máquinas pensantes, instituiu-se uma ordem religiosa, e uma nova Bíblia, chamada de Bíblia Católica Laranja (O. C. Bible) que compilava assim vários pensamentos de várias religiões ali então resumidas. Num desses versículos-mandamento, existia um que dizia “Vós não deveis produzir uma máquina tal qual a mente humana.” [1], numa tradução livre. Por isso a partir daquele ponto evoluiu-se com tecnologia genética (e tecnologia não-pensante), para produzir seres humanos aptos a determinadas áreas, como por exemplo os Mentat, que eram pessoas com habilidades incríveis de cálculos, substituindo assim os computadores, que traçavam rotas para viagens espaciais. E várias ordens surgiram, como por exemplo as Bene Gesserit, que era uma irmandade de mulheres-bruxas com poderes mentais que procuravam há mil anos um messias, fazendo conexões genéticas com casamentos arranjados. Esse messias iria ter um poder mental enorme, podendo num ritual de passagem ingerir uma quantidade grande de veneno, remover esse veneno do seu corpo e assim se conectar com memórias ancestrais de todas as Bene Gesserit e ainda ter precognição. Dentro desses detalhes, Duna vai evoluindo e prendendo cada vez mais a atenção, fazendo com que você não encontre paralelo em nenhuma obra anterior a ela e influenciando um monte de filmes e livros a partir dela. O interesse do livro é uma geopolítica futurística que deixa um pouco de lado as explicações científicas, como vemos nos livros do Asimov por exemplo, puxando para questões mais filosóficas. Quem controlava esse melange, que seria o bem mais importante do universo, controlava então todo o universo por consequência. O melange, substância que só existe no planeta Arrakis (conhecido como Duna pelos seus desertos), era controlado pela Casa dos Harkonnen que lá estavam há tempos, determinado assim pelo imperador. O melange era produzido pelos excrementos de um verme de quatrocentos metros que vagava pelos desertos de Duna, temido por todos, fazendo com que a extração da especiaria fosse bem difícil e arriscada. Essa especiaria quando consumida dava alguns poderes especiais, e o mais importante deles era a pré-cognição, permitindo assim viagens espaciais distantes, o que movimentava toda uma economia no universo.

O feudo rival dos Harkonnens, chamado de Casa dos Atreides começava a ganhar poder e influência, comandada pelo Duque Leto. O imperador então troca de poderes e manda a Casa dos Atreides dominar Duna e a retirada da Casa dos Harkonnens de lá, que já tinham ganhado um bom poder com a exploração, para balancear um pouco os poderes no universo entre as casas aristocráticas. Só que as coisas não foram tão simples assim e uma armadilha esperava os Atreides em Duna. A companheira de Duque Leto, Jéssica, que é uma Bene Gesserit, treina seu filho Paul (filho do Duque) com todo o treinamento proibido dessa irmandade de mulheres, e aí a coisa fica interessante. Paul tem algumas visões do futuro, e ligado ao fato que Jéssica deveria ter tido uma menina e essa menina poderia ter gerado o esperado messias segundo as Bene Gesserit, Paul começa a dar indícios de ser ele o próprio messias. No planeta Duna, o povo que lá vive, os Fremen, espera a chegada de um messias, que os libertaria da dominação das casas aristocráticas e transformaria Duna em um planeta com água abundante, já que lá a água é um artigo raríssimo. Inclusive quando uma pessoa da tribo dos Fremen (os nativos de Duna) morre a água do seu corpo é retirada e filtrada, e devolvida para a tribo para consumo. As pessoas andam em trajes que não deixam nenhuma umidade sair do corpo (os stillsuits), filtrando suor, urina (e fezes), retornando num processo límpido para que a pessoa beba (isso é nojento, eu sei, mas o processo é muito bom, parecido com a Sabesp que filtra a merda da represa Billings, só que tudo dentro de uma roupa).

Os detalhes dessa trama são bem complexos e tornam Duna um clássico. Frank Herbert escreveu seis livros de Duna antes de morrer, e o filho dele continuou o trabalho com mais treze livros. A história fecha completamente no primeiro livro, mas agora quero ler os demais porque me empolguei muito com a obra.

Sem querer deixar spoilers aqui, só posso dizer que Duna é leitura obrigatória para quem gosta de ficção científica, sendo uma alegoria do mundo atual e no que poderemos nos tornar.

[1] “Thou shalt not make a machine in the likeness of a human mind.”

Links de referência (contém spoilers):
Jovem Nerd: http://jovemnerd.ig.com.br/nerdcast/nerdcast-227-as-dunas-de-duna/
Wiki: http://en.wikipedia.org/wiki/Dune_universe

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Nobel de Física 2010

Hoje o mundo conheceu os vencedores do Nobel de Física, pela descoberta do material mais resistente do mundo: O Grafeno. Andre Geim e Kostya Novoselov ganharam um milhão e meio de dólares (ou 10 milhões de coroas suecas) pelo Nobel e seus estudos podem mudar mais uma vez o mundo dos componentes eletrônicos, que agora podem ter grafeno em sua fabricação. Os designers de chips de computadores estão enfrentando alguns problemas atualmente, pois um chip é feito com centenas de milhões de transístores e o tamanho desses transístores continua a diminuir, junto com o número de átomos disponíveis para um único transístor. Até um certo ponto em que não teremos átomos suficientes para conduzir a eletricidade necessária para fazê-lo funcionar. Isso aparentemente foi resolvido com o uso do Grafeno.

O Grafeno consiste em átomos de carbono em forma hexagonal (como os favos de mel) arranjados de forma bi-dimensional em uma folha com um átomo de espessura. Muitas vezes mais resistente que o aço, ele precisaria de um elefante sobre a ponta de um lápis para ser perfurado. Esse incrível material pode ter muitas aplicações, como detecção de moléculas de gás, transístores mais rápidos, circuitos integrados, ultracapacitores e até um bactericida, veja só. A Academia de Ciências da China provou que folhas de óxido de grafeno são muito efetivas contra bactérias, como a E.Coli, causadora da meningite, infecção urinária e outras doenças.

A notícia do Nobel rodou o mundo todo e vários sites de notícias apresentam matérias completas sobre o assunto, por isso falar sobre a notícia em si não foi o que despertou minha motivação em escrever esse post, mas devido ao curioso fato de Andre Geim, um russo naturalizado holandês ter ganhado o prêmio Ig Nobel dez anos atrás.

Assim como o Darwin Awards premia as mortes mais estúpidas (em que nosso padre Adelir de Carli, dos balões, ganhou em 2008), o prêmio Ig Nobel é uma brincadeira que premia as pesquisas mais insignificantes produzidas pela infinita imaginação humana. Em 2000 Andre Geim ganhou o Ig Nobel por usar campos magnéticos para fazer levitar um sapo!

A inteligência de Geim é indiscutível, e sua criatividade também parece que alcança altos níveis. Não temos uma aplicação prática para sapos flutuando, mas o grafeno pode mudar o rumo da indústria eletrônica e consequentemente nosso futuro. No modelo de Renzulli o conceito de indivíduo superdotado é multidimensional, fugindo um pouco do puro gênio acadêmico, resultado de três fatores (no mínimo): inteligência acima da média, criatividade e motivação. Acredito que Andre Gaim tenha os três, pois além de inteligência e criatividade, tem que ter muita motivação para continuar um estudo sério após um prêmio Ig Nobel.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Cabana

Preconceito. Essa palavra não tão pequena também é grande em minar algumas coisas potencialmente boas em nós. Orgulho. Outra palavra que para C. S. Lewis era o maior dos pecados humanos, e por meio do orgulho os demais pecados eram cometidos. Falei há dois anos que não iria ler o livro A Cabana. Por dois motivos básicos: Orgulho (achava que sabia o conteúdo do livro), e preconceito, após ler uma crítica cristã nesse site. Segundo a crítica do pastor presbiteriano Dr. Tim Keller, o livro A Cabana o preocupou muito com o seguinte comentário: “Qualquer um que é fortemente influenciado pelo mundo imaginativo de A Cabana estará totalmente despreparado para o muito mais multi-dimensional e complexo Deus que você conhece quando lê a Bíblia. Nos livros proféticos o leitor encontrará um Deus que está constantemente condenando e jurando julgamentos a seus inimigos, enquanto as pessoas do Deus-trino de A Cabana repetidamente negam que o pecado os ofende.”

Porém li o livro e não encontrei tal afirmação, ou pelo menos não entendi assim. Existe uma parte que Deus pergunta a Mack, personagem principal, se ele continua amando seus filhos quando fazem coisas erradas, que o desagradam. Mack responde que é claro que continua amando-os. O que o autor William P. Young quer mostrar no livro, no meu entender, é um Deus de amor, e enfatiza três pontos que são explicados: A Graça, O Sofrimento Humano e o Amor de Deus. Lá, no livro, não li em nenhum momento nada que justificasse não ler o livro, pois é um livro que dá esperança às pessoas, principalmente as que vivem um grande sofrimento, mostrando um Deus que é amor e fortemente baseados no novo testamento, pois é apenas em Jesus que podemos ter salvação, e não na lei, ora pois. O que venho percebendo de alguns pastores é que se mostrarmos um Deus para o qual você não pode fazer nada para obter sua salvação é motivo de problemas e preocupações futuras. Por que então mostrar um Deus que vai te condenar, te mandar pro inferno, te queimar vivo, etc, se você pode obter sua salvação apenas e tão somente pela Graça, ou seja, fazendo ou não fazendo nada? Foi mais ou menos essa a mensagem que entendi do livro, e as “preocupações” do Dr. Keller na minha opinião são mais furadas que isopor de algodão doce. Ainda bem que me interessei por ler o livro e achei muito bom, de fato, sem me preocupar em estar “indo contra as escrituras”. Decidi ler o livro após meu post chamado Bom Gosto, em que expliquei alguns cuidados com críticas.

O Deus de A Cabana busca por um relacionamento verdadeiro com o indivíduo, por completo, e não só nas missas e cultos de domingo. Nem nas rápidas orações antes de dormir. Deus não quer obrigações, pois isso não é amor, certo? Por que você gosta de estar entre amigos conversando e se divertindo? Será que se fosse imposto um monte de regras de comportamento você iria ainda querer ir no happy-hour? Isso também não quer dizer que viva a vida como quiser, penso eu. Mas pelo amor e vivência com Deus você acaba por viver uma vida digna e justa, mas não é vivendo uma vida digna e justa que encontrará Deus. Jesus só andava com quem não prestava na época, e todos receberam o Espírito Santo, e APÓS viver com Jesus viveram uma vida digna e justa. Jesus não escolheu só os mais justos ou crentes para conviver, ou foi? Pense em Pedro, que sacou a orelha do cabra na peixeira. Ou Mateus que era cobrador de impostos (um maldito para todos). Não me parecem pessoas bem quistas.

“O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: O Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.
O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: O Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.” Lucas 18:11-14

Não gostei da crítica do Pastor Keller após ler o livro. O li com os dois pés atrás e percebi que ele, o pastor, prefere ver o Deus que julga, que arrebenta, que destrói, que fulmina, que desce fogo do céu, que transforma em estátua de sal, que arrebenta cidades inteiras a ver o Deus na figura de Jesus, pedindo para amarmos uns aos outros e buscar primeiro o Reino de Deus, e todas as coisas serão acrescentadas. E o Deus que se apresenta na Cabana de forma nenhuma é o Deus resumido, mas naquela ocasião, para aquela pessoa específica, ele se apresentou daquela forma para curá-lo através do perdão, e precisava mostrar a Mack (personagem principal) o amor, mas não significa como afirma o pastor Keller que Deus é somente aquilo. Não é só aquilo e diversas vezes é afirmado frases do tipo “você não entende a dimensão das coisas”, ou seja, Deus é muito mais que aquilo apresentado, mas aquilo apresentado ainda é Deus, e não o que afirmou o pastor que “meio deus não é Deus”. Não foi isso que foi mostrado no livro. O Deus apresentado foi sim de acordo com as escrituras e omitido suas muitas faces, pois naquele momento o importante era mostrar uma delas, na figura de Jesus, o perdão, amor e graça, que era o que necessitava aquele personagem naquele momento, ou será que isso não vem de Deus? No caso, Mack já conhecia a lei, pois frequentava a igreja. O que ele não conhecia era o amor, perdão e não sentia a presença de Deus. Foi por isso que Deus revelou sua face encoberta a ele, Mack.

O Temor a Deus é algo sim necessário a todos nós, mas não devemos ter medo de Deus. Temor não significa ter medo. Temor é respeito máximo, prostração e adoração, mas deixe a porta aberta para quem bate, e não tema o resultado. Aí você se verá livre de obrigações e conhecerá a felicidade, sem cobranças, sem obrigações, sem medo, sem culpa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Dia a dia

“Mano, deixa eu te contar uma coisa, cê não vai acreditar como tem trouxa no mundo: Um cara tava andando hoje na rua e um senhor logo na frente dele deixou cair uma nota de cinquenta reais. O cara foi lá e devolveu, cê acredita?”

“Ah, sério? Que babaca.”

“Pois é, cara. Ainda ficou andando na calçada com cara de bobo e passou um carro de propósito na poça e molhou ele todo, hahahaha.”

“Putz, um tonto assim tem que se ferrar mesmo.”

“É, cara, tô falando, como tem trouxa no mundo. Ontem mesmo tava vendo o movimento na barraca do Mané, de DVD pirata, sabe?”

“Sei.”

“Até tenho que ver essa parada. Chegaram vários filmes, um que tava no cinema aí de um treco de sonho, umas paradas assim, sei lá o nome.”

“A Origem?”

“Esse mesmo, com o Leonardo Di Caprio. Vixi, comprei mas vou ver se troco. Não entendi nada, mano, puta bagulho complicado. Vou falar pro Mané que tava com defeito pra ver se ele troca pra mim. Então, o Mané tá zuado, mano. Ele me deu cinco paus de troco a mais. Fiquei bem quieto, é lógico né?”

“Claro, é assim que deve ser. Se ele deu a mais é porque tá sobrando, hahahaha.”

“É, isso mesmo. Cara, cê viu o poster do Tiririca, mano? Nossa, muito legal. Vou votar nele. Putz, acho ele muito engraçado. Ele não sabe nada, mano. Vai ser a maior palhaçada se ele ganhar. Imagina ele no governo? Hahahaha, nossa, só de pensar já tô rindo...”

“É, é capaz que ganhe mesmo. Tá bem comentado na praça.”

“Pois é, ah mas é melhor votar nele que votar num zé-ruela aí que vai roubar nós mesmo, de qualquer jeito. Aliás, se eu tivesse lá roubaria do mesmo jeito. Ia fazer meu pé de meia e no que roubasse em quatro anos não trabalharia nunca mais. Ah mano, aqui tem que ser esperto. Nego trouxa só se ferra nesse país. E tem trouxa ainda que se diz honesto. Igual ao Nestor, puta babaca. Fica me enchendo toda vez que me vê com game pirata do meu Xbox, mano. Ah, vai se catar!”

“Ele por acaso tem original?”

“Não, pior que não. Ele disse que não tem grana pra comprar os jogos e preferiu não ter o Xbox. Vai ser trouxa assim lá longe. Bicho burro. Todo mundo pirateia, mano. Ele acha que vai mudar o mundo assim? Ah, vá se catar. Até evito falar com ele. Cara chato do inferno... Opa, fala pai, e aí?”

“Vamos povo, vamos que já tá tarde.”

“Tá pai, vamo. Ah, vamos passar na barraca do Mané antes, tá? Falou futuro, já tô indo. Até amanhã!”

“Falou, povo!”

sábado, 21 de agosto de 2010

O problema do mundo moderno

Há alguma discussão se a humanidade está realmente ficando mais inteligente ou se está emburrecendo. Comentei um pouco disso em meus últimos posts, acredito. Até hoje ficamos imaginando como foi possível que o mundo antigo desenvolveu tantas coisas com a tecnologia da época, como as pirâmides, por exemplo. Nesse mês um indiano chamado Vinay Deolalikar, de 39 anos, cientista pesquisador da HP em Palo Alto, Califórnia tentou resolver um dos chamados “problemas do milênio” , e publicou um paper com uma possível solução para o famoso problema P = NP? Esse “simples” problema levou ao Clay Mathematics Institute de Cambridge, Massachussets, a oferecer um milhão de dólares para uma solução sólida a cada problema. Existem sete (olha o sete aí de novo) desses “problemas do milênio”, devidamente recompensáveis em sua solução perfeita, e me chamou a atenção o fato de um deles ser de fato resolvido perfeitamente por um russo (da foto) chamado Grigori Perelman, que recusou o prêmio de um milhão do instituto.

É difícil imaginar o que esses problemas podem influenciar nosso dia a dia, mas a verdade é que a solução deles podem sim mudar completamente a ciência e consequentemente nosso dia a dia. No problema P versus NP é determinado quais problemas podem ser resolvidos pelos computadores e quais não podem. Os problemas P (Polinomial) são “fáceis” para os computadores resolverem, ou seja, a solução para esses problemas podem ser computados em um razoável espaço de tempo comparado à complexidade do problema. Enquanto que para os problemas NP (Não Polinomial) uma solução pode ser muito difícil de ser encontrada, mas facilmente comprovada após ser encontrada. Por exemplo, imagine um quebra-cabeças. É muito difícil chegar a um encaixe das peças na ordem certa, mas o resultado após realizado é facilmente comprovado se está certo ou não apenas olhando para o desenho do quebra-cabeças montado. A classe de problemas NP incluem muitos problemas de interesses práticos, como por exemplo determinar a correta otimização de transistores em um chip de silício, desenvolvimento de modelos de previsão financeira precisos, análise de comportamento proteico na célula, fatoração de grandes números compostos que formam a base da criptografia e por aí vai. Então, se P for igual a NP, todo problema NP conteria um atalho escondido que permitiria aos computadores encontrarem rapidamente uma solução para eles. Porém, se P for diferente de NP, então nenhum atalho existe, e a habilidade dos computadores em resolver problemas seriam fundamentalmente e permanentemente limitadas. Até agora ninguém provou se P é igual NP ou se P é diferente de NP.

Voltemos aos cientistas citados acima. Um, pesquisador da HP, tenta uma prova, que aparentemente já foi analisada por alguns pesquisadores e dada como fundamentalmente falha . O outro, um russo “maluco” que vive num pequeno apartamento com sua mãe em São Petersburgo, Rússia. Perelman (o russo “maluco” da foto) resolveu um dos problemas do milênio chamado conjectura de Poincaré, sobre geometria em três dimensões (topologia). Quando lhe ofereceram então o prêmio, ele disse que “obrigado, mas não é necessário”. Como assim? Um milhão (ma oiê!) e o camarada recusa? Pois foi assim e inclusive gerou até um livro de Masha Gessen chamado “Perfect Rigor: A Genius and the Mathematical Breakthrough of the Century”.

O que move as pessoas hoje em dia? O olho no prêmio ou a solução do problema? Por que o único que resolveu um dos problemas foi também aparentemente o único que não estava interessado no valor pago? Teria alguma relação o valor pago a motivar o verdadeiro talento pelo sentido errado e então fechar de fato as possibilidades reais ou será que quem pode resolver esses problemas não dá a mínima para o modelo de sociedade que vivemos hoje em dia?

De tudo que somos hoje, parece até que demos um enorme salto em relação ao povo antigo. Isso pode parecer verdadeiro se compararmos talvez a Idade Média com os dias atuais, mas não parece ser verdadeiro se compararmos com os Babilônios, Persas e Árabes antigos (para citar alguns) que fundamentaram a matemática, onde antes não havia nada proposto, nem internet para lermos algumas bases de apoio (o que será que continha na biblioteca de Alexandria?). E se a humanidade mudar o foco? Já pensou se em vez de dinheiro a motivação fosse o conhecimento? Já imaginou o quanto ganharíamos quando as pessoas recompensassem os trabalhos inúteis atuais removendo a pessoa desse trabalho e colocando-a para estudar? Um ascensorista poderia facilmente ser dispensado de seu trabalho e receber seu mesmo salário para estudar, e quem sabe produzir algum conhecimento útil, já que seu trabalho inútil não serve em nada a humanidade, como diz Domenico Di Masi em seu "O Ócio Criativo". A pergunta para uma resposta 42 pode estar ainda escondida dentro do planeta Terra, em meio aos circuitos humanos, esperando para ser revelada. Talvez o problema do mundo moderno seja a incompreensão dos motivadores para a felicidade, que não penso ser o par dinheiro + poder, mas o conhecimento.

domingo, 15 de agosto de 2010

Segundo Lugar

Tenho uma dificuldade tremenda para fazer ranking dos meus gostos e preferências. Difícil tarefa quando quero saber qual o melhor livro que li, qual o melhor filme, qual o melhor vinho, a melhor banda e por aí vai. Em filmes, após uma longa reflexão tempos atrás cheguei a conclusão que o meu melhor filme é Matrix, e em segundo lugar O Poderoso Chefão 1. Isso até ontem. Neste sábado assisti o filme "A Origem" (Inception) de Chistopher Nolan (Batman Begins, O Cavaleiro das Trevas, Amnésia e O Grande Truque), que desbancou meu segundo lugar. Não achei melhor que Matrix, pois me marcou muito na época, inclusive com a expectativa e das propagandas virais e tudo mais, mas em "A Origem" fui esperando nada (embora estivesse acompanhando as notícias da produção do filme) e obtive uma agradável surpresa. Não vou e nem quero falar sobre o filme em si para não estragar a surpresa. Se você não viu ainda corra antes que saia dos cinemas. Finalmente apareceu um excelente filme depois de algum tempo de amargura da sétima arte. Aliás, fui procurar o motivo do cinema ser "a sétima arte" e quem seriam as outras. Encontrei na Wikipedia que o italiano chamado Ricciotto Canudo escreveu um manifesto chamado "O nascimento da sexta arte" (The Birth of the Sixth Art) em 1911 propondo que o cinema seria uma nova forma de arte, que sintetizaria as cinco artes antigas propostas por Hegel (arquitetura, escultura, pintura, música e poesia) mais a dança (sexta arte), fazendo do cinema a sétima. Outras formas de arte foram adicionadas posteriormente, sendo a fotografia a oitava arte, os quadrinhos a nona, os jogos de vídeo a décima e a arte digital a décima primeira.
"A Origem" ganhou o segundo lugar no meu ranking de filmes preferidos. Fica aqui a dica do filme.

domingo, 8 de agosto de 2010

O Desconhecido

Essa semana passou no canal The History Channel uma série de programas na "Semana do Desconhecido". Muito me interessou um programa de duas horas exibido na segunda-feira basicamente sobre o livro "Eram os deuses astronautas" do escritor suíço Eric von Däniken. Nesse programa discutiu-se se existiu ajuda externa (extraterrestre) para que a humanidade construísse alguns monumentos que perduram até hoje, como as pirâmides, os desenhos nas rochas e plantações e outras construções, como na ilha da Páscoa. Intrigado com alguns temas, escrevi um email a um grande amigo para discutir alguns pontos.

Nesse programa, um dos assuntos que me chamou a atenção foi o que disseram sobre Enoque. Embora a história de Enoque tenha poucas linhas relatadas na Bíblia, e basicamente que ele foi viver com Deus que o arrebatou (veja bem, ele não morreu, mas Deus o capturou, arrebatou para si) Gn 5:24. E também em Hebreus confirma o ocorrido: "Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus." Hb 11:5. Segundo o programa, existe um livro apócrifo de Enoque dizendo que Deus então ensinou a ele a língua e a astronomia, e Enoque voltou a Terra para passar esse conhecimento ao homem, e uma de suas realizações foi ordenar a construção das pirâmides do Egito, em que o nome Enoque tem a mesma tradução do deus egípcio que ordenou a construção das mesmas. Ainda hoje as pirâmides causam espanto e uma infinidade de teorias sobre sua construção. Para os arqueólogos sérios elas foram construídas em 22 anos, mas para isso acontecer uma pedra deveria ser colocada a cada 9 segundos. Porém, tem um francês que teorizou sobre sua construção e sua teoria envolve trabalho humano mesmo, e muitos acreditam ser plausível sua tese. Mas ainda perdura o mistério do motivo para sua construção, o por quê de suas distâncias serem exatamente iguais a órbita dos planetas do sistema solar e por que será que os Maias construíram uma pirâmide mais ou menos na mesma época com exatamente a mesma área das pirâmides de Gizé? Como será que no sítio arqueológico de Tiwanaku na Bolívia possuem pedras que só são mais moles que o diamante, e apresentam cortes precisos, milimétricos, que só poderiam terem sido feitos com diamante e o uso de um torno?

Outro ponto abordado no programa foi a suposta "nave espacial" relatada por Ezequiel, no capítulo 1 do livro de Ezequiel, na Bíblia Sagrada. Diz assim:

"Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do norte, uma grande nuvem, com um fogo revolvendo-se nela, e um resplendor ao redor, e no meio dela havia uma coisa, como de cor de âmbar, que saía do meio do fogo." Ez 1:4

"E, quanto à semelhança dos seres viventes, o seu aspecto era como ardentes brasas de fogo, com uma aparência de lâmpadas; o fogo subia e descia por entre os seres viventes, e o fogo resplandecia, e do fogo saíam relâmpagos;" Ez 1:13

"O aspecto das rodas, e a obra delas, era como a cor de berilo; e as quatro tinham uma mesma semelhança; e o seu aspecto, e a sua obra, era como se estivera uma roda no meio de outra roda." Ez 1:16

Concordo também com meu amigo, que disse que a visão de Ezequiel não era precisa nem para ele, grifando os termos que envolviam "semelhança" e "era como" no texto. Aliás, gostaria de publicar suas respostas por completo, porém ainda não pedi sua autorização.

De qualquer forma é sabido tanto para cristãos quanto para cientistas que temos muito mistérios não respondidos. E se for tudo parte de uma coisa só? Como venho falando em alguns posts, será que tudo não faz parte da mesma coisa? Será a ciência e a religião não se complementam? Tenho minha fé na Bíblia, e respeito quem tem sua fé em outra coisa, como só na ciência, por exemplo (que é necessário muita fé, maior até que a fé em Deus). Acredito que a verdade será revelada em pouco tempo e todos saberemos os mistérios que tanto nos assola.

Ainda tenho alguns pensamentos. A humanidade está ficando mais cética. Constatei isso quando verifiquei a grande quantidade de ateus convictos amparados pela ciência, e assim colocando sua fé nela. A humanidade também está ficando mais espiritual. Constatei isso quando verifiquei a grande quantidade de religiões existentes, cultos, crenças, mandingas, superstições, "espiritualidade" e assim colocando sua fé nisso. A humanidade está ficando mais inteligente. Constatei isso quando vi a enorme quantidade de pesquisas científicas sendo publicadas, o genoma explorado, o conforto tecnológico e a informação disponível em todos os lugares a qualquer momento para qualquer um. A humanidade está ficando mais burra. Constatei isso quando vejo pessoas "googlando" para qualquer coisa e montam uma tese sobre um artigo de um blog de deus-sabe-quem, colhendo informações que não sabem a procedência e sua quantidade de verdade.

É, vamos esperar para ver.

sábado, 24 de julho de 2010

Estupidez

"Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações (...) Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão (...) Vamos comemorar como idiotas a cada fevereiro e feriado. Todos os mortos nas estradas e os mortos por falta de hospitais (...) Vamos celebrar os preconceitos, o voto dos analfabetos..."

Renato Russo dizia que escrevia letras com sentido amplo, não querendo significar algo muito específico, e fazer as pessoas pensarem, com frases que poderiam acomodar-se em determinada situação particular da vida de cada um. Acima, trechos da música "Perfeição" do CD "O Descobrimento do Brasil".

No final, a entonação muda, Renato Russo começa a cantar o oposto da ironia anterior:

"Venha! Meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa. Só a verdade me liberta. Chega de maldade e ilusão. Venha! O amor tem sempre a porta aberta. E vem chegando a primavera. Nosso futuro recomeça. Venha! Que o que vem é Perfeição!..."

Mudo para o livro (que terminei de ler recentemente) Out of the Silent Planet, de C. S. Lewis. Uma ficção científica de uma viagem a um planeta chamado Malacandra, e os seres que lá habitam, governados por Maleldil, Deus. Também o tema de ignorância da raça humana é discutido, e após algumas perguntas do motivo que agimos da maneira que agimos (no capítulo 20, já no fim, que me valeu a leitura), mesmo a questão feita para total descrente de qualquer forma de divindade, sendo este um cientista, a resposta final é um silêncio. O cientista diz "A vida é maior que qualquer sistema de moralidade. O que ela reivindica são absolutos. Não é por tabus tribais e máximas de livros copiados que ela persegue sua implacável marcha da ameba até o homem e do homem para a civilização." As perguntas então são feitas como: Com o que você se importa? Com o homem? Com a forma humana? Com a mente? Se fosse com o homem, não deveria você se importar com todo homem? Se fosse com a forma humana, essa forma não muda na evolução? Se fosse a mente, não deveria ser a mente de todos os homens, ou de toda a raça humana? Chegam então a uma conclusão que não é a criatura completa o objetivo do homem moderno, mas da semente da vida. Porém uma das coisas mais importantes para o homem é não temer a morte. Medo este que traz assassinato e rebelião. "If you were subjects of Maleldil you wold have peace" (Se vocês fossem subordinados de Meleldil [Deus] vocês teriam paz).

"Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio." Rm. 7:15

Ainda ontem li um trecho de Moby Dick:

"Quando os botes a circundaram mais de perto, toda a sua porção superior, grande parte da qual em geral fica submersa, estava bem visível. Seus olhos, ou melhor, os lugares onde antes estavam, podiam ser vistos. Do mesmo modo que substâncias estranhas crescem nos olhos dos nós dos carvalhos mais nobres, quando derrubados, assim também nos lugares onde os olhos da baleia haviam estado saíam bulbos cegos, uma comiseração horrível de ser vista. Mas não havia clemência. Apesar de toda a sua idade, apesar da sua única barbatana e dos seus olhos cegos, ela devia morrer aquela morte horrível, assassinada para iluminar as núpcias alegres e outras festividades dos homens, e também para iluminar as igrejas solenes que pregam que todos devem ser incondicionalmente inofensivos uns para os outros."
Moby Dick, Herman Melville, ed. Cosac Naify, Pág 381

Não comento mais nada. Só quero meditar um pouco nisso.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Malhação

Felipe Melo. Esse é o nome do nosso próximo Judas. Na copa passada foi Roberto Carlos e suas meias. Agora temos um mais novo boi de piranha. Não vamos cobrar o Dunga, nem o Kaká nem mais nenhum outro jogador. Inclusive o Dunga está com crédito por ter “brigado” com a Rede Globo e já circulou um email tornando-o rei.

E por que o futebol é tão importante para nós, brasileiros?

Para responder a essa pergunta volto à história. Um poeta romano chamado Juvenal (100 D.C.) criou uma expressão em seu poema Sátira para designar o tipo de política empregada pelo imperador Gaius Sempronius Gracchus (154 A.C. –121 A.C.) que virou moda e foi conhecida como panem et circenses, do latim, pão e circo. Consistia em manter a população feliz fazendo torneios de gladiadores nos quais eram feitos distribuição comida de graça. O povo, então feliz e de barriga cheia, abria mão de uma rebelião nos centros urbanos caóticos e escravizados. A proposta foi tão boa que passou a ser usada por governos opressores, onde o líder político passa a impressão de boa gente dando uma esmola enquanto enche os bolsos do dinheiro público. Bem, não preciso explicar mais nada se olhamos para nosso país. E quem é que compra todos os campeonatos de futebol para transmissões televisivas? Qual emissora detém a maioria do ibope televisivo brasileiro? Quem colocou e tirou presidente? Qual a influência dessa emissora na cabeça do povo, manipulado, que só sabe falar sobre novela, programa de reality show e fica satisfeitíssimo com o “Bolsa Família”? É muita teoria da conspiração para sua cabeça? Para a minha não é.

O futebol é incutido em nós, desde que nascemos, e aprendemos a gostar disso, fazendo uma quase religião com nosso time adorado. Não vejo mal em gostar de futebol, não quero passar essa impressão, mas vejo muito mal em pensar só em futebol. E como disse Platão, “O preço que os homens bons pagam pela indiferença aos assuntos públicos é ser governado por homens maus”. Na copa o país pára e isso é um grande exemplo de quão ligados estamos nesse esporte. Países desenvolvidos também gostam de futebol, como a Inglaterra, por exemplo, porém o povo sai às ruas para protestar contra aquilo que não concordam, fazendo sua parte em um negócio completamente desconhecido para nós chamado cidadania.

Enquanto não cai dos céus o país do futuro, ficamos aqui malhando nosso próximo Judas. Bem, eu já o malhei, e você?

sábado, 26 de junho de 2010

A busca pela Lógica

Possuímos um desejo perene que é a busca pela verdade. Normalmente não nos satisfazemos com algumas coisas e mesmo pequenos, na escola, refutamos ideias como: Por que tenho que ir para a escola? Por que preciso aprender Matemática? E assim por diante. Questionamos, ouvimos as respostas que nos são dadas, acreditamos ou não, nos conformamos ou não, e seguimos adiante, em busca do próximo passo, ou próximo nível. Mas, para Bertrand Russell a coisa não foi bem assim. Desde pequeno, ele era um menino curioso, que questionava as ordens de sua avó e se tornou posteriormente um grande filósofo matemático. No gibi chamado Logicomix nos é apresentado a vida de Bertrand Russell contada por dois filósofos gregos chamados Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou. Sem dúvida nenhuma esse trabalho, além de muito interessante, é uma obra de arte. Utilizar o gibi para discorrer sobre um assunto indigesto que é a matemática, especialmente a lógica, e a vida de um matemático poderia matar qualquer um de tédio, mas não é o que acontece nesse caso. O livro-gibi é extremamente divertido, e muito intrigante. Confesso que não conhecia a obra de Russell, e fiquei espantado com a angústia desse homem que queria a todo custo questionar os axiomas matemáticos mais básicos, como Euclides por exemplo, e iniciou uma obra para provar a fundação lógica de toda a matemática.

O que chamou a atenção do mundo e tirou Russell do anonimato foi seu paradoxo, conhecido como paradoxo de Russell que prova, por meio de um questionamento, que a teoria dos conjuntos de Georg Cantor e Gottlob Frenge é contraditória. Poderia um conjunto de todos os conjuntos os quais não contém a si próprios conter ele mesmo? Se sim, então não pode. Se não, então pode. [1] Isso gera um paradoxo, como o paradoxo do barbeiro, de Kurt Godel e o paradoxo da enciclopédia. Seria como disse Euboulides: "Caros cidadãos, estou agora mentindo para vocês." Se ele está dizendo a verdade, então está mentindo. Se está mentindo, então está dizendo a verdade.

Uma das coisas que me chamaram a atenção na obra é que Russell foi procurar Cantor para lhe questionar sobre a teoria dos conjuntos e encontrou Georg Cantor numa espécie de hospital psiquiátrico, pois não estava em seu pleno juízo. Quando Russell ao questioná-lo, viu que ele começou a falar coisas estranhas, sem muito sentido e soltou em uma de suas frases: "Jesus Cristo era na verdade filho de... José de Arimatéia!" [2]. Nos quadros seguintes mostra Russell abandonando o hospital, ainda abalado com o estado do matemático, mas a frase ficou na minha cabeça. Mais a frente, quando é publicado o paradoxo de Russell, uma enfermeia estava lendo-o para Georg Cantor, que explodiu num grito e chacoalhando a funcionária do hospital pelos ombros disse: "Finalmente sou um homem livre! Você não entende? O inglês provou que o 'Conjunto de todos os conjuntos' é uma impossibilidade! Meu monstro, o usurpador da grandeza absoluta de Deus não existe mais! Eu estou salvo..." [3] Interessante isso, não? O que gerava angústia naquele homem era pensar ter criado algo que iria contra a onipotência de Deus, e viu-se livre quando finalmente compreendeu o desfecho daquilo. Imediatamente pensei em alguns que questionam Deus se perguntando por que então Deus então não cria uma pedra que ele mesmo não consegue levantar?

Russell coloca então uma frase, que também fiquei pensando: "Dada uma certa quantia de irracionalidade, alguns podem ler religião até mesmo na lógica." [4] Apesar de seu ostracismo de uma vida religiosa, vê-se que preconceitos permeiam a mente de Russell, bem justificados com o que viveu da ignorância de sua família, e o que acontece com a maioria dos cientistas, que tentam afastar a ciência de Deus e Deus da ciência, e não percebem que tudo só faz sentido se colocados no mesmo plano.

Para finalizar, após ter terminado o volume dois de seu trabalho entitulado “The Foundations of Arithmetic”, Gottlob colocou um adendo no final, pois dobrou-se à publicação da obra, mesmo que abalada em suas fundações. O adendo diz que “Dificilmente alguma coisa mais infortúnia pode suceder para um escritor científico do que ter uma das fundações de seu edifício abalado após o trabalho estar terminado” e cita o trabalho de Bertrand Russell, que obteve o colapso de uma de suas leis. Colocar isso em seu livro foi um verdadeiro ato de honestidade intelectual, elogiado pelo próprio Russell em seu discurso de 4 de setembro de 1939, três dias após Hitler invadir a Polônia em seu Blitzkrieg.

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[1] - “Does the set of all sets which do not contain themselves contain itseft? If it does, then it doesn’t. And if it doesn’t, then it does!”

[2] - "Jesus Christ was in reality the son of… Joseph of Arimathea!"

[3] - “I’m a free man at last! Don’t you understand? The Englishman proved the ‘Set of all sets’ is an impossibility! My monster, the usurper of God’s Absolute Greatness thus no longer exists! I’m saved...”

[4] - “Given the right amount of irrationality, one can read religion even in Logic”

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bom Gosto

Estava lendo um artigo na revista Filosofia da editora Escala chamado “O Gosto dos Outros”, de Flávio Paranhos, o qual ele cita um filme que gosto muito chamado Sideways, e fala do bom gosto. Não só o bom gosto mas a mudança de gosto com a mudança de contexto. Logo me lembro de ter ficado horrorizado com um colega de trabalho ter comentado que não gostou do filme “O Livro de Eli”. Gosto é gosto, claro. Mas como pode não ter gostado desse filme? É aí que comecei a pensar no assunto. Nesse artigo da revista, Paranhos pergunta: “O que é o gosto? É possível gostar de algo ‘objetivamente’?”. Daí uma dúvida quanto à importância de uma crítica literária, de cinema, de vinho, etc. O que vale nesse aspecto é o gosto do cidadão e o que aquilo o remeteu no íntimo. E esse gosto muda, de acordo com o contexto. Um exemplo disso é pegar algum material ruim de seu autor preferido e lê-lo sem saber de quem se trata. Provavelmente você achará ruim, mas se souber que se trata do seu autor preferido, certamente olhará com outros olhos e sua crítica muda a partir daí. Gostei do filme “Cloverfield” porque é do J. J. Abrams, o qual gosto, mas pode ser que se o assistisse não sabendo disso acharia uma cópia barata de “A Bruxa de Blair”, por usar a mesma fórmula. Concordo com o artigo da revista que diz que somos todos arbitrários em nossas condenações e exaltações.

O problema disso tudo é a arrogância. Não gosto de Machado de Assis, embora seja leitor. Quando comento isso (que, aliás, evito), os que lêem clássicos me olham com total e mais absoluto desprezo. Como se fosse uma heresia monstro falar uma coisas dessas. Claro, para ele é, para mim não. Lembro-me de um amigo que toda vez que nos encontramos comenta do filme “O Cheiro do Ralo”, o qual, inocentemente, lhe recomendei e dei motivos para uma eterna brincadeira que sempre é feita quando digo que algo é bom. Ele odiou o filme, e eu gostei muito, e poderia dar uma centena de argumentos e não mudaria sua perspectiva ou opinião. “É ruim e ponto”, ele me disse. Por que será que gostei então? Fazemos parte de um grupo de amigos com mais ou menos a mesma estrutura cultural. Isso me fez pensar ainda mais no por quê de ter gostado daquele filme. Realmente é um filme diferente. Talvez por isso mesmo, por não esperar um final feliz ou uma obviedade que me fez gostar. Um outro amigo só gosta de filmes que tenham final feliz. Tem que dar tudo certo para ser bom. Eu já penso diferente. Se der tudo exatamente como planejado, qual o sentido de ficar até o fim assistindo? Se já sei como termina, para que perder todo esse tempo? Não que isso seja regra, pois gostei muito de “O Senhor dos Anéis”, mas foi por outros motivos e não especificamente o final.

E também pensei em outra coisa: Vale a pena ler uma crítica de um filme antes de assisti-lo? Você deixaria de comprar um jogo de vídeo game após as críticas ruins? Muitas pessoas, incluindo eu, são influenciadas pelo gosto dos outros. A crítica nada mais é que uma tentativa de racionalizar um gosto subjetivo. E assim como Paranhos descreve no artigo “Primeiro gostamos, depois racionalizamos. Primeiro subjetivamos, depois objetivamos. Primeiro inconscientes, depois conscientes.”. Só sei de uma coisa: Evito ao máximo indicar alguma coisa. Se o faço é porque alguém me pergunta diretamente. Não temos capacidade de entender o tipo de gosto de cada um e acertar todas as vezes. Chegamos perto, mas as vezes que erramos escutamos eternamente.

sábado, 15 de maio de 2010

Fast-thinking

Filosofando mais um pouco a respeito de Arthur C. Clarke e sua obra, comentei com alguns amigos sobre “Encontro com Rama” que disse não ter gostado em um dos meus posts. Ainda continuo não gostando, porém não tiro o mérito do autor. O estilo de Clarke é do tipo “deixa a vida me levar”, e pouca explicação é proposital por parte dele. Clarke, a meu ver, necessita fazer você pensar sobre o que ele propôs e não significa que você deva pensar necessariamente o que ele pensa. Após "Encontro com Rama" assisti novamente a “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick + Clarke. Lembro-me de ter gostado parcialmente do filme, e, depois que ouvi algumas opiniões, revi o filme com outro conceito. É inegável que o filme é bom, porém não é um filme normal, covenhamos. Não é um filme como a maioria dos filmes são produzidos, com uma história linear, amarrada e devidamente explicada no final. No filme, o que importa é a sua interpretação para o que é apresentado, e não há uma resposta definitiva, mas um conjunto de imagens que compõem um pensamento do que possa ter acontecido.

O estilo de Clarke, segundo ouvi, não é o de pegar na sua mão e te levar aonde ele quer chegar, mas te indicar um (possível) caminho e você o caminha sozinho. Diferente de Asimov, o qual prefiro, Clarke não impõe um desfecho, mas sugere um princípio. Não deixa de ser muito interessante, e acredito que fui precipitado em escrever o post antes de pensar mais a respeito.

Gosto de conhecer o propósito do autor quando escreveu determinado texto, e um excelente post sobre a falácia intencional pode ser encontrado aqui. Esta mesma falácia intencional acabou me ajudando a entender os motivos de Clarke sobre “Encontro com Rama”. Comecei então a pensar nos motivos que me levaram a não gostar desse livro.

Tratei de analisar o mundo atual, a sociedade em que vivemos e nossas necessidades modernas e como fui influenciado por elas. No mundo apressado, procuramos facilidades. Não estamos querendo pensar, demorar, analisar, ou filosofar. Queremos que acabe logo para consumir o próximo. Interessante isso. Os filmes ficam mais óbvios, os jogos de video game mais curtos, os livros mais finos, e os pensamentos mais guiados. Não consigo pensar no Clarke escrevendo um livro para ganhar dinheiro somente e escrever o próximo na sequência, mas consigo facilmente pensar isso do Dan Brown, que sempre escreve um livro/roteiro de filme. Não que seja ruim, inclusive gostei muito de “O Símbolo Perdido”, mas caminhamos para o "já pronto". Desde comida para microondas até livros. Você já percebeu quantos livros de auto-ajuda existem nas prateleiras das livrarias? Acho que já comentei isso antes, mas a cada vez que entro em alguma livraria me assusta um pouco a enorme pilha de livros querendo te dar algum conselho importantíssimo que vai mudar sua vida. A sociedade hoje está caminhando para uma total submissão das opiniões de quem fez algo importante, sem prestar atenção se aquilo é bom, se é relevante, se faz sentido para si, se contradiz algum princípio, se é verdadeiro, etc. Hoje mesmo estava falando com um amigo sobre os motivos em que as pessoas acreditam em qualquer coisa e desacreditam em uma base de onde aquilo partiu. Como já falei anteriormente, A Bíblia para mim faz sentido, ao contrário da sorte incrível do nada ter criado tudo, e faz sentido a cada vez que a estudo, a cada descoberta da ciência, a cada análise. No livro “Milagres” de C. S. Lewis (autor de Crônicas de Narnia), existe um pensamento sobre o raciocínio lógico que não se sustenta. Muito interessante, mas vejo que poucos se interessam em uma segunda opinião daquilo que tomam como certo. Percebo que hoje, as pessoas se enfurecem quando tocadas com assuntos que desmontam sua linha de raciocínio ou opiniões formadas. Depois do fast-food, estamos tendo o fast-thinking. Não analisamos, só acreditamos. Se não está no Google, não existe. Desdenhamos de tudo que não entendemos.

Vou tentar mudar minhas análises literárias, mas sigo preferindo Asimov.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Bye, bye, James

Essa semana fui acometido com uma notícia um tanto triste: James Gosling, o pai do Java, está deixando a companhia. Após a compra da Sun pela Oracle, é natural que cabeças rolem, mas fiquei surpreso de saber que a cabeça em questão era o mentor chefe da linguagem em que me sustento nos dias de hoje. Ontem estava estudando um pouco a linguagem e percebi a complexidade em que as coisas se tornaram. A quantidade de frameworks [1] em Java é tanta que é praticamente impossível estudar todas elas. O profissional hoje no máximo trabalha com duas a três frameworks principais, as quais deve conhecer bem, e o resto ele “já ouviu falar” e corre atrás do Google por referências. Nessa abordagem, temos vários problemas envolvidos: Dificuldade de encontrar profissional sênior em determinada framework (que tenha desenvolvido pelo menos cinco projetos inteiros ou três anos de experiência, o que vier primeiro), codificação porca e confusa, arquitetura falha, dificuldade de manutenção, uso inadequado de funcionalidade e por aí vai. Com as linguagens atuais mais fáceis, como Ruby, .NET ou até mesmo o bom e velho PHP, o Java perdeu um pouco de espaço. Hoje, para o profissional, a quantidade de frameworks, ferramentas de desenvolvimento, banco de dados, padrões de projetos em Java é tanta que ninguém mais consegue ficar atualizado. Não dá para discernir sobre o que estudar e o que esquecer.

Algumas vezes comento isso com colegas de trabalho e a resposta que ouço não varia muito. “Vá estudar VB então que é mais fácil.” Ou então “Java não é para qualquer um mesmo”. Hoje em dia o programador Java se comporta como o programador C++ de dez anos atrás.

Einstein mudou a física com sua simplicidade de pensamento, e a equação que todos lembram é E=mc2. Simples. Einstein também tinha uma máxima que dizia “Tudo tem que ser feito de maneira mais simples possível, mas não simplória”. Há um princípio chamado KISS (Keep It Simple and Stupid) que prega a simplicidade nos projetos. Quem cunhou esse termo foi Kelly Johnson, engenheiro do Lockheed Skunk Works (criadores do avião-espião Blackbird). Leonardo Da Vinci dizia que “A simplicidade é a sofisticação definitiva”. Não vejo Java como sendo simples. Não vejo jovens querendo aprender Java. Como em alguns artigos que li recentemente, parece haver uma tendência de premeditar a morte do Java baseado nisso. Será que não é hora de mudar?

Se mantivermos esse modelo lento, estaremos com a morte da linguagem decretada. É preciso inovar, e rápido.
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[1] Frameworks são bibliotecas que proveem funcionalidades genéricas, e que permitem uma customização de acordo com o projeto em questão.