quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uva-passa


“Tudo passa. O tempo passa. Até a uva...” A frase infame é tão ruim quanto a fruta desidratada. Estávamos conversando esses dias no café enquanto tentava comer uma daquelas barrinhas de cereal sonho de papagaio de pobre. Na minha barrinha tinha adivinha o que? A maldita da sem-graça entrona da uva-passa. Olhei novamente a embalagem e dizia: Sabor Maçã. Maçã é igual a uva-passa, meu Deus? Conheço poucas, muito poucas pessoas que ousam dizer na minha cara que gostam de uva-passa. E todo fim de ano é aquela mesma coisa de ficar caçando as malditas no panetone pra arrancá-las sumariamente e não deixar que estraguem o bolo italiano. Comecei a comprar chocotone por causa delas! E ainda tem a noite de Natal em que as pessoas fazem arroz (salgado e quente, portanto) com essas coisas pretas que agora não quero mais mencionar o nome. Que mau gosto! Como pode alguém gostar disso? Seria o mesmo que alguém gostar de alface, mas pelo menos o alface não tem essa consistência de doce de saco de bode. Tudo bem que gosto é gosto, já até aceito a fanta uva (que quando fica sem gás se transforma em fanta-uva-passa?), mas uva-passa é demais.

Será que a uva-passa é algum experimento do governo, parte de alguma conspiração mundial, para tornar a humanidade mais dócil frente às amarguras da vida? Sério, quando você a come, às vezes despercebida dentro do seu açaí, dá uma depressão tão grande... Aí faz-se aquela careta de boi bumbá psicodélico, querendo arrumar um canto pra cuspir a porcaria mole grudando no seu pivô, criando uma sensação de inferioridade entre os demais. Você se sente traído, pois não tinha percebido que aquela merda estava incutida aí, sorrateira, no meio da sua granola, disfarçada de algo saudável. E muitas vezes tem que engoli-la para não fazer feio em local público. Isso é colocado no meio das coisas mesmo sem as pessoas gostarem. Parece aqueles cartazes de pessoas felizes dando uma estrela na praia. Já percebeu que tem um monte de anúncio de pessoas felizes dando uma estrela? Quando eu fico feliz nunca me imaginei dando uma estrela, mas sempre tem aquela propaganda de alguém que ganha na loteria e a primeira coisa (após o infame iuhú) é virar uma estrela no meio do escritório. Que coisa mais boba. Quem falou que isso é sinônimo de felicidade? Deve ser a mesma pessoa que disse que é bom enfiar uva passa guela abaixo em tudo quanto é alimento.

Não concordo em colocar essa porcaria no meio do cereal (nem no meio de nada, a não ser no meio do lixo). Primeiro: Uva é cereal? Segundo: Quem gosta dessa porcaria levanta a mão! Chupar uva já é um negócio estranho, você ali engolindo aquela ostra doce com aparência de catarro, jogando a casca fora, agora imagina isso seco ao sol. Tudo de ruim. Esse post é um manifesto contra a migração predatória das uvas-passas nos alimentos considerados bons, como panetone, granola, sorvete, pudim, pães, barra de cereal e arroz (que é o pior caso esse último, porque ela além de uva, de passa, num meio salgado, ainda está quente). Vocês mães, tias e avós façam uma caridade de não colocar mais esse negócio no arroz de Natal. Eu sei que foi chique um dia, que traz prosperidade, ou qualquer outra coisa que vocês inventem para nos convencer, mas a grande maioria não gosta desse treco preto grudento mole. Se você gosta, compre um saquinho a parte e coloque no meio do seu arroz, ora. Agora vou ter que comer uma caixa de barra de cereal de maçã (que não menciona ter uva-passa na caixa) com essa porcaria no meio, porque nem poder tirar não dá, já que está incutida no doce. Faça-me o favor... Uva-passa: Passo longe.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Duna

Dez mil anos após a grande guerra Butlerian Jihad que eliminou todos os computadores pensantes do Universo, que ocorreu há onze mil anos de nossa data, começa a história de Duna. Então, lá para o ano 21.000 a humanidade colonizou diversos planetas e um grande Império surgiu (mas não é aquele império que você conhece, porque Duna foi escrito em 1965, e, portanto, antes de Star Wars). Esse império, controlado então por um Imperador, mantém o poder distribuído em casas aristocráticas que respondem a ele, divididas nas Casa dos Atreides, Casa dos Harkonnens e Casa dos Corrinos. A estória de ficção científica de Duna é mais geopolítica do que tecnológica, e é aí que esse excepcional livro conta com alegorias para um possível futuro da humanidade, que viveria então num feudo.

Frank Herbert, o autor, disse quando vivo que se baseou em alegorias para recriar seu universo, onde teríamos a briga por um produto, que no caso do livro se chama Melange (ou especiaria), que podemos fazer um paralelo com o petróleo, em um planeta deserto, que podemos visualizar o Oriente Médio, e um povo rebelde chamado de Fremen, que podemos comparar com os árabes, talvez (pois o personagem principal do livro pode ser comparado a T.E. Lawrense e sua ligação com o povo árabe na revolta contra os Turcos Otomanos em 1916, rendendo até um filme, Lawrense da Arábia). Nesse complicado enredo, começa uma história rica em detalhes de como a humanidade evoluiu.

Como mencionei acima, existiu uma guerra, em que a humanidade venceu os computadores, que em dado momento no futuro tomaram consciência e se rebelaram contra nós. Após a eliminação dessas máquinas pensantes, instituiu-se uma ordem religiosa, e uma nova Bíblia, chamada de Bíblia Católica Laranja (O. C. Bible) que compilava assim vários pensamentos de várias religiões ali então resumidas. Num desses versículos-mandamento, existia um que dizia “Vós não deveis produzir uma máquina tal qual a mente humana.” [1], numa tradução livre. Por isso a partir daquele ponto evoluiu-se com tecnologia genética (e tecnologia não-pensante), para produzir seres humanos aptos a determinadas áreas, como por exemplo os Mentat, que eram pessoas com habilidades incríveis de cálculos, substituindo assim os computadores, que traçavam rotas para viagens espaciais. E várias ordens surgiram, como por exemplo as Bene Gesserit, que era uma irmandade de mulheres-bruxas com poderes mentais que procuravam há mil anos um messias, fazendo conexões genéticas com casamentos arranjados. Esse messias iria ter um poder mental enorme, podendo num ritual de passagem ingerir uma quantidade grande de veneno, remover esse veneno do seu corpo e assim se conectar com memórias ancestrais de todas as Bene Gesserit e ainda ter precognição. Dentro desses detalhes, Duna vai evoluindo e prendendo cada vez mais a atenção, fazendo com que você não encontre paralelo em nenhuma obra anterior a ela e influenciando um monte de filmes e livros a partir dela. O interesse do livro é uma geopolítica futurística que deixa um pouco de lado as explicações científicas, como vemos nos livros do Asimov por exemplo, puxando para questões mais filosóficas. Quem controlava esse melange, que seria o bem mais importante do universo, controlava então todo o universo por consequência. O melange, substância que só existe no planeta Arrakis (conhecido como Duna pelos seus desertos), era controlado pela Casa dos Harkonnen que lá estavam há tempos, determinado assim pelo imperador. O melange era produzido pelos excrementos de um verme de quatrocentos metros que vagava pelos desertos de Duna, temido por todos, fazendo com que a extração da especiaria fosse bem difícil e arriscada. Essa especiaria quando consumida dava alguns poderes especiais, e o mais importante deles era a pré-cognição, permitindo assim viagens espaciais distantes, o que movimentava toda uma economia no universo.

O feudo rival dos Harkonnens, chamado de Casa dos Atreides começava a ganhar poder e influência, comandada pelo Duque Leto. O imperador então troca de poderes e manda a Casa dos Atreides dominar Duna e a retirada da Casa dos Harkonnens de lá, que já tinham ganhado um bom poder com a exploração, para balancear um pouco os poderes no universo entre as casas aristocráticas. Só que as coisas não foram tão simples assim e uma armadilha esperava os Atreides em Duna. A companheira de Duque Leto, Jéssica, que é uma Bene Gesserit, treina seu filho Paul (filho do Duque) com todo o treinamento proibido dessa irmandade de mulheres, e aí a coisa fica interessante. Paul tem algumas visões do futuro, e ligado ao fato que Jéssica deveria ter tido uma menina e essa menina poderia ter gerado o esperado messias segundo as Bene Gesserit, Paul começa a dar indícios de ser ele o próprio messias. No planeta Duna, o povo que lá vive, os Fremen, espera a chegada de um messias, que os libertaria da dominação das casas aristocráticas e transformaria Duna em um planeta com água abundante, já que lá a água é um artigo raríssimo. Inclusive quando uma pessoa da tribo dos Fremen (os nativos de Duna) morre a água do seu corpo é retirada e filtrada, e devolvida para a tribo para consumo. As pessoas andam em trajes que não deixam nenhuma umidade sair do corpo (os stillsuits), filtrando suor, urina (e fezes), retornando num processo límpido para que a pessoa beba (isso é nojento, eu sei, mas o processo é muito bom, parecido com a Sabesp que filtra a merda da represa Billings, só que tudo dentro de uma roupa).

Os detalhes dessa trama são bem complexos e tornam Duna um clássico. Frank Herbert escreveu seis livros de Duna antes de morrer, e o filho dele continuou o trabalho com mais treze livros. A história fecha completamente no primeiro livro, mas agora quero ler os demais porque me empolguei muito com a obra.

Sem querer deixar spoilers aqui, só posso dizer que Duna é leitura obrigatória para quem gosta de ficção científica, sendo uma alegoria do mundo atual e no que poderemos nos tornar.

[1] “Thou shalt not make a machine in the likeness of a human mind.”

Links de referência (contém spoilers):
Jovem Nerd: http://jovemnerd.ig.com.br/nerdcast/nerdcast-227-as-dunas-de-duna/
Wiki: http://en.wikipedia.org/wiki/Dune_universe

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Nobel de Física 2010

Hoje o mundo conheceu os vencedores do Nobel de Física, pela descoberta do material mais resistente do mundo: O Grafeno. Andre Geim e Kostya Novoselov ganharam um milhão e meio de dólares (ou 10 milhões de coroas suecas) pelo Nobel e seus estudos podem mudar mais uma vez o mundo dos componentes eletrônicos, que agora podem ter grafeno em sua fabricação. Os designers de chips de computadores estão enfrentando alguns problemas atualmente, pois um chip é feito com centenas de milhões de transístores e o tamanho desses transístores continua a diminuir, junto com o número de átomos disponíveis para um único transístor. Até um certo ponto em que não teremos átomos suficientes para conduzir a eletricidade necessária para fazê-lo funcionar. Isso aparentemente foi resolvido com o uso do Grafeno.

O Grafeno consiste em átomos de carbono em forma hexagonal (como os favos de mel) arranjados de forma bi-dimensional em uma folha com um átomo de espessura. Muitas vezes mais resistente que o aço, ele precisaria de um elefante sobre a ponta de um lápis para ser perfurado. Esse incrível material pode ter muitas aplicações, como detecção de moléculas de gás, transístores mais rápidos, circuitos integrados, ultracapacitores e até um bactericida, veja só. A Academia de Ciências da China provou que folhas de óxido de grafeno são muito efetivas contra bactérias, como a E.Coli, causadora da meningite, infecção urinária e outras doenças.

A notícia do Nobel rodou o mundo todo e vários sites de notícias apresentam matérias completas sobre o assunto, por isso falar sobre a notícia em si não foi o que despertou minha motivação em escrever esse post, mas devido ao curioso fato de Andre Geim, um russo naturalizado holandês ter ganhado o prêmio Ig Nobel dez anos atrás.

Assim como o Darwin Awards premia as mortes mais estúpidas (em que nosso padre Adelir de Carli, dos balões, ganhou em 2008), o prêmio Ig Nobel é uma brincadeira que premia as pesquisas mais insignificantes produzidas pela infinita imaginação humana. Em 2000 Andre Geim ganhou o Ig Nobel por usar campos magnéticos para fazer levitar um sapo!

A inteligência de Geim é indiscutível, e sua criatividade também parece que alcança altos níveis. Não temos uma aplicação prática para sapos flutuando, mas o grafeno pode mudar o rumo da indústria eletrônica e consequentemente nosso futuro. No modelo de Renzulli o conceito de indivíduo superdotado é multidimensional, fugindo um pouco do puro gênio acadêmico, resultado de três fatores (no mínimo): inteligência acima da média, criatividade e motivação. Acredito que Andre Gaim tenha os três, pois além de inteligência e criatividade, tem que ter muita motivação para continuar um estudo sério após um prêmio Ig Nobel.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Cabana

Preconceito. Essa palavra não tão pequena também é grande em minar algumas coisas potencialmente boas em nós. Orgulho. Outra palavra que para C. S. Lewis era o maior dos pecados humanos, e por meio do orgulho os demais pecados eram cometidos. Falei há dois anos que não iria ler o livro A Cabana. Por dois motivos básicos: Orgulho (achava que sabia o conteúdo do livro), e preconceito, após ler uma crítica cristã nesse site. Segundo a crítica do pastor presbiteriano Dr. Tim Keller, o livro A Cabana o preocupou muito com o seguinte comentário: “Qualquer um que é fortemente influenciado pelo mundo imaginativo de A Cabana estará totalmente despreparado para o muito mais multi-dimensional e complexo Deus que você conhece quando lê a Bíblia. Nos livros proféticos o leitor encontrará um Deus que está constantemente condenando e jurando julgamentos a seus inimigos, enquanto as pessoas do Deus-trino de A Cabana repetidamente negam que o pecado os ofende.”

Porém li o livro e não encontrei tal afirmação, ou pelo menos não entendi assim. Existe uma parte que Deus pergunta a Mack, personagem principal, se ele continua amando seus filhos quando fazem coisas erradas, que o desagradam. Mack responde que é claro que continua amando-os. O que o autor William P. Young quer mostrar no livro, no meu entender, é um Deus de amor, e enfatiza três pontos que são explicados: A Graça, O Sofrimento Humano e o Amor de Deus. Lá, no livro, não li em nenhum momento nada que justificasse não ler o livro, pois é um livro que dá esperança às pessoas, principalmente as que vivem um grande sofrimento, mostrando um Deus que é amor e fortemente baseados no novo testamento, pois é apenas em Jesus que podemos ter salvação, e não na lei, ora pois. O que venho percebendo de alguns pastores é que se mostrarmos um Deus para o qual você não pode fazer nada para obter sua salvação é motivo de problemas e preocupações futuras. Por que então mostrar um Deus que vai te condenar, te mandar pro inferno, te queimar vivo, etc, se você pode obter sua salvação apenas e tão somente pela Graça, ou seja, fazendo ou não fazendo nada? Foi mais ou menos essa a mensagem que entendi do livro, e as “preocupações” do Dr. Keller na minha opinião são mais furadas que isopor de algodão doce. Ainda bem que me interessei por ler o livro e achei muito bom, de fato, sem me preocupar em estar “indo contra as escrituras”. Decidi ler o livro após meu post chamado Bom Gosto, em que expliquei alguns cuidados com críticas.

O Deus de A Cabana busca por um relacionamento verdadeiro com o indivíduo, por completo, e não só nas missas e cultos de domingo. Nem nas rápidas orações antes de dormir. Deus não quer obrigações, pois isso não é amor, certo? Por que você gosta de estar entre amigos conversando e se divertindo? Será que se fosse imposto um monte de regras de comportamento você iria ainda querer ir no happy-hour? Isso também não quer dizer que viva a vida como quiser, penso eu. Mas pelo amor e vivência com Deus você acaba por viver uma vida digna e justa, mas não é vivendo uma vida digna e justa que encontrará Deus. Jesus só andava com quem não prestava na época, e todos receberam o Espírito Santo, e APÓS viver com Jesus viveram uma vida digna e justa. Jesus não escolheu só os mais justos ou crentes para conviver, ou foi? Pense em Pedro, que sacou a orelha do cabra na peixeira. Ou Mateus que era cobrador de impostos (um maldito para todos). Não me parecem pessoas bem quistas.

“O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: O Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.
O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: O Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.” Lucas 18:11-14

Não gostei da crítica do Pastor Keller após ler o livro. O li com os dois pés atrás e percebi que ele, o pastor, prefere ver o Deus que julga, que arrebenta, que destrói, que fulmina, que desce fogo do céu, que transforma em estátua de sal, que arrebenta cidades inteiras a ver o Deus na figura de Jesus, pedindo para amarmos uns aos outros e buscar primeiro o Reino de Deus, e todas as coisas serão acrescentadas. E o Deus que se apresenta na Cabana de forma nenhuma é o Deus resumido, mas naquela ocasião, para aquela pessoa específica, ele se apresentou daquela forma para curá-lo através do perdão, e precisava mostrar a Mack (personagem principal) o amor, mas não significa como afirma o pastor Keller que Deus é somente aquilo. Não é só aquilo e diversas vezes é afirmado frases do tipo “você não entende a dimensão das coisas”, ou seja, Deus é muito mais que aquilo apresentado, mas aquilo apresentado ainda é Deus, e não o que afirmou o pastor que “meio deus não é Deus”. Não foi isso que foi mostrado no livro. O Deus apresentado foi sim de acordo com as escrituras e omitido suas muitas faces, pois naquele momento o importante era mostrar uma delas, na figura de Jesus, o perdão, amor e graça, que era o que necessitava aquele personagem naquele momento, ou será que isso não vem de Deus? No caso, Mack já conhecia a lei, pois frequentava a igreja. O que ele não conhecia era o amor, perdão e não sentia a presença de Deus. Foi por isso que Deus revelou sua face encoberta a ele, Mack.

O Temor a Deus é algo sim necessário a todos nós, mas não devemos ter medo de Deus. Temor não significa ter medo. Temor é respeito máximo, prostração e adoração, mas deixe a porta aberta para quem bate, e não tema o resultado. Aí você se verá livre de obrigações e conhecerá a felicidade, sem cobranças, sem obrigações, sem medo, sem culpa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Dia a dia

“Mano, deixa eu te contar uma coisa, cê não vai acreditar como tem trouxa no mundo: Um cara tava andando hoje na rua e um senhor logo na frente dele deixou cair uma nota de cinquenta reais. O cara foi lá e devolveu, cê acredita?”

“Ah, sério? Que babaca.”

“Pois é, cara. Ainda ficou andando na calçada com cara de bobo e passou um carro de propósito na poça e molhou ele todo, hahahaha.”

“Putz, um tonto assim tem que se ferrar mesmo.”

“É, cara, tô falando, como tem trouxa no mundo. Ontem mesmo tava vendo o movimento na barraca do Mané, de DVD pirata, sabe?”

“Sei.”

“Até tenho que ver essa parada. Chegaram vários filmes, um que tava no cinema aí de um treco de sonho, umas paradas assim, sei lá o nome.”

“A Origem?”

“Esse mesmo, com o Leonardo Di Caprio. Vixi, comprei mas vou ver se troco. Não entendi nada, mano, puta bagulho complicado. Vou falar pro Mané que tava com defeito pra ver se ele troca pra mim. Então, o Mané tá zuado, mano. Ele me deu cinco paus de troco a mais. Fiquei bem quieto, é lógico né?”

“Claro, é assim que deve ser. Se ele deu a mais é porque tá sobrando, hahahaha.”

“É, isso mesmo. Cara, cê viu o poster do Tiririca, mano? Nossa, muito legal. Vou votar nele. Putz, acho ele muito engraçado. Ele não sabe nada, mano. Vai ser a maior palhaçada se ele ganhar. Imagina ele no governo? Hahahaha, nossa, só de pensar já tô rindo...”

“É, é capaz que ganhe mesmo. Tá bem comentado na praça.”

“Pois é, ah mas é melhor votar nele que votar num zé-ruela aí que vai roubar nós mesmo, de qualquer jeito. Aliás, se eu tivesse lá roubaria do mesmo jeito. Ia fazer meu pé de meia e no que roubasse em quatro anos não trabalharia nunca mais. Ah mano, aqui tem que ser esperto. Nego trouxa só se ferra nesse país. E tem trouxa ainda que se diz honesto. Igual ao Nestor, puta babaca. Fica me enchendo toda vez que me vê com game pirata do meu Xbox, mano. Ah, vai se catar!”

“Ele por acaso tem original?”

“Não, pior que não. Ele disse que não tem grana pra comprar os jogos e preferiu não ter o Xbox. Vai ser trouxa assim lá longe. Bicho burro. Todo mundo pirateia, mano. Ele acha que vai mudar o mundo assim? Ah, vá se catar. Até evito falar com ele. Cara chato do inferno... Opa, fala pai, e aí?”

“Vamos povo, vamos que já tá tarde.”

“Tá pai, vamo. Ah, vamos passar na barraca do Mané antes, tá? Falou futuro, já tô indo. Até amanhã!”

“Falou, povo!”

sábado, 21 de agosto de 2010

O problema do mundo moderno

Há alguma discussão se a humanidade está realmente ficando mais inteligente ou se está emburrecendo. Comentei um pouco disso em meus últimos posts, acredito. Até hoje ficamos imaginando como foi possível que o mundo antigo desenvolveu tantas coisas com a tecnologia da época, como as pirâmides, por exemplo. Nesse mês um indiano chamado Vinay Deolalikar, de 39 anos, cientista pesquisador da HP em Palo Alto, Califórnia tentou resolver um dos chamados “problemas do milênio” , e publicou um paper com uma possível solução para o famoso problema P = NP? Esse “simples” problema levou ao Clay Mathematics Institute de Cambridge, Massachussets, a oferecer um milhão de dólares para uma solução sólida a cada problema. Existem sete (olha o sete aí de novo) desses “problemas do milênio”, devidamente recompensáveis em sua solução perfeita, e me chamou a atenção o fato de um deles ser de fato resolvido perfeitamente por um russo (da foto) chamado Grigori Perelman, que recusou o prêmio de um milhão do instituto.

É difícil imaginar o que esses problemas podem influenciar nosso dia a dia, mas a verdade é que a solução deles podem sim mudar completamente a ciência e consequentemente nosso dia a dia. No problema P versus NP é determinado quais problemas podem ser resolvidos pelos computadores e quais não podem. Os problemas P (Polinomial) são “fáceis” para os computadores resolverem, ou seja, a solução para esses problemas podem ser computados em um razoável espaço de tempo comparado à complexidade do problema. Enquanto que para os problemas NP (Não Polinomial) uma solução pode ser muito difícil de ser encontrada, mas facilmente comprovada após ser encontrada. Por exemplo, imagine um quebra-cabeças. É muito difícil chegar a um encaixe das peças na ordem certa, mas o resultado após realizado é facilmente comprovado se está certo ou não apenas olhando para o desenho do quebra-cabeças montado. A classe de problemas NP incluem muitos problemas de interesses práticos, como por exemplo determinar a correta otimização de transistores em um chip de silício, desenvolvimento de modelos de previsão financeira precisos, análise de comportamento proteico na célula, fatoração de grandes números compostos que formam a base da criptografia e por aí vai. Então, se P for igual a NP, todo problema NP conteria um atalho escondido que permitiria aos computadores encontrarem rapidamente uma solução para eles. Porém, se P for diferente de NP, então nenhum atalho existe, e a habilidade dos computadores em resolver problemas seriam fundamentalmente e permanentemente limitadas. Até agora ninguém provou se P é igual NP ou se P é diferente de NP.

Voltemos aos cientistas citados acima. Um, pesquisador da HP, tenta uma prova, que aparentemente já foi analisada por alguns pesquisadores e dada como fundamentalmente falha . O outro, um russo “maluco” que vive num pequeno apartamento com sua mãe em São Petersburgo, Rússia. Perelman (o russo “maluco” da foto) resolveu um dos problemas do milênio chamado conjectura de Poincaré, sobre geometria em três dimensões (topologia). Quando lhe ofereceram então o prêmio, ele disse que “obrigado, mas não é necessário”. Como assim? Um milhão (ma oiê!) e o camarada recusa? Pois foi assim e inclusive gerou até um livro de Masha Gessen chamado “Perfect Rigor: A Genius and the Mathematical Breakthrough of the Century”.

O que move as pessoas hoje em dia? O olho no prêmio ou a solução do problema? Por que o único que resolveu um dos problemas foi também aparentemente o único que não estava interessado no valor pago? Teria alguma relação o valor pago a motivar o verdadeiro talento pelo sentido errado e então fechar de fato as possibilidades reais ou será que quem pode resolver esses problemas não dá a mínima para o modelo de sociedade que vivemos hoje em dia?

De tudo que somos hoje, parece até que demos um enorme salto em relação ao povo antigo. Isso pode parecer verdadeiro se compararmos talvez a Idade Média com os dias atuais, mas não parece ser verdadeiro se compararmos com os Babilônios, Persas e Árabes antigos (para citar alguns) que fundamentaram a matemática, onde antes não havia nada proposto, nem internet para lermos algumas bases de apoio (o que será que continha na biblioteca de Alexandria?). E se a humanidade mudar o foco? Já pensou se em vez de dinheiro a motivação fosse o conhecimento? Já imaginou o quanto ganharíamos quando as pessoas recompensassem os trabalhos inúteis atuais removendo a pessoa desse trabalho e colocando-a para estudar? Um ascensorista poderia facilmente ser dispensado de seu trabalho e receber seu mesmo salário para estudar, e quem sabe produzir algum conhecimento útil, já que seu trabalho inútil não serve em nada a humanidade, como diz Domenico Di Masi em seu "O Ócio Criativo". A pergunta para uma resposta 42 pode estar ainda escondida dentro do planeta Terra, em meio aos circuitos humanos, esperando para ser revelada. Talvez o problema do mundo moderno seja a incompreensão dos motivadores para a felicidade, que não penso ser o par dinheiro + poder, mas o conhecimento.

domingo, 15 de agosto de 2010

Segundo Lugar

Tenho uma dificuldade tremenda para fazer ranking dos meus gostos e preferências. Difícil tarefa quando quero saber qual o melhor livro que li, qual o melhor filme, qual o melhor vinho, a melhor banda e por aí vai. Em filmes, após uma longa reflexão tempos atrás cheguei a conclusão que o meu melhor filme é Matrix, e em segundo lugar O Poderoso Chefão 1. Isso até ontem. Neste sábado assisti o filme "A Origem" (Inception) de Chistopher Nolan (Batman Begins, O Cavaleiro das Trevas, Amnésia e O Grande Truque), que desbancou meu segundo lugar. Não achei melhor que Matrix, pois me marcou muito na época, inclusive com a expectativa e das propagandas virais e tudo mais, mas em "A Origem" fui esperando nada (embora estivesse acompanhando as notícias da produção do filme) e obtive uma agradável surpresa. Não vou e nem quero falar sobre o filme em si para não estragar a surpresa. Se você não viu ainda corra antes que saia dos cinemas. Finalmente apareceu um excelente filme depois de algum tempo de amargura da sétima arte. Aliás, fui procurar o motivo do cinema ser "a sétima arte" e quem seriam as outras. Encontrei na Wikipedia que o italiano chamado Ricciotto Canudo escreveu um manifesto chamado "O nascimento da sexta arte" (The Birth of the Sixth Art) em 1911 propondo que o cinema seria uma nova forma de arte, que sintetizaria as cinco artes antigas propostas por Hegel (arquitetura, escultura, pintura, música e poesia) mais a dança (sexta arte), fazendo do cinema a sétima. Outras formas de arte foram adicionadas posteriormente, sendo a fotografia a oitava arte, os quadrinhos a nona, os jogos de vídeo a décima e a arte digital a décima primeira.
"A Origem" ganhou o segundo lugar no meu ranking de filmes preferidos. Fica aqui a dica do filme.