sexta-feira, 25 de julho de 2008

Mc. 12:30


Dizem que era um cara pilantra. Nada dava jeito naquele rapaz. Parece que tudo quanto havia de errado no mundo ele entrava mais cedo na fila para fazer primeiro que todos. Não tinha o amor da família. Ninguém gostava dele, era óbvio. Assim sendo ele continuava a cometer as suas pilantragens, enganações, roubos e quiçá mortes, talvez indiretas. Não havia juiz que o julgasse, pois não havia crime capaz de pegar o safo rapaz. Um belo dia ele encontra uma mulher. Linda, jovem, bondosa e amorosa. Conhecera por intermédio do acaso, quando pediu informação em uma loja por um determinado endereço onde iria fazer mais um trambique. A jovem o respondeu com elegância e carinho, enquanto o balconista fez desdém, já prescentindo a figura incorreta.

Começaram a conversar meio que sem querer. O rapaz gostou muito da moça. Apesar de afortunado, não conseguiu impressioná-la com suas grandezas. Ela pareceu não se importar em nada com isso. Estava mais preocupada em assuntos dele próprio do que das coisas que lhe pertenciam. Então, marcaram por fim de se encontrar, para conversar melhor e tomar alguma coisa. Não demorou muito, dias depois começaram um pré namoro. De pré namoro chegou de vez o amor e tocou a ambos. Após um curto tempo, o rapaz não conseguia sair com mais ninguém além de sua namorada. Chegou a ficar preocupado, mas realmente sentia algo pela moça que se diferenciava do que um dia já sentiu por alguém. Assim, preferiu não trair. Seus amigos mais chegados e mergulhados também na vida lasciva suspeitaram. “O que será que há de errado com ele?” Perguntavam. “Já não é mais o mesmo”. “Será que virou viado?”. Mas o rapaz não traía porque era impedido, pois a moça nunca havia lhe cobrado nada, não havia lhe perguntado nada por onde andava. Estava interessada nele, na sua pessoa, sem posse, sem ciúmes. De tanto amor por ela começou a fazer as coisas certas, começando pela fidelidade.

Perdeu amigos. Ganhou antipatias. Fez novas alianças comerciais dessa vez corretas. Ganhou mais dinheiro do que pensava, mas perdeu muito no começo, quase desistindo de mudar. A felicidade chegou num belo dia, assim de surpresa. Quando viu estava casado, com filhos e longe daquela podridão que pertenceu. Não acreditava como isso lhe acontecera, só sabia que havia encontrado alguém especial que mudara sua vida. Teve muitos problemas, mas sempre superava-os de tempos em tempos. Agora eram mais difíceis de serem resolvidos, já que o caminho do justo tem mais pedras. Não importava. Seguia sempre em frente. E assim descobriu que era feliz.

Perguntou muito tempo depois o porquê de não ter feito algumas escolhas antes. E ela, como poderia tê-lo escolhido naquela condição? Ela era tão justa, tão honesta... Mistérios, pensou... Graças a Deus a encontrou. Deus... Agora acreditava em Deus... Foi até batizado na igreja um bom tempo atrás, logo que decidiu abandonar de vez a vida errada. Quem diria? Quem iria acreditar em sua história? Foi então que a ficha caiu. Será que Deus o amava? Como poderia tê-lo amado? Foi ele que o presenteou com ela? Não poderia ser, pensou ele, pois fora o antagônico do cristão. Cristão era tudo certinho, tudo bobo. Usavam aquelas roupas quadradas... Aqueles cabelos... Agora ele frequentava a igreja. Era um bobo como os demais, mas não se achava bobo e nem bobo os demais. Voltou à questão: Como Deus poderia amá-lo? Quando começou ir à igreja ainda fazia suas pilantragens. Em menor número mas fazia. Ainda não era correto. Com ela sim, no caso da traição, mas não com Deus. E suas preces eram respondidas com frequência. As passagens Bíblicas pareciam falar diretamente a ele certas vezes. A vergonha o intimidava muitas vezes.

Muito estranho. Foi entendendo aos poucos. Viu que não precisava ser certo para aceitar. Viu que não precisava largar o ser pilantra para que Deus o amasse. Não precisava andar com certos para que Deus estivesse em sua vida. E por esse amor que tinha por Deus, fazia as coisas certas, assim, meio que sem querer. Estava clareando as idéias. Traçou um pararelo com ela. Deixou de sair com outras por amor a ela, não por pressão. O mesmo lhe acontecia com as demais coisas. Não era por ameaça ou coação, era por amor. Não queria desapontar aquele que o amava incondicionalmente. E fazia o justo, por amor a Deus, a Jesus. Ah, entendeu. Teve chance de viver um boa vida. Se perguntou novamente: Por que não procurou isso antes? Lembrou-se que havia entendido errado. Não precisava mudar para seguir a Deus. Era por seguir a Deus que mudara. Hoje sabia que as coisas por muitas vezes eram entendidas ao contrário. A maioria acharia que precisaria mudar antes. Não, não precisa, ele pensou. Você vai acabar mudando, mas vá como está. Não são regras, não são leis, é só o amor. Ele é o agente da mudança. É esse o ingrediente fundamental. Havia achado a fórmula mágica! Pena que sentia dificuldades de passar isso adiante. Viu seus pecados perdoados. Suas quedas não deixavam de acontecer, porém eram protegidas quando vinham. Era essa a resposta. Era o amor.

“Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.”
Marcos 12:30-31

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Ei, eu queria algo mais


O então chamado Senhor Rock and Roll está dancando sozinho de novo. Conversando ao telefone com alguém que diz que o gingado dele não é de nada. Ele não tem nenhum lugar para onde ir. Está só novamente. Nisso uma roqueira tradicional está se comportando como ela sempre foi, dançando como se não tivesse ninguém vendo. Antes ela parecia se importar, mas agora nem se atreveria, pois é tão Rock and Roll estar sozinho... E eles se encontrarão algum dia, bem distante, e dirão : “Ei, eu queria ser algo mais. Gostaria que você tivesse me conhecido antes.”

Essa é um pedaço da letra de uma música que chama-se “Mr. Rock and Roll” de uma escocesa de vinte anos chamada Amy MacDonald. Suas músicas são bem levinhas, para serem ouvidas de vez em quando só pra relaxar. Não é uma letra que será tocada daqui há muitos anos no classic rocks of the century, mas a música agrada. Meio folk, meio country, meio rock.

Há muito tempo procuro garimpar o que anda acontecendo no mundo da música e não tenho encontrado nada muito promissor. Até pensei que Alanis Morrisette faria esse papel um dia, resgatando alguma coisa boa na música atual, mas suas músicas começaram bem e deram uma caída nos trabalhos mais recentes. Confesso que não ouvi seu último trabalho, Flavors Of Entanglement. Tomara que tenha melhorado.

Nada acontece de surpreendente no mundo do Rock nos últimos tempos? Praticamente tudo o que ouço de legal vem de bandas antigas, e nada novo aparece. O mundo pop continua fervendo, com bundas e peitos pra lá e pra cá, mas e no Rock? Será que não surgirá nunca mais bandas como Led Zeppelin, The Beatles, Rolling Stones, U2, R.E.M., Metallica, Black Sabbath, Van Hallen, The Ramones, enfim...? Bandas que marcaram época, mudaram estilos, foram originais, com música sendo tocadas até hoje, e onde eu costumo deixar a estação do rádio quando toca. Por falar nisso, existe apenas uma rádio em São Paulo que com frequência utiliza esse repertório em sua programação diária. E as demais? Ah, se rederam ao mercado de bundas e peitos requebrando. Até uma rádio chamada anteriormente de “A rádio rock” agora pode ser chamada de “A rádio treco”, só tocando coisas bem, bem pops. Algumas outras rádios além de não tocarem rock, ainda cortam pela metade as pops, fazendo o que já era ruim ficar horrível. O negócio é vender comercial, eu sei, mas parece que agora é só isso. Alguém gosta de ficar ouvindo comerciais o dia todo e quando toca uma música ela é retalhada pra acabar logo e termos mais comerciais? Eu sei, eu sei, tem gente que nem liga e nem se dá conta do que está tocando. Gosta de um barulhinho rolando e nem se preocupa com o que diz a letra, como por exemplo “Você não gostaria que sua namorada fosse gostosa assim como eu? Não? Áu...!” Coisa linda...

E as bandas nacionais estão cada vez mais se rendendo ao pop, com boy bands explodindo por aí e a galera dizendo que é bom. Legal, pode até ser que seja bom mesmo, mas isso não é Rock. Eu quero é rock! Pelo que me lembro a última banda “nova” de Rock nacional, Os Raimundos, acabou faz tempo.

Temos algumas coisas saindo do armário, algumas bandas boas internacionais, que quando a grana acaba lançam um CD pra continuar a vida. Isso, é claro, após aqueles CD’s caça-níquel, com recompilações de trabalhos antigos, regravações, remix, acústicos, etc. Novidade mesmo tá difícil. Bandas novas então nem se fala. Tudo é pop, fadado às vendas, com bundas e peitos e completamente oco. Fica a torcida para algo novo. Por enquanto vou me contentando com alguma coisa ali e aqui, sozinho nessa empreitada. É tão Rock and Roll estar sozinho...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Existe vida após a chamada?


Iniciamos uma discussão sobre o ódio dos homens às chamadas telefônicas. Para algumas pessoas, o telefone é mal visto, sendo totalmente dispensável e quiçá substituível facilmente por um e-mail ou MSN. Qual seria o motivo que a maioria dos indivíduos do sexo masculino usam pouco ou quase nunca utilizam o telefone ou o celular?

O homem, diferente da mulher, é um ser mais prático, como sabemos, e assim perde a necessidade de ver uma joaninha amarela e querer logo contar aos amigos a grande descoberta entomológica. Mas mulher não é assim. Ah, não mesmo. Só para se ter uma idéia, certa vez minha namorada e eu estavamos indo para a casa dela e conversávamos sobre um assunto importante, quando o seu celular tocou. Era minha sogra dizendo que havia experimentado a saia de minha namorada. Após uns quinze minutos de conversa, ela desligou. “Sim, mas e aí? Rasgou a saia?” perguntei eu, indignado. “Não...” respondeu minha namorada querendo retomar o assunto original, fazendo de conta que a chamada nunca tivesse existido. “Certo, mas então pegou fogo no fogão enquanto ela experimentava a saia?” Nisso um olhar gélido me foi direcionado pela outra parte, já querendo me mandar fazer algo que não iria fazer nem sob tortura.

O que importa é que estava tentando descobrir o motivo de tal ligação, já que imaginei que não haveria motivo para tal pois estávamos indo para a casa de minha sogra e ela sabia disso (havia ligado antes, rá!) e se estava ligando naquele momento algo importante deveria ser avisado, certo? Pois é, me enganei. Era só pra dizer que ela experimentou a saia. É, então... Colocou a saia! Colocou, tirou e guardou! Nada mais. Fiquei impressionado. Me fez refletir sobre meu ódio às chamadas telefônicas que até então não sabia o por quê. Não tinha nada contra telefonemas. Seria algo como as músicas que tocam nas novelas, talvez? A música pode até ser boa, mas quando começa a tocar na novela você não pode ouvir mais de dois segundos que já muda a estação do rádio. Enjoa. Pega trauma. O mesmo trauma que as mulheres nos colocaram. Como para elas é completamente normal e absurdo se não existisse uma chamada para dizer que colocou uma saia (e só), para nós é absurdo tamanha falta de necessidade uma ligação dessas. É óbvio que mulher fala mais, gasta mais tempo falando, etc, mas falar no telefone é um negócio um tanto incômodo, chato, te ocupa a mão, uma orelha, quando não ambas no revezamento, e ficam pegando fogo após alguns poucos minutos e normalmente interrompem algo que você estava fazendo. Por isso telefone é para dar um recado, dizer uma notícia breve, falar pouco e não passar horas contando que colocou a saia.

O filme da Pixar, Wall-E, mostra uma espécie de telefone/internet/video chamada do futuro onde todas as pessoas só se comunicam via esse serviço, não mantendo mais contato físico com a outra parte. Uma previsão pessimista que o futuro nos aguarda. Bem, se depender das mulheres já chegamos lá. Agora vou acabar logo esse artigo que meu telefone está tocando... “Alô... Oi amor... Sim, almocei bem... Sim... Ahã... Escrevendo... é...”

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Batman falhou?


Qual o limite da realidade da mente humana? Qual é a fronteira que limita o racional da fantasia? Estava pensando sobre esse limite. Conversando com um amigo meu, discutíamos sobre o novo filme do Batman que está para estrear nos cinemas: O Cavaleiro das Trevas. Nesse filme um importante vilão do morcegão tem atenção central: O Coringa. Esse vilão nos gibis faz um papel de demente e suas ações são tão tresloucadas quanto seu figurino. O Coringa foi tema de importantes histórias do Batman, inclusive uma que talvez seja a mais famosa, A Piada Mortal, contada pelo melhor roteirista de quadrinhos ainda vivo chamado Alan Moore na opinião de muitos (o melhor roteirista de quadrinhos já falecido é também Alan Moore na opinião de muitos).


Alan Moore é uma lenda viva dos quadrinhos, que consegue colocar coisas banais em um clima totalmente novo e inesperado, onde histórias do Monstro do Pântano, por exemplo, ganham uma profundidade jamais vista com outro roteirista. Nessa história da Piada Mortal o Coringa aleija a filha do comissário Gordon, Bárbara Gordon, com um tiro em sua espinha. Após esse ato ele a fotografa nua na poça de sangue e sequestra seu pai (comissário Gordon) o torturando em um parque de diversões e exposto às fotos de sua filha nua. O Coringa tenta assim provar sua teoria em que qualquer um exposto à tamanha atrocidade poderia se tornar um demente como ele. Nessa história é contada a origem detalhada do vilão, e os motivos que o levaram a ser o que é: Após uma tragédia de sua família, com a morte de sua esposa grávida de num acidente doméstico, é obrigado a participar de um crime que sai pela culatra com a intervenção do Batman e assim molda seu destino para sempre. O gibi é genial, mas perturbador. Confesso que após lê-lo, fiquei chocado e por algumas noites sonhei com a história. Imagine agora interpretar um papel em que você teria que viver o Coringa. Encarnar no personagem para que sua atuação fique real.


Para esse papel foi escolhido o excelente ator Heath Ledger, que acabou falecendo logo após as filmagens; Segundo esse meu amigo quem matou Heath Ledger foi o próprio Coringa. O motivo seria porque o ator não conseguiu se desligar da interpretação do personagem, levando o tormento de seu papel para a vida real, em que Ledger e Coringa se misturavam, obrigando o ator a tomar comprimidos para dormir. Isso pode ter bagunçado o limite de realidade de Ledger, fazendo com que ele incorporasse esse papel de mente perturbada na vida real. Existe até um exemplo disso aqui no Brasil com o caso do Guilherme de Pádua, que questionava exatamente esse limite.


Outra história perturbadora é uma do Batman chamada Arkham Asylum, do autor Grant Morrinson e arte de Dave McKean. Também complexo, esse gibi apresenta o Coringa de dentro do manicômio de Gothan City. A história é chamado aqui no Brasil de Asilo Arkham mas acredito que seja outro problema de tradução, já que Asylum é mais conhecido como hospício em inglês e asilo de velhos é mais conhecido como residential care ou homing. Nessa história, Batman entra no hospício para tentar deter o Coringa, e é apresentado às loucuras de lá. Os desenhos de McKean perturbam. O que esse artista pode fazer quando representa em página dupla as loucuras desse ambiente é magnífica. Como leitor também fiquei impressionado, tanto quanto a piada mortal. Imagino então o ator, tendo que interpretar tudo isso como sendo realidade para a cena. Não é difícil perceber que isso poderia acarretar a qualquer um que não pudesse se desligar, que não tivesse uma chave na hora do “corta!” do diretor. Não é difícil perceber que a relação da morte de Ledger com seu papel é tênue. Mais uma vez o Coringa pode ter feito sua vítima, e dessa vez Batman não conseguiu impedir.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Por que eu não gosto de novelas?


Toda vez que eu chego em casa a TV a cabo com mais de 180 canais está parada em apenas um canal ou uma programação: Novela. É novela das seis às onze. E em todos os canais abertos todos os dias da semana, menos domingo que tem faustão (ah bom!). Por isso, pensei eu, seria uma boa uma TV paga, já que teríamos mais opções, programas melhores, geraria um interesse/curiosidade em mudar da supra citada que não ouso mencionar o nome muitas vezes. Mas advinha o que acontece? Ah, todo santo dia tá lá o canal parado na mesma emissora. O que mais me impressiona é o fato de toda e qualquer novela (ops, falei de novo) ser igualzinha a uma que já acabou. Sempre tem um/uma vilão(ã) que dependendo de sua perversidade tem um fim merecido. Se o vilão for ruim a novela inteira, morre tragicamente, num acidente, ou numa briga com o mocinho que por acidente o mata (claro, ele é mocinho e mocinho não mata), ou acaba louco trancafiado num manicômio. SEMPRE é assim, você sabe. Se o cara não é tão ruim assim ele apenas paga uma pena leve, que vai de perder a fortuna e viver na pobreza até ficar preso mesmo alguns anos e perder a fortuna e viver na pobreza.

O lance é que a coisa não muda. O mocinho é sempre o mocinho. Sempre enganado por alguém ou que tem uma irmã gêmea (essa é a pior) que se descobre no meio da história e essa irmã tenta atrapalhar os sonhos da outra (aaahhh Rutinhaaa). Bem, aí tem os(as) engraçados(as), que são personagens que dão um certo humor, na maioria das vezes, que faz o favor de colocar os chavões que cai na boca do povo. Basicamente é para falar da vida dos outros que os engraçados estão lá. Uns mais outros menos mas a fórmula não muda. A coisa se desenrola tão na cara que eu sento no sofá pra comer alguma coisa e tá aquele silêncio sepulcral e aflito de todos prestando aquela enorme atenção à tela. Eu fico olhando por alguns minutos e aí começo a fazer àquelas perguntas normais: “Ela é a vilã?” Um momento de silêncio incômodo é quebrado com a terrível voz de meucêtáincomodando: “É...”. “...Certo...” continuo “... e ela tem uma irmã gêmea que é boa?”. Mais três a quatro segundos depois vem a resposta no mesmo tom em si bemol: “Isso...”. Dou uma pausa pra não gastar a paciência alheia e faço mais uma: “E a boazinha não sabe da malvada, mas a malvada sabe da existência da boazinha, certo?”. Agora sinto que a paciência está à beira do penhasco lutando bravamente para agarrar qualquer coisa que a salve: “... é ...”. Um olhar frio é lançado em minha direção... “E tem uma mala/carta/revelação que vai ser dada no final que vai deixar a má em maus lençóis e por isso ela quer matar a boa, certo?”. “RODRIGO! EU TÔ ASSISTINDO!” Aí a paciência foi pro chapéu. Apesar que não deveria ir, pois eu já respondi perguntas assistindo às corridas de F1 do tipo: “Rodrigo, por que eles param para trocar o pneu a cada meia hora se o pneu do meu carro está lá faz mais de cinco anos?”

Bem, aí chegam os comerciais de sabão em pó ou cerveja, que talvez teria sido melhor continuar a novela. Aproveito pra perguntar mais uma coisa ou outra pra ver se pelo menos dessa vez algo mudou. Mas na verdade nada mudou. E as respostas normalmente vem no futuro, do tipo: “Ela vai escapar da doença...”. “E como você sabe?” pergunto ingênuamente. “Eu li no site/revista”. “Ué, mas se você leu, qual é a graça de assistir se você já sabe o que vai acontecer?” Azar o meu, pois voltou do comercial e minha resposta só ganha um “ Tz... á...”. Seja lá o que significa esse chupar dos dentes coaxado, algo ruim foi dito e tenho que me contentar com um implícito “porque sim” e pronto. Nem me arrisco a perguntar mais coisas, mesmo que a cena vai acabar da maneira mais óbvia possível. Na verdade as perguntas não eram por interesse de assistir a novela, mas para saber se algo enfim mudaria, se algo diferente aconteceria. Tem autor que coloca a mocinha sempre igual e o pior: Sempre com o mesmo nome de HELENA. Meu, é o fim. Não dá pra acreditar que a mesmice continua até no nome do personagem. Esse autor economiza até nos nomes. Dá pra acreditar? Bem, aí eu vou para meu quarto e deixo pra lá essa coisa de entender o motivo de não gostar de novelas. Uma coisa tão divertida dessas e eu não gosto. Você é chato mesmo, hein Rodrigo?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Pobre


Segundo o dicionário Houaiss a palavra Pobre significa adj.2g.S.2g 1 que(m) tem poucas posses 2 que(m) é pouco favorecido 3 que(m) é digno de pena ~ GRAM como adj., sup.abs.sint: paupérrimo; aum.irreg.: pobretão. Vou tratar aqui do terceiro caso, ou seja, o camarada que dá dó de se ver. Digamos que é uma mistura de burrice com... burrice mesmo, deixando alguém com status de POBRE. Você deve ter uma tia ou um tio que rodou 40 km de carro pra comprar uma lata de ervilha no Supermercado Jambotão, porque lá essa lata custava R$ 0,13 mais barato que no Carrefour, e saiu contando vantagem. Ou quem deixa de comer um sorvete porque custa um real e fica com vontade. Mentalidade pobre. Pobre não é a condição financeira, mas o estado de espírito. É deturpar o valor das coisas, deturpando as prioridades. É não ter educação mínima (eu disse mínima). É ser pobre de cultura e pobre de espírito. Novamente, nada tem a ver com condição financeira, quero deixar claro.

Certa vez estava no ônibus indo para o trabalho quando o celular de alguém tocou. Logo, um homem que notoriamente era desfavorecido de posses (ou disfarçava muito bem) sacou o celular de mil e quinhentos reais e só desligou um bom tempo depois, falando alto. Falar alto é coisa de pobre, by the way. Comprar um celular caríssimo sem ter condições para tal é mais ainda. Não dar lugar no ônibus para mulheres grávidas fingindo que está dormindo é coisa de pobre. Querer levar vantagem em tudo, é coisa de pobre, claro que é. Ouvi certa vez que media-se o nível social das pessoas pela quantidade de dentes na boca. Acho que mede-se o nível cultural das pessoas pela sua pobreza espiritual. Um cara que compra um carro de R$ 60 mil e depois deixa na rua para não pagar o estacionamento de R$ 5,00 é pobre. E ainda reclama que bateram, riscaram, roubaram, etc. Ganhar vinte milhões e depois dar um churrasco para comemorar gastando só mil reais é coisa de pobre. Gritaria é coisa de pobre. Falar da vida dos outros é coisa de pobre. Acho que devemos lutar por mais educação, mesmo para àqueles que venceram na vida, mas continuam bem pobres. Aliás, isso é o que mais tem. Pessoas que montaram um negócio, que por pura sorte deu certo, e se julgam melhores que outras, mas na realidade são e vão continuar sendo POBRES. Meu amigo diz que são Tigres. Tigre é aquela pessoa que fala alto, quer contar vantagem, impressionar os outros com suas coisas. Você com certeza conhece muita gente assim. Humildade passou batido. Acham que o dinheiro compra tudo. Que as pessoas acham bonito o que fazem de ilegal. Que roubar é divertido, sonegando, enganando, mentindo. Pobres. Pobre-diabo. Quem concorda com suas atitudes também está no mesmo saco.

Esses dias estava me perguntando se é possível reverter essa situação. Se um indivíduo desses consegue se livrar desse título. Muitas vezes estão tão dentro da camada pífia que não saem mais de lá. Como trazer novamente uma pessoa dessas a uma vida menos medíocre, com mais “Ser” do que “Ter”? Bem, quem se considera amigo que fale. Para meus amigos eu falo. Tenho um defeito grave, muito chato, que é falar o que vejo. Isso atrapalha muito minha vida, mas não consigo esconder meus pensamentos. Se algo está errado, eu falo. Já me atrapalhei muitas vezes por causa disso. Fui taxado de chato, de reclamão, perdi oportunidades, etc, etc, mas quando me perguntam eu não minto. Falo a verdade. Desculpe, mas se você não quiser saber, não pergunte. Regra básica: Falem com seus amigos e conhecidos para deixarem de ser pobres. Sabe aquele cara que não te vê faz tempo e quando te vê, do outro lado do shopping, vem berrando como um porco sem focinho, com os braços abertos como um comercial de carro novo, e lhe dá aquele abraço que normalmente te tira a vértebra do lugar e nem muita acupuntura resolve? Pois é... Normalmente o chato é confundido com pobre, mas não é. O chato só é chato porque é carente, ou bobo mesmo. O pobre quer mostrar que ele é o melhor. Que sabe tudo, que já viajou para todos os lugares, que conhece tudo e todos, esse é o pobre. O chato só é chato, fala demais, reclama demais, mas o pobre faz tudo isso para o colocar em destaque, para que todos o vejam como alguém diferenciado. Na verdade ele é diferenciado, pois é POBRE! Já falei que gritar é coisa de pobre, né? Pois é, esse é o meu maior incômodo. Não gosto de gritaria, mas sei que às vezes eu exagero e acabo falando alto. Mas tenho consciência que não é certo, e na primeira bronca eu paro. Me incomoda ir almoçar e aquela mesa ao lado está parecendo um galinheiro em dia de mudança de ração. As mulheres parecem que moraram muito tempo do lado da cachoeira, e tinham que urrar para se comunicar. Aí as pessoas começam a falar mais alto para poderem se comunicar. Quando você pensa que não pode piorar, começa nessa mesma mesa: “PARABÉNS PRA VOCÊ...” Afe... Aí o Tigrão começa a berrar e esbofetear a mesa: “É PICA, É PICA”. Bonito demais. Bando de pobres. E já dizia Justo Veríssimo: Odeio pobre!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Detalhes tão pequenos...


Eu me interesso por detalhes. Mas normalmente só os detalhes que me interessam. Não quero ouvir uma conversa longa sobre um dia no cabeleireiro, ou um passeio no supermercado, ou o final da novela, mas me interesso por detalhes de coisas que me interessam, lógico. Acho que acontece com você também. Conversa com muito detalhe vai ficando chata, monótona e se torna um monólogo, pois só uma pessoa fala e a outra torce. Torce pra acabar logo.

Me lembro que um dia minha avó foi ao médico e minha mãe foi levá-la. Cheguei em casa querendo saber o que tinha dado, o que o médico tinha falado e tal. Aí perguntei à minha mãe e ela começou o relato: “Então, saí daqui eram 8h34...” Já interrompi de cara dizendo: “Mãe, vamos para os gols. Não quero saber do jogo todo...”. E ela: “Calma, deixa eu contar...” Aí, eu sentei, respirei fundo e tentei matar minha curiosidade com contrações estomacais fortes até a conversa ser desenrolada como numa novela de Manoel Carlos, cheia de detalhes completamente irrelevantes para o caso (nossa, acabei de me lembrar de um amigo meu aqui do trabalho...). Bem, ouvi que ela teve dificuldade de estacionar, que um rapaz a ajudou a colocar o carro na vaga, por sinal um rapaz muito bom, novinho, com cabelo castanho, que estava parado lá na frente de bobeira, parecido com o fulano de tal... E por aí foi. Bem, chegamos à conversa com o médico. Aí me animei, sentei direito no sofá e disse pra mim mesmo: “Sim, é agora!”. Aí começou: “O consultório era limpinho, sabe? Tudo novinho... Uma recepcionista linda, parecia a Priscilla. Aí, o médico nos atendeu. Precisa ver... Ele era novo, bonitão assim, sabe? De bigode... Parecia o tio...” Ai, ai... Já me afundei de novo no sofá e só na cacetada pra cima da curiosidade de novo, que dessa vez revidava aos prantos dentro do meu estômago já incandescente. Depois de uma meia hora de conversa veio a informação que minha avó não tinha nada. Graças a Deus, pensei mas poderia ter me falado tudo isso em... deixa eu ver... 4 segundos! "Ai, você é muito chato, Rodrigo".

Bom, tudo isso posto para relatar que estou lendo o médico e o monstro. Sim, não tem muita coisa a ver com minha avó ter ido no médico, mas o fato é que procurei saber mais detalhes no livro “The Strange case of Dr. Jekyll and Mr.Hyde”. Detalhe esse que me interessa, já que a maioria nunca ouviu falar em Robert Louis Stevenson. Confesso que não lembrava o nome do autor também. Bem, resumindo, resolvi procurar a respeito desse livro depois de inúmeras referências em outras obras, tanto literárias como nos filmes, onde posso citar ao menos dois: A Liga Extraordinária (que Alan Moore me perdôe) e Van Helsing. Além do gibi já citado A Liga Extraordinária, de Alan Moore, que nada tem a ver com o podre filme, pois é um excelente gibi.

O que Hollywood pinta do monstro não tem muito a ver com o livro, já que o senhor Hyde é feio, um tanto deformado, mas nada de ter 4 metros de altura, meio homem meio Hulk, e ser completamente animal. Ele é uma pessoa pequena e muito estranha, chegando a dar repulsa nas pessoas que o odeiam nos primeiros segundos de contato. O livro é um relado do advogato Utterson em busca de saber quem é este enigmático Mr. Hyde e o motivo do renomado médico Dr. Jekyll ter deixado sua fortuna de herança para ele. Muito bem escrito, mas ainda não terminei de ler. Estou lendo-o junto com mais alguns outros. Tenho esse hábito estranho de ler vários livros ao mesmo tempo. Apesar de já ter tentado ler um de cada vez, parece que alguma coisa me atrai para ler um livro novo, ali parado me olhando... Ops! Desculpe se pareceu com os relatos da minha mãe... Vou finalizar já, espera, deixa eu contar...

Então, o fato é que acho interessante ler as obras originais ao invés de se basear nas referências dessa obra, que por muitas vezes deturpam a imagem que se tem dos personagens ou do sentido do livro em questão, como foi no caso da fisionomia e bestialidade do Mr. Hyde. Isso gera superficialidade no assunto e muitas confusões mentais. Recomendo aqui mais esse livro. E vamos para os gols! Ah, não... vamos esquecer o futebol por alguns dias...