terça-feira, 28 de abril de 2009

O Abajur

- Sério? Não acredito que você não consegue entender o sentido de sua vida. Como pode? Todos nós aqui entendemos - replicou o criado-mudo ao abajur.

- Pois, é criado-mudo, eu não consigo entender meu propósito. Você serve, ou serviu, para guardar coisas, servir de apoio e me sustentou minha vida toda. A cama, veja só, serviu acomodar as pessoas, que fizeram um bom uso dela em seus repousos e amores. O piso, sustenta aqui tudo desde sempre. Olhe o guarda-roupa. Cheio de divisórias que acomodaram muitas coisas, que saiam e eram colocadas novamente, e ele abrindo e fechando, acomodando e arquivando. A lâmpada do teto é também muito útil. Enfim, todas as coisas desse quarto. Agora olhe para mim. Não faço nada. Não sirvo para nada. Ninguém vem aqui faz tempo. Desde que fui feito estou dentro desse plástico e não entendo direito. Só sei meu nome porque consigo ler na etiqueta pregada em mim, amarelada pelo tempo que fiquei aqui parado. E ainda não sei se me chamo abajur ou se me chamo “Para Bárbara”. É de uma revolta muito grande. Não consigo entender nada.

- Mas sempre existe uma maneira que possa te explicar o sentido disso tudo, abajur. Eu, sendo criado-mudo, até que consigo me satisfazer com as coisas, sabe? Eu, embora não seja usado faz tempo, ainda me lembro de minha utilidade. Nesse quarto, desde que o Sr. Antônio não dorme mais aqui, ninguém entrou mesmo. Você ficou aí e nunca viveu nada com o Sr. Antônio. Ele quem nos trouxe aqui e era ele o sentido do nosso uso. Como ele não está mais, talvez seja isso que tenha deixado você sem saber sua utilidade. Mas tenho certeza que você tem sim um uso, pena que ninguém aqui descobriu ainda.

- Tá, sei disso tudo. Mas tem dia que bate um desespero. Mas deixa pra lá. Deixa eu quieto aqui.

O tempo passava devagar naquela casa. Ninguém mais foi àquele quarto. Era estranho porque ainda existiam pessoas as quais Sr. Antônio mantinha um certo contato, mesmo que usando o aparelho de telefone. Foi então que após seis meses de escuridão, aquele quarto foi destrancado. Ali, uma mulher com um rapaz analisaram o local. Acenderam a luz principal e tudo estava quieto e empoeirado. Comentaram algumas coisas entre si, as quais nada no quarto entendeu direito, mas pelo que parecia as coisas iriam mudar, e mudar fisicamente. Logo, a cama foi retirada com seu parceiro colchão. Um pouco mais tarde, o guarda-roupas. E, impressionantemente, o abajur ainda estava mais entediado a curioso. Num mundo de aflitos, ele estava ali parado e não ligando. A vida não tinha a menor graça. Que sentido tinha aquela merda toda? Já tinha ouvido inúmeras histórias, disso e daquilo, que legal que era isso ou aquilo. Que experiência esse teve ou aquele. Mas ele mesmo não teve nada. Foi fabricado, se lembra que existiu muito brevemente num local grande e foi trazido aqui pelo seu Antônio, que chegou, o colocou no criado-mudo, seu melhor amigo, e deitou na cama, para nunca mais acordar. A neta de seu Antônio olhou fixamente para ele, o abajur, e com uma cara intrigada, retirou seu plástico. Após ler a etiqueta, seus olhos encheram de lágrimas. O abajur começou a imaginar que diabos estava acontecendo, pois agora estavam destruindo ele, removendo seu fiel companheiro plástico de embalagem. Foi quando ela pegou o plugue e ligou-o na tomada. Apertou o interruptor do abajur e tudo fez sentido para ele, que iluminava seu redor e sentia a energia percorrendo seu corpo.

- Vamos, Bárbara. Temos que falar com o rapaz da imobiliária ainda. Leve o abajur para você – Falou o rapaz para a moça, agora longe dali em seus pensamentos.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Coloque o arquivo de guerra no gato Tom.

“O Sr. Já trabalhou com AJAX? – Perguntou o entrevistador a seu candidato.
Sim, claro que já. Trabalhei há dez anos com AJAX. – Respondeu o candidato à vaga de Analista de Sistemas Java.
Surpreso, o entrevistador questionou-o:
- Como assim ‘há dez anos’? AJAX só existe de fato há três anos.
- Ah, não é verdade. Eu trabalhava com AJAX junto com meu pai. A gente vendia muitos litros. Ele tinha uma Kombi, sabe...
- Calma, calma. – interrompe o entrevistador já irritado – Eu estava falando de outra coisa. Olha esquece, tá? E sobre Swing?
- Ah, isso eu não faço não. Sou casado.” [1]

O mercado da informática tem suas peculiaridades, assim como toda profissão, e essas peculiaridades são um tanto quanto estranhas para quem fala o idioma tupiniquim. Algumas coisas no mundo da programação de computadores simplesmente não podem ser traduzidas, pois perderiam todo o sentido. O exemplo acima diz respeito a uma tecnologia chamada AJAX, que tem o mesmo nome de uma marca famosa de produtos de limpeza para uso geral, de propriedade da Colgate. Swing é o nome de outra tecnologia, com mesmo nome alusivo à mais completa putaria conhecida. Por isso alguns livros pecam muito em tentar traduzir termos e nomes que não podem ser traduzidos. Na linguagem de programação Java (que quase se chamou Carvalho... Eu disse CARVALHO), existe uma função principal chamada “main” (main é principal, em inglês). A composição dessa função (que em Java chama-se método) tem um nome grande, e se fossemos traduzir teríamos a pérola:

Vácuo público da estática principal ( args[] da Corda ); [2]

Veja que beleza. Não dá para traduzir. Cada palavra tem um sentido específico em inglês, válido somente para o contexto em questão.

Quando você faz um desenvolvimento em Java, são gerados pacotes, que possuem extensões de arquivo, do tipo jar, ear e war. Um dos servidores que rodam esses arquivos é chamado de Tomcat (O Gato Tom). Vai lá você traduzir: Coloca pra mim a guerra, a orelha e o jarro no gato tom, por favor? Alguém que estivesse passando acharia no mínimo que errou o caminho e foi parar no hospício. Só faz sentido em inglês.

Outra coisa interessante são os nomes das tecnologias e produtos. Temos Ajax e Gato Tom, como vimos acima, Java Servidor Caras, Caras Ricas, Java Grão de Café, Hibernar, Primavera, Chapéu Vermelho, Lixeiro, Sabão, Eclipse, Peixe de Vidro, e por aí vai. Tanta criatividade atrapalha muito os tradutores não familiarizados.

Esses dias estava assistindo o filme “Across de Universe” e estavam traduzindo na legenda as músicas dos Beatles. Cada pérola que saia que eu me matava de rir. Uma das mais engraçadas foi no refrão da música “I am the Walrus”, onde John canta “I am the eggman, they are the eggmen, I am the walrus,Goo goo ga joob”. Lennon certa vez recebeu uma carta de um estudante dizendo que seu professor de língua inglêsa estava analisando as músicas dos Beatles. John então num tom provocativo escreveu I am the Walrus, uma música cheia de referências, simbologias e aberta a várias interpretações, e Eggman é Intelectual e não “cabeça de ovo” como foi traduzido na legenda. A tradução/interpretação do refrão deveria ser “Eu sou o intelectual, eles são os intelectuais. Eu sou a morsa, bom bom bom trabalho”. Nada a ver com o que foi colocado lá na legenda, por uma pessoa ou grupo que não entendia nada de Beatles.

Bom tradutor é aquele que entende o espírito da coisa e coloca a tradução interpretada corretamente ou deixa o termo em inglês. Um bom exemplo é o livro “Direitos Iguais, Rituais Iguais” de Terry Pratchett que saiu aqui pela editora Conrad. Os tradutores espertamente colocaram os dois sentidos de “Equal Rites”, título em inglês. Rites significa rituais ou ritos e tem a mesma pronúncia de “rights”, direitos. Faz todo sentido, pois é uma história de uma menina que quer ser mago, profissão permitida somente para homens, no livro. Então ela quer ter direito (rights) de ser mago e praticar seus ritos (rites). Parabéns à Conrad.


[1] AJAX significa Asynchronous JavaScript and XML.
[2] Obviamente todo programador Java conhece o método public static void main( String[] args)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Fora do Padrão

Estava conversando com uma amiga durante um jantar sobre seu irmão, que era totalmente atípico do “padrão” do cidadão comum. O menino não gostava da escola, desde sempre, e não se encaixava no padrão da sociedade como conhecemos. Ele, apesar disso, tinha uma veia artística muito forte. Desde pequeno seus presentes frequentes eram papel e giz de cera. Nas provas de geografia ele entregava as questões em branco, mas havia na prova muitos desenhos. Vale lembrar que uma dessas provas em questão era com consulta. A primeira impressão que teríamos seria de um alienado, um limítrofe ou qualquer adjetivo pejorativo, pois esse elemento (ou mau elemento) não se enquadra na nossa sociedade.

Analisando o “caso” na mesa do jantar pude constatar que ele realmente não seguirá os padrões há muito solidificados, pois esse menino é um artista nato. Ele não usa nem a mesma metade do cérebro mais utilizada por nós. O artista é um ser incompreendido na sua “loucura”. As pessoas tentam convencer os artistas a seguirem o padrão natural das coisas. Principalmente os pais, que tentam encaminhar o filho para uma profissão conhecida, como medicina, engenharia, advocacia, e a nova moda: informática. O grande problema com isso é frustração mútua, pois o artista não consegue seguir esse tipo de burocracia e nem os pais conseguem fazer com que ele siga. De um lado temos pais frustrados perguntando “onde será que errei?” e de outro temos uma pessoa introspectiva, frustrada, deprimida. Não acredito que o caminho de todos seja igual. Alguns se destacam justamente por pensar diferente. Nas artes a coisa fica ainda mais complicada. A criatividade só é cultivada num ambiente sem burocracia. Onde há burocracia não há criatividade, como disse Domenico de Masi no seu ótimo livro “O Ócio Criativo”. Artistas no geral são difíceis de se adaptarem em nossa sociedade. São contra o sistema por natureza, e a razão é muito simples: A criatividade não se bica com a burocracia dos padrões. Uma pessoa com veia artística se aborrece com os estudos de coisas que achamos normais. Para o artista é tortura. Os professores em vez de esclarecerem aos pais o tipo de filho que eles possuem só reprimem a pessoa por não se encaixar. Isso vem desde sempre, e podemos verificar no cinema filmes de artistas incompreendidos, como Pollock por exemplo. Pollock desenvolveu em sua pintura alguns conceitos da teoria dos fractais e teoria do caos, isso dez anos antes da Teoria do Caos ser proposta. São pessoas que enxergam diferente da maioria. Não estúpidos, como são tratados muitas vezes, mas são diferentes e podem mudar todo um conceito. Para pessoas assim devem existir estímulos que o façam seguir em frente com sua arte e botar em prática suas idéias, ao invés de reprimir o padrão incompreendido. É uma pena que tenhamos tão despreparados professores que normalmente são os primeiros a observarem tais dons e também pais que não entendem o “monstrinho” que estão criando.

Existem hoje muitos cursos que podem dar ao artista asas para voar e ser muito bem sucedido nas áreas de propaganda, desenvolvendo modelos de animação, modelagem, concepts e um universo de trabalhos que o mercado carece. A indústria de games americana fatura mais que o cinema e existe uma briga por esses profissionais que desenham bem, fazem modelos 3D, concepts, animação e uma infinidade de trabalhos que só se adequam aos artistas. Essas pessoas que conseguem passar pela barreira dos pais e pela barreira da formação padrão, conseguem um grande sucesso e são muito bem remunerados, mesmo para o parão americano de salários. Aqui no Brasil temos muitas agências que buscam tais profissionais e sempre existem vagas abertas, pois a oferta é pequena frente a enorme demanda.

Voltando um pouco no livro de Domenico de Masi, ele indica que o futuro terá vagas abertas apenas para a criatividade. Pessoas metódicas acostumadas ao trabalho como conhecemos terão grandes chances de ficarem desempregadas num futuro próximo. Teríamos um apocalipse cultural e social então? Talvez um dia as pessoas olhem para os metódicos com o mesmo preconceito com que hoje olham o artista. Imagine você, quem daria emprego a alguém com um alargador na orelha? Imagine... continue imaginando, pois esta é a idéia de um futuro próximo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Dr. Gregory Holmes

"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"

Lavoisier disse essa frase por volta de 1774 em seu estudo de Conservação das Massas, mas hoje em dia a frase é aplicada às cópias de sucesso que se movem por aí à nossa volta. Parece que quanto mais referência temos, mais cópia vemos. Quanto mais lemos, mais nos é apresentado o mesmo. “Sempre mais do mesmo, não era isso que você queria ouvir? “, já dizia nosso bom letrista Renato Russo, que deve ter também copiado de alguém, modificado e colocado na letra em mais uma de suas belas músicas. Bill Gates copiou o Windows, o mouse, o Internet Explorer e ficou bilionário. Quem cria mesmo cai no esquecimento. Quem faz sucesso é quem copia?

Hoje vemos um exemplo clássico nos seriados da TV. Eu assisto o seriado M.D. House; um médico maluco que soluciona os casos mais malucos ainda com sua observação sem igual e arrogância máxima. Estava relendo meus livros de Sir Arthur Conan Doyle e percebi quanta “referência” tem o seriado nas obras de Sherlock Holmes. House é excêntrico, Holmes também. House é drogado, faz uso de Vicodin. Holmes é drogado, faz uso de cocaína. House toca piano para se distrair. Holmes violino. House tem um único amigo, Wilson. Holmes tem um único amigo, Watson. House começa com “H” e Wilson com “W”. Holmes e Watson também. Holmes lembra "Home" (Casa). House... bem, nem precisa dizer. House é médico detetive. Watson é médico. Wilson é médico. Holmes é detetive que se envereda no mundo da química, amigo de um médico.

As coincidências não param por aí. Na quarta temporada, episódio chamado “Não queira saber”, House diz ter ganhado de amigo secreto “a segunda edição de Conan Doyle”. Claro que a referência é Sherlock Holmes, o maior detetive do mundo, que inspirou até Bob Kane a criar o Batman.

Achei muito interessante as similaridades de ambos os detetives, no caso House e Holmes (vamos deixar o Batman de lado desta vez). O seriado é o maior sucesso hoje em dia, mérito do “criador” David Shore. House precisa falar com os outros para solucionar seus casos e fazer sua mente trabalhar fora do padrão comum do raciocínio, o que ocorre também nos livros de Doyle, sendo Watson o fiel escudeiro de Holmes e quem narra as histórias como se fossem verdades na obra de ficção. O apartamento do Dr. House é de número 221B. Advinha onde mora Sherlock Holmes? Baker Street, número... ? O cara que atira em House em um dos episódios do seriado se chama Moriarty, por acaso o maior inimigo de Holmes, aparecendo pela primeira vez no conto “O problema final”, de 1893.

Muitas coincidências me fizeram pesquisar a frase acima de Lavoisier, e descobri que o estudo de conservação das massas foi publicado pela primeira vez em 1760, quatorze anos antes, por um cientista russo chamado Mikhail Vasilyevich Lomonosov. Já ouviu falar? Eu também não.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O Bom, o Mau e o Feio

O título do excelente filme acima não é uma tentativa de crítica do mesmo. O assunto aqui é outro, mas o título do filme veio bem a calhar. Estava discutindo com um amigo meu sobre o mundo da fantasia. Estávamos falando que gostamos muito desse gênero e ele por ser cristão acaba sofrendo algum tipo de preconceito de alguns membros da igreja mais “puritanos”, que acabam olhando aquilo como “obra do diabo” ou “paganismo”. Falando do mundo da fantasia, nem preciso ir muito longe para falar sobre a inegável influência de C.S.Lewis no cristianismo moderno, sendo um dos autores mais influentes do século passado. Esse grande autor escreveu “As Crônicas de Nárnia”, uma obra considerada por muitos um clássico da fantasia, comparada com Tolkien e “O Senhor dos Anéis”. Os dois eram muito amigos, vale dizer, e Tolkien acabou por trazer o amigo para o mundo cristão. Lewis era ateu e se converteu ao cristianismo por grande influência de Tolkien. Seus mundos fantásticos são cheios de influências cristãs. Confesso que não li Crônicas de Nárnia, mas li O Senhor dos Anéis. Uma obra singular no mundo fantástico da fantasia.
Agora vamos voltar ao mundo atual em que vivemos. Hoje vindo para o trabalho quis matar um motoboy a pauladas, bem devagar para que ele pudesse sofrer bastante antes de morrer. Depois fiquei pensando nos motivos que me levam a desejar isso. Muitas vezes falo que gostaria de comprar um Hummer para passar por cima de gente que pára em fila dupla ou que quer dar uma de esperto e furar a fila, o que mais se vê nas ruas. Por que será que penso nessas coisas? Como cristão eu não deveria amar o próximo? Ser gentil, cordial, bondoso?
No mundo da fantasia, as pessoas boas são sempre boas. Os maus são declaradamente maus. Normalmente isso é assim do começo ao fim. As personalidades não mudam muito seu caráter, e se mudam para pior é que ele sempre foi um mau enrustido. Se mudam para o bem, tinham o coração dominado pelo maligno e foram libertados. Aí começa um dilema na minha cabeça. No mundo atual, o bom nem sempre é bom e o mau nem sempre é mau. Todos somos bons e maus ao mesmo tempo. Tudo depende do contexto e dos motivos. Aí começo a entender um pouco a Graça Divina e por que ela acontece. Imagine se Deus fosse usar da justiça para julgar qualquer pessoa. Ninguém estaria salvo. Todos seriam mortos a pauladas para sofrer bastante. Aí veio Jesus Cristo e nos ensinou que a vida é assim, cheia de desgraças e maldades, mas nós deveríamos ser diferentes. Deveríamos olhar o mundo e as pessoas como se tivéssemos óculos divinos, e observássemos tudo com a ótica de Deus. Aí, perdoaríamos mais, amaríamos mais, riríamos mais, seríamos mais felizes, mesmo em meio ao caos. Quando pudermos entender que o mais importante é Deus e a vida eterna, poderemos desconectar um pouco de nossas preocupações diárias, com o futuro, com o mundo, com a política, com o luto. Jesus não disse aquela frase à toa: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” Mt. 11:29-30. Isso quer dizer que podemos sossegar com as preocupações da vida porque daqui nada se leva. Bem vale o livro de Eclesiastes da Bíblia. Se você ainda não o leu, faça isso. É excelente. Um bom local para ler é aqui. Uma das frases que gosto muito é “Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele.” É meu amigo, isso está lá na Bíblia.

Somos bons, somos maus, somos feios. Temos maus pensamentos a todo instante. O desafio é vencer isso a cada dia, a cada hora. Todos os dias devemos nos esforçar e morrer para com nossa vaidade e aceitar o fato que daqui nada se leva. Se julgo alguém, o faço não pelo que ele tem, mas o quanto ele doa. É assim que deve ser. É assim que luto para ser e me frustro a cada dia. “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.” Rm 7:19

domingo, 5 de outubro de 2008

Aulinha de inglês

Eu acho inglês difícil. Embora eu fale essa língua estranha, ainda me pego completamente desnorteado com algumas frases que encontro nos livros. Acho que existem alguns tipos de inglês. O “técnico” que é o inglês com jargões do informatiquês, mais usado atualmente nas empresas; o inglês literário, com palavras difíceis e pouco usadas no dia a dia; e o inglês tradicional usado num bate-papo. Não acredito que exista aquela coisa de “inglês intermediário”, “inglês básico”, “inglês avançado”. Acredito que inglês ou você sabe ou não sabe. Se você o sabe, pode sabê-lo mal ou fluente. O problema é que a língua exige um grande e constante estudo, e o indivíduo que estuda precisa saber as diferenças básicas do português para o inglês que se exige nas expressões idiomáticas, que são aquelas coisas como “tirar o cavalo da chuva”, “nem a pau, Juvenal” e por aí vai, que muitas vezes não tem a menor relação da frase original quando se traduz, porém o sentido é o mesmo. Estava lembrando esses dias do livro que eu tinha do Stephen Hawking que se chama “O Universo Numa Casca de Noz”. Estava me perguntando por que será que traduziram a expressão “In a Nutshell” para “numa casca de noz”. Perde totalmente o sentido. A casca de noz no caso significa em inglês que é "em suma", "resumido", "no geral". Essa é a idéia. E quando o livro é lançado aqui posso imaginar as pessoas tentando decifrar que treco significaria colocar todo o universo na casca da comida predileta dos esquilos.

Existe um livro muito legal chamado “Como se diz Chulé em inglês”, do Ron Martinez que nos dá uma idéia de quão complicado pode ser uma simples expressão ou então traduzir uma simples idéia, como chulé, que não existe em inglês. Lá você tem que dizer onde está o mau cheiro.

Tenho grande admiração pela turma que faz a legenda do seriado Friends. As piadas são complicadas e mesmo assim a legenda rebola para trazer o sentido da piada, e ao ouvir “I don’t give a tiny rat's ass” não pensemos que o Ross do seriado não dá uma bunda magra de rato para a coisa, mas sim que ele não dá a mínima para a coisa. Outro pessoal bom de legenda é a galera que traduz o seriado Gilmore Girls. É muito complicado entender as piadas porque elas usam coisas do dia a dia dos americanos e para nós a coisa fica muito sem graça. Seria como um americano vir para cá e você falar para ele que a fulana não tem eira nem beira. Pegando a explicação do livro acima, eira é um pedaço de terra batida onde se guardavam cereais e legumes; e beira é beiral, representando a casa do dono das terras. Então quem não tem eira nem beira não tem nem casa nem terras. Um pobretão. Claro que em inglês a coisa não dá para ser traduzida, mas o sentido teria que ser algo como não tem nem onde cair morto. No inglês essa expressão é “not have a pot to piss in”, ou seja, “não ter onde mijar”. Esquisitices próprias de cada língua. Apesar da língua inglesa não ser tão complexa quanto a língua portuguesa, ainda assim possui muitas coisas complicadas, como algumas palavras e verbos que servem para muitas coisas e dependendo da frase ora tem um sentido ora outro. Um exemplo é o verbo “to get” que tem lá seus quarenta e cinco significados, e também o verbo "to look", que o dicionário Oxford Advanced Learner’s Dictionary dedica umas duas páginas inteiras divididas em duas colunas.

Talvez seja por isso que tantas pessoas desistem dos cursos de inglês. Elas desanimam. O importante é continuar aprendendo, porque dificilmente você aprenderá tudo, cem por cento. Mesmo com a nossa língua portuguesa dificilmente vemos pessoas que a usam de maneira correta. Eu mesmo cometo meus deslizes e sempre recorro ao dicionário quando preciso escrever um texto. Infelizmente o mundo de hoje exige o inglês, que é usado na maioria das multinacionais e largamente utilizado na área da informática. Se você ainda não aprendeu, tente mais uma vez. Dedique-se mais e aprenda ao menos para você ficar entre falar mal e fluente, que já é um grande passo. Muitas vagas no Brasil não são preenchidas porque falta inglês para a maioria dos currículos. Muitas vezes não posso indicar amigos meus porque não sabem inglês. Hoje saber inglês já não é mais diferencial, é obrigação, assim como saber informática básica e saber ler e escrever. E dê graças a Deus por ser inglês. Imagina se fosse alemão?

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Balada de Halo Jones

Bem, esse blog vai ficar um pouco largado, pois como troquei de emprego me falta tempo para escrever. Ainda penso que deveríamos trabalhar efetivamente apenas quatro horas por dia. É fato que poucas pessoas trabalham efetivamente todas as oito horas diárias. Sou a favor de uma imersão total no trabalho de quatro horas e depois ir pra casa. Mas isso é tema para outro post. Vamos a este artigo de fato.

A Balada de Halo Jones é uma obra de ficção científica do (mais uma vez comentado) grande Alan Moore. Como um de seus primeiros trabalhos, Moore mostra nessa obra de três partes, ou três livros, um futuro possível para a humanidade se as coisas continuarem como estão. Parece que esse futuro ainda é possível, mesmo após 1984 quando foi escrito. A história fala sobre os feitos de Halo Jones, uma menina aparentemente normal nascida no ano de 4.931 que vive nesse futuro do século 50 na ala dos pobres, então isolados da América por uma construção chamada “O Aro” (The Hoop), flutuando sobre o Oceano Atlântico, ao redor de Manhattan. A idéia era acabar com a pobreza, então todos os desempregados foram mandados para lá, e não acabou com a pobreza, mas apenas garantiu que as pessoas não precisassem olha mais para os pobres.

“Se você perdesse seu emprego , era enviado para o aro, onde sobreviveria graças ao MAM, um cartão de crédito dado pelo governo, até achar um emprego. Exceto que não havia emprego algum”. Esse Aro era obviamente dominado pelo crime, com gangues e policiais ineficientes, e estes policiais eram ex-detentos, transformados em Zumbis através de uma cirurgia cerebral.

Muita coisa acontece na vida de Jones e a menina surta e resolve “sair pelo mundo”, quando na verdade seria correto dizer “sair para o Universo”, já que ela pega carona numa nave interplanetária trabalhando como uma espécie de aeromoça. O interessante dessa viagem, nos dois sentidos, é como Moore constrói os personagens, não só Jones, mas também os coadjuvantes da história. Mudam os termos, as brincadeiras, as noções de realidade, as gangues, os vícios, tudo, mas tudo fica muito igual. O futuro não é dependente de um grande computador controlador de tudo e todos, mas sim dependente da própria humanidade, falida socialmente, com um abismo entre as classes sociais, com guerras interplanetárias rolando. Nestas guerras, 99% dos soldados são mulheres, aparentemente renegadas novamente na história de uma sociedade machista, mas colocadas por Moore para chocar mais, dizendo ele que embora não seja diferente a vida de um homem ou uma mulher perdida na guerra, o fato de termos mortes de destemidos e fortes combatentes homens chocaria menos, ao passo que vermos assustadas mulheres que se vêem obrigadas a combater numa guerra também sem sentido teria maior impacto psicológico. E realmente teve. Nessa guerra é contada as barbaridades que o indivíduo pode cometer, e continua cometendo mesmo no século 50.

É uma obra que vale muito a pena ler, um gibi de respeito escrito por um dos maiores gênios dos quadrinhos. Pena ser em preto e branco, mas os desenhos de Ian Gibson são muito bem feitos e completam o excelente roteiro. Foi lançado aqui em português pela editora Pandora Books, e ainda pode ser achado nos sites de quadrinhos. A Balada de Halo Jones para mim é cinco estrelas, além das tantas outras estrelas desse Universo igual, só que diferente.