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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Coloque o arquivo de guerra no gato Tom.

“O Sr. Já trabalhou com AJAX? – Perguntou o entrevistador a seu candidato.
Sim, claro que já. Trabalhei há dez anos com AJAX. – Respondeu o candidato à vaga de Analista de Sistemas Java.
Surpreso, o entrevistador questionou-o:
- Como assim ‘há dez anos’? AJAX só existe de fato há três anos.
- Ah, não é verdade. Eu trabalhava com AJAX junto com meu pai. A gente vendia muitos litros. Ele tinha uma Kombi, sabe...
- Calma, calma. – interrompe o entrevistador já irritado – Eu estava falando de outra coisa. Olha esquece, tá? E sobre Swing?
- Ah, isso eu não faço não. Sou casado.” [1]

O mercado da informática tem suas peculiaridades, assim como toda profissão, e essas peculiaridades são um tanto quanto estranhas para quem fala o idioma tupiniquim. Algumas coisas no mundo da programação de computadores simplesmente não podem ser traduzidas, pois perderiam todo o sentido. O exemplo acima diz respeito a uma tecnologia chamada AJAX, que tem o mesmo nome de uma marca famosa de produtos de limpeza para uso geral, de propriedade da Colgate. Swing é o nome de outra tecnologia, com mesmo nome alusivo à mais completa putaria conhecida. Por isso alguns livros pecam muito em tentar traduzir termos e nomes que não podem ser traduzidos. Na linguagem de programação Java (que quase se chamou Carvalho... Eu disse CARVALHO), existe uma função principal chamada “main” (main é principal, em inglês). A composição dessa função (que em Java chama-se método) tem um nome grande, e se fossemos traduzir teríamos a pérola:

Vácuo público da estática principal ( args[] da Corda ); [2]

Veja que beleza. Não dá para traduzir. Cada palavra tem um sentido específico em inglês, válido somente para o contexto em questão.

Quando você faz um desenvolvimento em Java, são gerados pacotes, que possuem extensões de arquivo, do tipo jar, ear e war. Um dos servidores que rodam esses arquivos é chamado de Tomcat (O Gato Tom). Vai lá você traduzir: Coloca pra mim a guerra, a orelha e o jarro no gato tom, por favor? Alguém que estivesse passando acharia no mínimo que errou o caminho e foi parar no hospício. Só faz sentido em inglês.

Outra coisa interessante são os nomes das tecnologias e produtos. Temos Ajax e Gato Tom, como vimos acima, Java Servidor Caras, Caras Ricas, Java Grão de Café, Hibernar, Primavera, Chapéu Vermelho, Lixeiro, Sabão, Eclipse, Peixe de Vidro, e por aí vai. Tanta criatividade atrapalha muito os tradutores não familiarizados.

Esses dias estava assistindo o filme “Across de Universe” e estavam traduzindo na legenda as músicas dos Beatles. Cada pérola que saia que eu me matava de rir. Uma das mais engraçadas foi no refrão da música “I am the Walrus”, onde John canta “I am the eggman, they are the eggmen, I am the walrus,Goo goo ga joob”. Lennon certa vez recebeu uma carta de um estudante dizendo que seu professor de língua inglêsa estava analisando as músicas dos Beatles. John então num tom provocativo escreveu I am the Walrus, uma música cheia de referências, simbologias e aberta a várias interpretações, e Eggman é Intelectual e não “cabeça de ovo” como foi traduzido na legenda. A tradução/interpretação do refrão deveria ser “Eu sou o intelectual, eles são os intelectuais. Eu sou a morsa, bom bom bom trabalho”. Nada a ver com o que foi colocado lá na legenda, por uma pessoa ou grupo que não entendia nada de Beatles.

Bom tradutor é aquele que entende o espírito da coisa e coloca a tradução interpretada corretamente ou deixa o termo em inglês. Um bom exemplo é o livro “Direitos Iguais, Rituais Iguais” de Terry Pratchett que saiu aqui pela editora Conrad. Os tradutores espertamente colocaram os dois sentidos de “Equal Rites”, título em inglês. Rites significa rituais ou ritos e tem a mesma pronúncia de “rights”, direitos. Faz todo sentido, pois é uma história de uma menina que quer ser mago, profissão permitida somente para homens, no livro. Então ela quer ter direito (rights) de ser mago e praticar seus ritos (rites). Parabéns à Conrad.


[1] AJAX significa Asynchronous JavaScript and XML.
[2] Obviamente todo programador Java conhece o método public static void main( String[] args)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Divertidos e malucos


Estou lendo o segundo volume da série básica de 38 livros (isso mesmo, trinta e oito) do Terry Pratchett chamado “A Luz Fantástica”, da Editora Conrad. Essa série chamada Discworld conta a história de um Universo plano sobre as costas de quatro elefantes que por sua vez se equilibram no casco de uma gigante tartatuga, chamada Grande A'Tuin. Essa tartaruga vaga lentamente pelo vácuo do espaço. Essa série de livros já foi traduzida para 27 línguas, tamanha sua popularidade. Se você gosta de humor inglês, pode comprar sem medo de errar. Faço um pararelo do primeiro livro, chamado “A Cor da Magia”, onde tudo começa, com outra série de cinco livros do “Guia do Mochileiro das Galáxias” (Douglas Adams). Acredito que exista uma inspiração de Pratchett no Guia do Mochileiro (além de Tolkien, Robert Howard, H. P. Lovecraft e Shakespeare) pois ambos os livros contam histórias absurdas em situações mais absurdas ainda, basicamente com duas pessoas principais e um acompanhante engraçado, que no caso do livro de Pratchett é a bagagem de um dos personagens que é “viva” através de um tipo de magia. No livro de Douglas Adams é o Marvin, o divertidíssimo robô depressivo que acompanha Arthur Dent e Ford Prefect. Já no livro de Pratchett a bagagem acompanha a viagem de Duasflor e o mago Rincewind. A séria do mochileiro saiu em 1978 no rádio e virou livro em 1979. O Discworld teve sua primeira publicação em 1983.


Essa série de livros tem como objetivo principal não ter objetivo nenhum, e você se vê num ambiente completamente pirado, com tiradas de humor geniais e outras tão malucas que a risada é a sua única companheira. Difícil explicar o que se trata, já que não se trata de nada plausível. O livro de Pratchett (Série Discworld – A Cor da Magia) conta histórias sobre esse universo maluco e as trapalhadas do mago Rincewind (nos primeiros volumes). O livro de Douglas Adams (Série Guia do Mochileiro) baseia-se nas aventuras de Arthur Dent, da Inglaterra, na situação em que o planeta Terra está sendo destruído (ou demolido) pelos Vogons para a construção de uma via expressa hiperespacial (!), que por acaso passaria por aqui. Idéias absurdas e aventuras divertidas é o que essas duas séries conferem para quem a experimenta. Não dá para explicar muito mas vale a pena ler. Recentemente saiu um filme do Guia do Mochileiro das Galáxias, mas nem se compara ao livro.

Existem frases malucas e aparentemente soltas no livro como por exemplo no Guia do Mochileiro: “A poesia vogon é, como todos sabem, a terceira pior do Universo. Em segundo lugar vem a poesia dos azgodos de Kria. Durante um recital em que seu Mestre Poeta, Gruntos, o Flatulento, leu sua 'Ode ao pedacinho de massa de vidraceiro verde que encontrei no meu sovaco numa manhã de verão', quatro pessoas da platéia morreram de hemorragia interna, e o presidente do Conselho Centro-Galático de Marmelada Artística só conseguiu sobreviver roendo uma de suas próprias pernas completamente. (...) A pior poesia de todas desapareceu com sua criadora, Paula Nancy Millstone Jennings, de Greenbridge, Essex, Inglaterra, com a destruição do planeta Terra.” - O Guia do Mochileiro das Galáxias, capítulo 7, página 71. Esse trecho é uma brincadeira de Adams para com seu amigo de escola Paul Neil Milne Johnstone. Já o livro de Pratchett conta com situações também divertidas como por exemplo a explicação da palavra Taumo: “Taumo é a unidade básica de força mágica. Foi estabelecido universalmente como a quantidade de magia necessária para fazer surgir um pombinho branco ou três bolas de bilhar de tamanho padrão”. A Luz Fantástica, página 40.


Curiosidades à parte, um site tradutor online famoso é o babel fish, que tem esse nome devido à uma referência no livro do Guia do Mochileiro das Galáxias de um peixe chamado Peixe Babel usado para tradução simultânea quando enfiado no ouvido.


Vale a pena conferir.