quarta-feira, 1 de junho de 2011

Barulho


Não gosto de barulho. Não é qualquer barulho que não gosto. Num show de Rock, eu gosto. Numa festa, eu gosto (até certo horário), numa reunião de amigos, também. Não gosto de um tipo de barulho específico: O que não deveria existir naquele momento. Exemplo: Vizinha arrastando a cama às 2h da manhã, pessoas buzinando no trânsito às 6h, celular tocando no escritório com a música do Chiclete com Banana, etc. Aliás, por que alguém buzina no trânsito? Acaso ele é movido a som? Buzina deveria gastar, e deveria ser cara para repor, assim as pessoas economizariam e somente fariam aquele barulho desagradável se fosse muito necessário.

O barulho, segundo a Wikipédia, causa problemas de audição, hipertensão, doença isquêmica do coração, stress, tristeza e distúrbios do sono (sem contar o desejo psicopático de esfaquear alguém). Teve até um juiz no Colorado, Estados Unidos, que sentenciou as pessoas barulhentas a ouvirem Barry Manilow. Eu preferiria a morte.

Agora, por que alguém faz barulho? E detalhe: Por que alguém faz barulho sozinho? Exemplo: Motoqueiros. Não estou falando só de motoboy que é um caso à parte, mas o camarada que vai e compra aquela desgraça de moto com escapamento de Dragster. Sério? Você é tão sozinho assim que precisa chamar atenção com barulho? Já pensou que ter uma conversa inteligente pode resolver melhor seu problema que montar num dinossauro flatulento? Outra situação: Quando você entra no ônibus ou metrô, cheio, fim de tarde, cansado, e tem um infeliz, filho de primos, que está ouvindo funk no celular sem fone de ouvido. Não dá pra acreditar na cena. O cara ali, sozinho, cara de bobo, se achando o Waldick Soriano do vagão, movendo o pescoço igual àqueles cachorrinhos de gesso de taxista, pensando que tem várias meninas ali loucas para dar pra ele só porque ele gosta do Funk do Pesadão.

Outro caso bizarro, a meu ver. O cara tem um Uno. Se bater em alguém com o carro a pessoa morre de tétano de tanta ferrugem. Ano: 1990. Preço: R$ 5.000,00. Valor do som: R$ 10.000,00. Como pode? Aí ele para no posto de gasolina, compra uma kaiser, abre o porta-malas daquela ximbica e coloca um pagodão, daqueles bem legais de serem ouvidos 1h da manhã de um domingo. Não pode ter nada pior, né? Ah pode. Sempre pode piorar. Biblioteca da faculdade. Um grupo fazendo um escarcéu do seu lado, e você só está ali porque queria silêncio para ler. Eles sabem o que seria uma biblioteca? E reclama pra ver. O barulho triplica, com certeza.

O detalhe que me intriga é que quem faz barulho tem mau gosto. Tirando os que moram do lado de cachoeira, pois falam gritando normalmente, aqueles barulhentos que ouvem “música” ouvem aquelas desgraças de pagode, funk, axé, bundalelê, sertanejo novo, e outros ritmos desagradáveis com letras acéfalas. Por que não colocam Mozart? Ou Beatles? Por que sempre tem que ser a Joelma do Calypso? Ou o bonde do não sei quem? Preconceito musical? Ah, vá se catar! Eu tenho direito de não gostar dessa porcaria, e pode reparar: Os barulhentos são os que tem esse péssimo gosto. Ninguém é barulhento ouvindo Chopin e bebendo Châteauneuf du Pape. É ouvindo Victor & Leo e bebendo chapinha. De preferência direto da garrafa de “prástico” mesmo.

Desagradável também é quem quer falar no celular bem alto, para todo mundo ali saber que ele pegou a Cleudislete no sábado enquanto o marido dela fazia o churrasco na laje. Já atende o telefone do seu lado, berrando na sua orelha, assim: E AÊ MANO? SÓ NA “PAIZ” DO MACACO? Juro que ouvi isso numa segunda-feira, de manhã, indo para o trabalho. E a conversa só piorou dali para frente. Tirando os erros de português que nem dá pra comentar mais, porque é preconceito linguístico, a conversa foi numa baixaria que é inenarrável. E óbvio, no volume máximo, porque o infeliz era pegador e queria deixar isso bem claro para todos os surdos num raio de 10 km.

Suplico a você também, que gosta de tirar fiapo de manga do dente às 7h da manhã no trem: Não faça isso. Compre um fio dental. Resolve melhor e muito mais rápido. E você que gosta de ouvir sua música mequetrefe, compre um fone de ouvido e coloque no máximo se quiser. Só não perturbe os outros.

Tem a cena barulhenta clássica também: A tia que gosta de gritar com a criança, no meio do shopping: “NÃO CORRE, GEISISLANE! QUANDO CHEGAR EM CASA VOCÊ VAI VER! EU VOU TE ARREBENTAR!”. Vai o que? Não ouvi direito. Fala um pouco mais alto aqui no outro ouvido, porque esse a senhora já estragou. Apanhar é bem melhor que ouvir os urros dela, aposto.

Observei uma outra cena um tanto estranha. Um americano que veio provavelmente visitar a empresa aqui no Brasil e um grupo de pessoas que arranhavam um inglês “Falconês” tentando se comunicar com o camarada. Porém aos berros. Do tipo “ÁI LAIQUE DIS RETORANTI! IS GUDI. IU QUEM COMI RIAR ENITAIME.” A pessoa falava e o cara ficava piscando duro, meio assustado com os gritos. O cara era americano, não surdo! Agora nem sei mais se continua ouvindo bem.

domingo, 29 de maio de 2011

O que andam fazendo com sua mente


Um estudo publicado no Journal of Consumer Research revelou que anúncios vívidos produzem falsas memórias. Isso quer dizer que quando você viu aquela família feliz tomando seu café da manhã com a margarina mais legal de todas, ou as pessoas rindo na praia (dando uma estrela), você pode começar a se lembrar desses eventos não como comerciais, mas como memórias reais da sua vida. E essas memórias falsas podem ter efeitos profundos não somente em seus hábitos de consumo, mas também como você entende por vida e realidade.

Priyali Rajagopal do Southern Methodist University’s Cox School of Business e Nicole Montgomery da William & Mary descobriram como experiências falsas podem parecer igualmente reais. O experimento que fizeram contou com 100 voluntários que lhes foram apresentados um ou dois anúncios de um falso produto (uma marca de pipoca). E alguns desses voluntários preencheram somente uma pesquisa, sem provar o produto (que seria uma pipoca real da marca Orville Redenbacher como sendo o tal produto). Uma semana depois, esses candidatos foram indagados sobre sua experiência. Os indivíduos que somente preencheram a pesquisa (e portanto não provaram o produto) e observaram os anúncios vívidos se "lembraram" do gosto da pipoca assim como os que a provaram, dando a estes confusos voluntários falsas memórias, ou efeito de falsas experiências, como os pesquisadores a chamaram.

Estamos vendo aqui apenas o que a propaganda nos causa. O que está acontecendo ultimamente é a transformação do indivíduo em um gado consumista. Esse gado talvez seja mediano, conheça as coisas baseadas no "já ouvi falar", tenha um emprego que lhes forneça alguma renda que seja facilmente revertida em falsas necessidades, alimentando um mercado ávido por mais. Não é uma teoria da conspiração, a meu ver, porém algo que provou-se certo ao longo de várias experiências de negócio. O livro "The Shallows: What the Internet is doing to our brains" (Os Rasos: O que a internet está fazendo com nossos cérebros) mostra que o bombardeio de informações impede um tipo mais profundo de compreensão, forjando uma nova ética intelectual que é superficial, modificando inclusive nosso cérebro. Vejam só, estou citando esse livro e sequer o li, apenas pesquisei sobre o seu conteúdo e o coloquei na minha lista dos desejos, mas o ponto aqui é falar que o bombardeio de informação não nos torna mais inteligentes, nem mais sábios. É preciso um tempo para refletir, colocar as ideias no lugar e traçar um raciocínio do que se estuda.

Por falar em estudo, e a nova cartilha de Língua Portuguesa? Não queria escrever mais um artigo da nova cartilha, porque esse assunto foi mais que abordado nesse mês, inclusive nas páginas amarelas da Veja dessa semana, trazendo Evanildo Bechara, doutor em letras membro da Academia Brasileira de Letras, que desce o porrete educadamente nos imbecís que tentam incentivar a ignorância com o chamado "fim do preconceito linguístico". Nada de aburdo ou novo, já que falamos do Brasil e de seu por duas vezes ex-presidente semianalfabeto. Mas aqui a ambição talvez seja outra, que vem desde a ditadura, num exercício de deixar a massa cada dia mais ignorante, se assim possível, matando qualquer chance de pensamento elaborado e reflexão, pois certamente tirariam os que governam de seus postos.

Portanto a moda hoje é a pregação da ignorância, ou no máximo um pensamentinho mequetrefe. Temos um monte de gente dizendo que pensar igual a todo mundo é o mais certo a ser feito, pois caso contrário é preconceito. Quem traça um raciocínio e entende que certas formas de ideias não fazem sentido, ou não concordam com estas, acaba por ser desprezado, criticado, e invariavelmente sozinho.

quinta-feira, 10 de março de 2011

A Importância do domínio da língua inglesa

Muita gente anda tentando aprender inglês. Não é uma língua fácil porque não tem relação direta com a língua latina, como o espanhol, e assim não dá pra “enrolar” no inglês. Porém, o inglês não possui quatorze tempos verbais como o português. Embora não saibamos escrever nem falar a língua pátria corretamente (haja vista os meus próprios erros neste blog), já nos acostumamos com pretérito imperfeito do subjuntivo (se eu falasse), particípio (falado), futuro do presente do indicativo (eu falarei), e tantos outros nomes que metem medo em vestibulando.

Inglês, como qualquer outra língua, não é fácil, porém acredito ser mais fácil que muitas línguas, inclusive o próprio português, e com certeza mais fácil que o alemão, sem contar chinês, japonês, grego, russo e outras línguas encontradas em naves espaciais. A importância no mundo atual da língua inglesa é fundamental para o enriquecimento cultural. Sabemos que a internet é grande fonte de informações, e embora exista um livro em minha lista dos desejos dizendo que a internet torna as pessoas “rasas” culturalmente, também sabemos que podemos nos aprofundar em diversos assuntos através da internet, como, por exemplo, o site do Google Books, o projeto Gutemberg e tantos outros sites que distribuem livros de graça para leitura online ou download. Falando em Google, existe recentemente o Google Art Project, que é um projeto do Google de mapear os museus, mostrando impressionantemente a qualidade das obras de arte, dando para ver a pincelada na pintura. Vale a pena conferir. Todos esses sites são em inglês. Não sabemos se teremos a versão em português.

Existem alguns mercados de trabalho que falar inglês é essencial. Um exemplo é o mundo de informática em geral, especialmente programação. Em computação a maioria dos livros são em inglês e se você quiser em português terá que amargar uma tradução que normalmente prejudica o aprendizado, pois alguns termos conhecidos mundialmente em inglês são traduzidos, perdendo-se completamente a referência.
Existem muitas utilidades que são encontradas para os amantes da língua inglesa. Exemplos:

• Gibis: Se você quiser acompanhar um gibi é melhor comprá-lo em inglês. Aqui a saga é descontinuada se não dá audiência, e a história é cortada no meio. Isso quando chega aqui, pois a grande maioria nem dá as caras no Brasil, além do gibi chegar com no mínimo um ano de atraso de seu lançamento nos Estados Unidos;

• Música: Já vi gente colocando "Sexed Up" do Robbie Williams em filme de casamento. Essa música é um insulto do cantor a uma mulher, ou seja, ele manda a mulher se catar. Vale a pena conhecer as letras para realmente não selecionar um tema musical não tão apropriado.

• Seriados / Filmes: Embora os filmes cheguem aqui com traduções estapafúrdias, esse não é o principal problema. Algumas legendas não conseguem transmitir o que a pessoa realmente quis dizer, principalmente se for uma piada, coisa que quem domina o inglês se diverte e entende muito mais, e aproveita o filme em vez de ficar lendo legenda;

• Internet: Não adianta. A maioria do conteúdo é em inglês. A maioria das notícias chegam aqui atrasadas. Procurar notícias em português de games é como ler jornal de ontem.

• Games: Opa, falando neles, os jogos de computador e vídeo game são em inglês. Alguns em japonês, sim, mas a maioria esmagadora está em inglês, e não tem legenda. Por isso vale a pena saber a história, além de ficar apertando o botão sem saber o que realmente está acontecendo.

• Compras: Você já ouviu falar do eBay? Não? Pois é, o eBay é um site de compras em inglês que faz você economizar muito, frente aos ridículos impostos desse país. Temos também a Amazon, e livros em inglês comprados lá são mais baratos que os traduzidos aqui, além do Kindle, que é um leitor eletrônico de livros, excelente para quem domina o inglês e com preços de livros muito mais baratos;

• Livros: Aí vai do gosto do freguês. Como já citado acima, temos um arsenal literário gigante em inglês. Minha praia é ficção científica e fantasia, e não temos muita coisa aqui em português, salvo raras exceções, como Jorge Luiz Calife, Érico Veríssimo, e alguns outros, mas sabendo apenas português você fica limitado a isso. Se for essa sua intenção, ótimo. Não é a minha;

• Cultura: Aprender inglês é aprender uma nova cultura. É poder marcar uma viagem para outro país sem o frio na barriga de passar fome porque não conseguimos falar “number one, please”. Quando aprende-se um novo idioma entende-se um pouco mais a história do país e de sua língua.

• Amigos: Você pode conseguir novas e ótimas amizades com pessoas de outros países, com o uso do inglês.

• Relacionamento: Conheço gente que conheceu o marido pela internet, casou e hoje mora nos Estados Unidos. É melhor que procurar as “amarrações para o amor” que se anunciam por aí.

Além de tudo isso, estava pensando que falar inglês está ficando cada vez mais obrigatório. Assim como informática, as pessoas precisam falar inglês, pois a maioria das vagas de trabalho exigem esse idioma, mesmo que não precisem de fato de alguém que fale inglês, mas usam essa exigência como filtro de candidatos.

Por isso, se você tiver a chance, aprenda inglês. Faça um esforço. Você certamente vai precisar usá-lo um dia, e talvez tenha um papel de destaque no seu meio por causa do domínio dele.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Apartheid nos Supermercados

Hoje um amigo do trabalho estava reclamando do desrespeitoso atendimento de um dos supermercados populares em que ele foi, por parte de seus funcionários. Disse que foi desrespeitado quando um funcionário pegou o carrinho de meu amigo enquanto este procurava o sal no corredor da frente para recolher os produtos do supermercado. Quando ele chegou, seu carrinho estava cheio de coisas que não eram dele, e já havia gastado [1] ali meia hora para escolher os produtos. O funcionário disse simplesmente que não iria retirar os produtos que não eram dele, ali colocados pelo funcionário, e pronto. Este meu amigo saiu e foi fazer suas compras em outro supermercado, um considerado elitista. Lá, num local bem diferente, ao som de Jazz e ambiente limpo e claro, bem diferente do outro em que havia saído, fez suas compras com calma, e viu que a conta estava dando praticamente a mesma coisa. Diga-se de passagem, ambos supermercados fazem parte do mesmo conglomerado de empresas.

O Brasil hoje passa por uma situação de crescimento econômico, mas na minha concepção está tomando o caminho errado. Parece que cresce somente em uma parcela da sociedade, enquanto temos a grande maioria dos menos beneficiados tratados como lixo, com transportes emporcalhados, supermercados sujos e com atendimento mau educado. As classes menos privilegiadas estão assumindo uma postura de desprendimento social. Sua parcela de contribuição cívica está beirando a zero porque talvez a educação não chegou a eles da maneira em que deveria ter chegado, com compromisso social. Talvez o maior culpado disso foi a Ditadura Militar, que tomou a possibilidade das escolas ensinarem da maneira correta, e degradou o ensino dessa maneira em que estamos hoje, criando pessoas cínicas. Cínicas assim como Diógenes por volta do ano 400 A.C. que, quando perguntado pelo rei Alexandre Magno se tinha algum desejo, e caso tivesse seria imediatamente satisfeito, Diógenes respondeu apenas "Sim, desejo que te afastes da frente do meu sol".

O povo em geral não tem esse sentimento de posse, de patriotismo para com o Brasil, nem brigam pelos seus direitos. Querem ou fugir daqui, com piadas do tipo "O Brasil tem saída: O Aeroporto", ou estão se lixando para tudo isso e o importante é o pagode do final de semana. Como disse em posts anteriores, por que um governo prefere investir num funcionário público para ficar carimbando um papel oito horas por dia, sete dias por semana, se poderia investir nesse funcionário mandando-o estudar, e produzir alguma coisa útil, mesmo que este nunca produzisse nada de importante? As chances seriam maiores de termos algum fruto do nosso dinheiro revertido em benefícios para o país a deixar esse indivíduo carimbando um papel.

Voltando ao Supermercado, temos hoje claramente uma espécie de Apartheid, só que em vez de brancos e negros temos o rico, que faz suas compras num local limpo e agradável, sendo atendido por pessoas bem educadas, e o pobre que faz suas compras num supermercado sujo, escuro, fedido, sendo atendido por pessoas despreparadas. Você já viu supermercado bom em periferia? Vi que a mesma coisa acontece com as farmácias. O que está acontecendo com o Brasil? Queremos esse tipo de segregação? E não é questão de preço, porque podemos ver que não são discrepantes, inclusive os supermercados "elitistas" possuem itens até mais baratos, mas é a forma como se encara essa situação por parte das pessoas que é o problema. Você acha que o Brasil andou para frente ou o crescimento foi apenas para inglês ver? Onde iremos parar com esse pensamento? Aliás, temos algum pensamento aqui?

[1] Antes que alguém me corrija, segundo o Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, segunda edição, de Domingos Paschoal Cegalla, usa-se gastado com os auxiliares ter e haver (voz ativa): "Ele tinha (ou havia) gastado muito dinheiro em apostas." Página 179.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Buenos Aires

Fui para a Argentina, e quero comentar aqui alguns mitos que vi da superestimada Buenos Aires. Todos os amigos, parentes, chegados, colegas, conhecidos, etc, me deram uma série de dicas de lá. Resolvi seguir a maioria delas, e vi que algumas coisas não são assim tão boas. Passei quatro dias pela cidade e conheci muitos lugares. Aqui vão minhas impressões e alguns mitos.

“Na argentina come-se bem por cinqüenta reais o casal”. MITO. Não é verdade. É igual ao Brasil, se quiser comer bem tem que pagar. É verdade que é mais barato que aqui, mas não é menos da metade do preço como ouvi.

“O povo argentino é gente boa”. Só se for os que estão no cemitério. Os argentinos são o que são. Mal educados em sua grande maioria. Isso porque eu era o cliente e o Brasil movimenta 60% do turismo deles. Imagina se eles não precisassem muito da gente então, o que seria. Salvo raras exceções como o pessoal do Hotel e a menina onde comprei uma jaqueta de couro, o resto queria que você morresse, de preferência devagar, sofrendo muito por muito tempo.

“Lá você compra coisas de marca a preço de banana”. MITO. Primeiro que tive que andar mais que office boy que sonha em ser carteiro pra encontrar lugares com preços bons, melhores que aqui, mas não são tão melhores assim. Fui com uma expectativa de ter que comprar outra mala para voltar, e acabei comprando uma jaqueta e uma blusa. Só.

“Na argentina não tem favela”. MITO. Tem sim. Pegue o trem que sai da estação Libertador para o Delta do Tigre e você vai conhecer muitas.

“Lá o povo dança tango na rua”. Sério, quanto você bebeu pra falar uma besteira dessas? O único tango na rua que vi foi na Florida e era um casal tentando vender artesanato, que dançava tão bem quanto minha avó tentando arrastar uma geladeira.

“A cidade é limpa e bonita”. Verdade. Tenho que concordar que lá tem muito mais parques, as ruas são mais limpas, as avenidas mais largas e a arquitetura muito bonita.

“Você tem que ir no Señor Tango”. Hummm... Olha, é verdade que o espetáculo é muito bonito, mas ainda não sei se vale à pena. Custa R$ 500,00 o casal (mil pesos) com jantar incluso. O jantar é muito ruim, de verdade, e não fui só eu que achei isso. A carne é dura, o peixe é horrível e a outra opção nem me arrisquei. O show tem duas horas de duração e é muito bonito, mas acho que uns duzentos reais o casal estaria muito bem pago.

“Vinho lá é muito barato”. MITO. Vinho bom é caro, como aqui. É MAIS barato, mas não é MUITO barato. Não entre nessa. Foi-se o tempo.

“Taxi é muito barato”. Verdade. Comparado com aqui é mesmo, mas leve em consideração que lá tudo é perto e não existe o conceito trânsito. Se você passar a jurisdição de Buenos Aires paga adicional e fica caro. Cuidado.

“Buenos Aires tem cara de Europa”. Sim, tirando os argentinos, o clima, as barraquinhas, os pedintes, a desorganização, a bandidagem, a sacanagem, o mau-humor e todo o resto fica bem parecido mesmo.

Gostei da viagem, não me arrependo, mas não é nada de extraordinário. Talvez uma viagem para o nordeste fosse mais aprazível.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A Comunicação

Já era manhã naquele dia que seria problemático com certeza. Assumindo um contato como esse, qualquer dia ficaria conturbado. Sem dormir, Jonas pensava em como trataria o assunto. Primeiro imaginou por muito tempo como conseguiria uma comunicação, já que percebeu que os visitantes não falavam nenhuma língua terrestre, nem emitiam som aparente de uma comunicação. Bem, se eles quisessem nos destruir já o teriam feito. Isso era inegável. Agora o mais improvável era colocar ele, um simples pesquisador matemático de universidade, a conversar com uma raça alienígena. O que será que ele diria? Tinha pensado em inúmeras teorias, em levar fórmulas matemáticas, em levar alguma coisa que pudesse expressar uma possível comunicação. Após algumas semanas sem dormir direito e praticamente sem dormir nada na noite anterior, Jonas caminhava agora para o helicóptero das forças armadas, que o levaria para o local de pouso da nave, e aonde ele rumaria dali para dentro dela sozinho. Junto de seu peito apertava uma pasta contendo papéis, um tablet, lasers, fotos, e uma gaita. Acharia que talvez a música poderia ser uma forma de comunicação, e já que arranhava alguma coisa na gaita... pelo menos era uma tentativa, ora. E todos usam música como forma primária de comunicação, certo?
Ninguém havia conseguido uma forma de contato ainda, e uma multidão de vários países já tinha tentado. Aparentemente os visitantes eram pacíficos e não fizeram nenhum tipo de destruição em sua visita aqui, a não ser ter dado um grande susto por parte das autoridades. O local também fora aleatório, já que seria bem improvável um pouso em um país de terceiro mundo, principalmente na floresta amazônica, local pouco habitado frente às metrópoles. Achou ridículo a postura das autoridades, que o vestiram com roupas espaciais, temendo alguma forma de vírus mortal. Achou que aquilo dificultaria ainda mais o já não fácil contato.

O helicóptero partiu em meio a uma enorme onda de flashes de máquinas fotográficas e um mar de câmeras de jornalistas. Seus quinze minutos de fama. Um evento maior que as Olimpíadas, com certeza. Ele só era mais um a ter uma tentativa de contato, já que físicos, políticos, filósofos, antropólogos e todo um mar de estudiosos tinham desistido porque não conseguiam extrair nada das tantas perguntas que todos tinham nas semanas que passaram. Será que os visitantes eram hostis? Por que vieram? De onde vieram? Como vieram? Quem eram? O que queriam? Como sabiam que estávamos aqui? Sabiam que estávamos aqui?

Jonas sentia um certo enjôo de tentar pensar em algo, mas depois de semanas de angústia após saber que ele seria o próximo, finalmente a espera estava acabando. Mais alguns minutos e seria a grande hora de conhecer os extraterrestres. Um filme de ficção não retratou essa hipótese desse jeito. Até em “O Dia em que a Terra Parou” houve um contato mais rápido e efetivo, mas dessa vez parecia que não estava funcionando bem. De repente teve uma idéia. Será que era isso? Será que um contato estava sendo “desenvolvido” por parte deles e todas essas semanas que estavam aqui era uma espécie de estudo de como se comunicar conosco? Será que até os próprios extraterrestres estavam aprendendo como nos comunicávamos?

Chegando ao local uma escolta armada o conduziu para a entrada da nave, num túnel de plástico até a nave, que estava com a (podemos chamar de) porta fechada. Ao chegar perto, como das outras vezes o casco dela ficou transparente e uma passagem de sua altura apareceu. Tudo igual ao roteiro das vezes anteriores com as outras pessoas. Isso o deu certa segurança e um certo desânimo também, de poder ser mais um a não obter contato.

Algo parecia diferente. Dessa vez estavam com ele não três, como relatado, mas oito extraterrestres. Era difícil descrever como eram, porque não saberia identificar membros, cabeça e tronco. Tudo parecia se mexer e pulsar. Não sabia para onde olhar, pois não havia aquele “meio dos olhos” em que nos fixamos para uma conversa. Era como olhar um quadro de Pollock. Havia uma espécie de cadeira ali, mas sabia que era algo improvisado, pois não se parecia como partes da nave, que certamente estava viva. Tudo era uma espécie de caos organizado, interagindo entre tudo. Em meio a muitos pensamentos foi que Jonas sentiu a dor. A princípio uma enorme dor de cabeça, que o fez cair de joelhos com as mãos nas orelhas, gritando. Depois de alguns segundos, imediatamente passou, e percebeu que seus pensamentos já não eram mais os seus, se é que isso seria possível. Ele estava na mesma posição, de joelhos, mas dessa vez o visitante à sua frente pedia desculpas. Com telepatia, seus pensamentos o guiavam para o que os extraterrestres queriam que ele pensasse. Incrível, pensou por si mesmo. Eles ainda estavam desenvolvendo uma forma de comunicar conosco. Por isso a demora em se comunicar, entendeu por fim.

E então, sem falar nada, pensou: “Por que vocês estão aqui?” Um pensamento lhe veio à cabeça: “Queremos primeiramente paz. Não vimos destruir nem conquistar sua casa. Você está conseguindo receber essa mensagem?” Jonas instintivamente balançou a cabeça, concordando e imediatamente entendeu que deveria pensar que sim também. Foi o que fez. “Sim, estou. Como vocês fazem isso de se comunicar dentro de meus pensamentos?” E uma resposta não tão animadora lhe veio à cabeça: “É uma forma de energia ainda não explicada pelo seu povo. Vocês a possuem, pois todo o universo parece a possuir, mas não a controlam.”

“Meu Deus, o bóson de Higgs!” pensou ele. “A partícula de Deus!”.

“Podemos dizer que sim, mas não necessariamente o que vocês entendem atualmente por isso”, retrucou o visitante, fazendo com que Jonas ficasse envergonhado, já que pensou sem querer nisso e sabia que tudo o que passasse em sua cabeça seria “lido” por eles.

“O que querem aqui? O que devemos fazer por vocês?”

“Queremos transmitir um pensamento, uma forma com que vocês entendam para onde precisam caminhar. Tomar um outro rumo com que vem fazendo até hoje. Vocês não estão sós. Mais povos existem e estamos aqui para lhe ensinar uma doutrina.”

“Doutrina? Uma religião?”

“Podemos dizer que seria uma troca de valores. Temos alguns pensamentos para fazer com que vocês assumam o desenvolvimento humano. Com isso será possível um reencontro conosco e com mais seres. Deixaremos tudo aqui, nesse dispositivo, e qualquer um que o tocar poderá absorver esses pensamentos. Nesses estão programados as respostas de como vocês poderão caminhar daqui para frente”

“Incrível. Teremos a chance de descobrir a verdade por trás das perguntas mais básicas de nossa existência, como a origem da vida?”

“Sim, porém receio que não será algo tão novo, já que vocês souberam parcialmente isso tempos atrás e aparentemente não tiveram vontade de praticar da maneira correta.”

“Um momento! Vocês já fizeram contato conosco antes?”

“Nós não, mas a mensagem passada anteriormente foi a mesma que agora estamos transmitindo, só que dessa vez esperamos que nosso registro seja seguido. A mensagem é universal e só com ela é possível transcender para uma nova realidade, e ao puro conhecimento do todo.”

“E que mensagem é essa? Posso ter ao menos uma ideia?”

“Uma ideia de conjunto”

“Gödel? Von Neumann?” Pensou Jonas prontamente, mais uma vez sem querer pensar com sua mente matemática, se referindo à teoria dos conjuntos do matemático-filósofo Kurt Gödel e do matemático Von Neumann.

“Nesse sentido, só que com pessoas.”

sábado, 18 de dezembro de 2010

Criacionismo

Estava pensando em escrever esse post com uma outra abordagem, mas resolvi de última hora não fazê-lo. Quero então comentar sobre o último livro que li, o qual ganhei de presente de um grande amigo.

Acabei de ler “Calculating God” de Robert J. Sawyer. Nesse livro um alienígena chega aqui na Terra, mais precisamente no museu de Ontario, no Canadá e procura por um palentólogo. O E.T., vindo do terceiro planeta da estrela Beta Hydri, quer estudar os motivos de extinção de vida. No final do período Ordoviciano, há 440 milhões de anos foi a primeira grade extinção. A segunda foi no final do Devoniano, algo em torno de 365 milhões de anos atrás. A terceira, e a maior, foi no final do período Permiano que ocorreu cerca de 225 milhões de anos atrás. Nesse período 90% de toda a vida marinha desapareceu, além de três quartos das famílias dos vertebrados terrestres. Tivemos outra extinção em massa no período Triássico, mais ou menos há 210 milhões de anos, e por fim a mais famosa aconteceu há 65 milhões de anos, no final do Cretáceo, quando os dinossauros sumiram. Como ocorreu na Terra por cinco vezes aconteceu também em seu planeta, despertando então o interesse em vir para cá.

O extraterrestre fica muito surpreso de constatar que os cientistas daqui, em sua grande maioria, não acreditam em um D(d)eus, coisa que ele o E.T. acredita e, segundo ele, com bases científicas. Esse alienígena está tecnologicamente somente uns 100 anos mais avançado que nós. Depois, no desenrolar do livro, umas das constatações do terráqueo, personagem principal, que trabalha junto com o alienígena (ou um dos que estão por aqui) em suas pesquisas sobre não acreditar em D(d)eus ou no design inteligente por parte dele, é mencionado na página 185 do livro, em que ele diz:

"Eu sabia o motivo em que estava resistindo tanto sobre o design inteligente - Porque quase todos evolucionistas resistem. Nós lutamos por mais de um século contra os criacionistas, contra tolos que acreditavam que a Terra fora feita há 4004 anos antes de Cristo durante literalmente seis dias de vinte e quatro horas; aqueles fósseis, se tivessem alguma validade, seriam os restos da enchente de Noé; que um Deus matreiro criou o Universo com luz estelar já ao longo do caminho, dando-nos a ilusão de grande distância e grande idade. (...)

Talvez devêssemos ser mais abertos, talvez devêssemos considerar outras possibilidades, talvez devêssemos não esconder a verdade tão prontamente sobre os baita buracos na teoria de Darwin, porém o preço era, e sempre deu a impressão de ser, muito alto."

Stephen Hawking disse em seu recente livro The Grand Design, escrito com o autor Leonard Mlodinow, que o universo surgiu “do nada”, de um completo acidente. No programa Larry King Live da CNN, Hawking declarou “Deus pode existir, mas a ciência pode explicar o Universo sem a necessidade de um criador”.

Em A Origem das Espécies, Darwin faz um adendo a um sofisticado instrumento presente na maioria dos seres, o olho: “Confesso abertamente: parece-me um absurdo do mais alto nível supor que o olho – com todos os seus dispositivos inimitáveis para o ajustamento do foco a diferentes distâncias, para a recepção de quantidades distintas de luz e para a correção de desvios cromáticos e esféricos – teria se formado por meio da seleção natural”.

Sobre o que o autor de Calculating God, Robert J. Sawyer, acredita, ele escreveu em seu site que “Atualmente acredito que a ciência triunfa sobre a religião, e que finalmente apenas o que é passível de ser provado, real, não sobrenatural e objetivo importa no final. Nisso, estou muito mais do lado de Richard Dawkins [de Deus, Um Delírio] que Stephen Jay Gould [evolucionista que disse que religião e ciência devem ser considerados dois campos distintos].” Fonte aqui.

Também o autor escreveu um tratado sobre o assunto onde diz que que confia plenamente na ciência, e só nela, porém o universo e a vida inteligente tem indícios bem fortes de possuir um design inteligente, e cita alguns fatos persuasivos, inclusive parafraseia o cosmologista Paul Davies dizendo que matematicamente as chances de um universo com essas particularidades todas e as particularidades para gerar vida é de uma em 10,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000,000.

Mais uma passagem do livro:

"Os arrogantes evolucionistas cruzaram os braços em 1953 quando Harold Urey e Stanley Miller criaram aminoácidos colocando uma carga elétrica sobre a 'sopa' primordial. O que eles pensaram, então, que seria a atmosfera primária da Terra. Pois estávamos no meio do caminho entre criar a vida em uma bacia, pensamos, e o triunfo final da teoria da evolução, a prova que tudo começou através de um processo simples. Se nós manejássemos a sopa de uma maneira mais correta, organismos auto-replicantes emplumados poderiam aparecer. Com exceção que nunca apareceram. Ainda não sabemos como sair de aminoácidos para auto-replicação."

O livro é muito interessante para quem afirma de pé junto que viemos realmente do macaco, que demos uma sorte danada de tudo ter dado certinho e que crer em uma divindade é uma bobagem para ignorantes ou fracos. Que demos mais sorte do que ganhar na loteria da sua cidade toda a semana por um século.

É preciso muito mais fé para ser ateu que crer em Deus. Por isso não entendo os ateus, que muitas vezes preferem atacar do que realmente defender seu ponto de vista.