domingo, 15 de agosto de 2010

Segundo Lugar

Tenho uma dificuldade tremenda para fazer ranking dos meus gostos e preferências. Difícil tarefa quando quero saber qual o melhor livro que li, qual o melhor filme, qual o melhor vinho, a melhor banda e por aí vai. Em filmes, após uma longa reflexão tempos atrás cheguei a conclusão que o meu melhor filme é Matrix, e em segundo lugar O Poderoso Chefão 1. Isso até ontem. Neste sábado assisti o filme "A Origem" (Inception) de Chistopher Nolan (Batman Begins, O Cavaleiro das Trevas, Amnésia e O Grande Truque), que desbancou meu segundo lugar. Não achei melhor que Matrix, pois me marcou muito na época, inclusive com a expectativa e das propagandas virais e tudo mais, mas em "A Origem" fui esperando nada (embora estivesse acompanhando as notícias da produção do filme) e obtive uma agradável surpresa. Não vou e nem quero falar sobre o filme em si para não estragar a surpresa. Se você não viu ainda corra antes que saia dos cinemas. Finalmente apareceu um excelente filme depois de algum tempo de amargura da sétima arte. Aliás, fui procurar o motivo do cinema ser "a sétima arte" e quem seriam as outras. Encontrei na Wikipedia que o italiano chamado Ricciotto Canudo escreveu um manifesto chamado "O nascimento da sexta arte" (The Birth of the Sixth Art) em 1911 propondo que o cinema seria uma nova forma de arte, que sintetizaria as cinco artes antigas propostas por Hegel (arquitetura, escultura, pintura, música e poesia) mais a dança (sexta arte), fazendo do cinema a sétima. Outras formas de arte foram adicionadas posteriormente, sendo a fotografia a oitava arte, os quadrinhos a nona, os jogos de vídeo a décima e a arte digital a décima primeira.
"A Origem" ganhou o segundo lugar no meu ranking de filmes preferidos. Fica aqui a dica do filme.

domingo, 8 de agosto de 2010

O Desconhecido

Essa semana passou no canal The History Channel uma série de programas na "Semana do Desconhecido". Muito me interessou um programa de duas horas exibido na segunda-feira basicamente sobre o livro "Eram os deuses astronautas" do escritor suíço Eric von Däniken. Nesse programa discutiu-se se existiu ajuda externa (extraterrestre) para que a humanidade construísse alguns monumentos que perduram até hoje, como as pirâmides, os desenhos nas rochas e plantações e outras construções, como na ilha da Páscoa. Intrigado com alguns temas, escrevi um email a um grande amigo para discutir alguns pontos.

Nesse programa, um dos assuntos que me chamou a atenção foi o que disseram sobre Enoque. Embora a história de Enoque tenha poucas linhas relatadas na Bíblia, e basicamente que ele foi viver com Deus que o arrebatou (veja bem, ele não morreu, mas Deus o capturou, arrebatou para si) Gn 5:24. E também em Hebreus confirma o ocorrido: "Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus." Hb 11:5. Segundo o programa, existe um livro apócrifo de Enoque dizendo que Deus então ensinou a ele a língua e a astronomia, e Enoque voltou a Terra para passar esse conhecimento ao homem, e uma de suas realizações foi ordenar a construção das pirâmides do Egito, em que o nome Enoque tem a mesma tradução do deus egípcio que ordenou a construção das mesmas. Ainda hoje as pirâmides causam espanto e uma infinidade de teorias sobre sua construção. Para os arqueólogos sérios elas foram construídas em 22 anos, mas para isso acontecer uma pedra deveria ser colocada a cada 9 segundos. Porém, tem um francês que teorizou sobre sua construção e sua teoria envolve trabalho humano mesmo, e muitos acreditam ser plausível sua tese. Mas ainda perdura o mistério do motivo para sua construção, o por quê de suas distâncias serem exatamente iguais a órbita dos planetas do sistema solar e por que será que os Maias construíram uma pirâmide mais ou menos na mesma época com exatamente a mesma área das pirâmides de Gizé? Como será que no sítio arqueológico de Tiwanaku na Bolívia possuem pedras que só são mais moles que o diamante, e apresentam cortes precisos, milimétricos, que só poderiam terem sido feitos com diamante e o uso de um torno?

Outro ponto abordado no programa foi a suposta "nave espacial" relatada por Ezequiel, no capítulo 1 do livro de Ezequiel, na Bíblia Sagrada. Diz assim:

"Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do norte, uma grande nuvem, com um fogo revolvendo-se nela, e um resplendor ao redor, e no meio dela havia uma coisa, como de cor de âmbar, que saía do meio do fogo." Ez 1:4

"E, quanto à semelhança dos seres viventes, o seu aspecto era como ardentes brasas de fogo, com uma aparência de lâmpadas; o fogo subia e descia por entre os seres viventes, e o fogo resplandecia, e do fogo saíam relâmpagos;" Ez 1:13

"O aspecto das rodas, e a obra delas, era como a cor de berilo; e as quatro tinham uma mesma semelhança; e o seu aspecto, e a sua obra, era como se estivera uma roda no meio de outra roda." Ez 1:16

Concordo também com meu amigo, que disse que a visão de Ezequiel não era precisa nem para ele, grifando os termos que envolviam "semelhança" e "era como" no texto. Aliás, gostaria de publicar suas respostas por completo, porém ainda não pedi sua autorização.

De qualquer forma é sabido tanto para cristãos quanto para cientistas que temos muito mistérios não respondidos. E se for tudo parte de uma coisa só? Como venho falando em alguns posts, será que tudo não faz parte da mesma coisa? Será a ciência e a religião não se complementam? Tenho minha fé na Bíblia, e respeito quem tem sua fé em outra coisa, como só na ciência, por exemplo (que é necessário muita fé, maior até que a fé em Deus). Acredito que a verdade será revelada em pouco tempo e todos saberemos os mistérios que tanto nos assola.

Ainda tenho alguns pensamentos. A humanidade está ficando mais cética. Constatei isso quando verifiquei a grande quantidade de ateus convictos amparados pela ciência, e assim colocando sua fé nela. A humanidade também está ficando mais espiritual. Constatei isso quando verifiquei a grande quantidade de religiões existentes, cultos, crenças, mandingas, superstições, "espiritualidade" e assim colocando sua fé nisso. A humanidade está ficando mais inteligente. Constatei isso quando vi a enorme quantidade de pesquisas científicas sendo publicadas, o genoma explorado, o conforto tecnológico e a informação disponível em todos os lugares a qualquer momento para qualquer um. A humanidade está ficando mais burra. Constatei isso quando vejo pessoas "googlando" para qualquer coisa e montam uma tese sobre um artigo de um blog de deus-sabe-quem, colhendo informações que não sabem a procedência e sua quantidade de verdade.

É, vamos esperar para ver.

sábado, 24 de julho de 2010

Estupidez

"Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações (...) Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão (...) Vamos comemorar como idiotas a cada fevereiro e feriado. Todos os mortos nas estradas e os mortos por falta de hospitais (...) Vamos celebrar os preconceitos, o voto dos analfabetos..."

Renato Russo dizia que escrevia letras com sentido amplo, não querendo significar algo muito específico, e fazer as pessoas pensarem, com frases que poderiam acomodar-se em determinada situação particular da vida de cada um. Acima, trechos da música "Perfeição" do CD "O Descobrimento do Brasil".

No final, a entonação muda, Renato Russo começa a cantar o oposto da ironia anterior:

"Venha! Meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa. Só a verdade me liberta. Chega de maldade e ilusão. Venha! O amor tem sempre a porta aberta. E vem chegando a primavera. Nosso futuro recomeça. Venha! Que o que vem é Perfeição!..."

Mudo para o livro (que terminei de ler recentemente) Out of the Silent Planet, de C. S. Lewis. Uma ficção científica de uma viagem a um planeta chamado Malacandra, e os seres que lá habitam, governados por Maleldil, Deus. Também o tema de ignorância da raça humana é discutido, e após algumas perguntas do motivo que agimos da maneira que agimos (no capítulo 20, já no fim, que me valeu a leitura), mesmo a questão feita para total descrente de qualquer forma de divindade, sendo este um cientista, a resposta final é um silêncio. O cientista diz "A vida é maior que qualquer sistema de moralidade. O que ela reivindica são absolutos. Não é por tabus tribais e máximas de livros copiados que ela persegue sua implacável marcha da ameba até o homem e do homem para a civilização." As perguntas então são feitas como: Com o que você se importa? Com o homem? Com a forma humana? Com a mente? Se fosse com o homem, não deveria você se importar com todo homem? Se fosse com a forma humana, essa forma não muda na evolução? Se fosse a mente, não deveria ser a mente de todos os homens, ou de toda a raça humana? Chegam então a uma conclusão que não é a criatura completa o objetivo do homem moderno, mas da semente da vida. Porém uma das coisas mais importantes para o homem é não temer a morte. Medo este que traz assassinato e rebelião. "If you were subjects of Maleldil you wold have peace" (Se vocês fossem subordinados de Meleldil [Deus] vocês teriam paz).

"Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio." Rm. 7:15

Ainda ontem li um trecho de Moby Dick:

"Quando os botes a circundaram mais de perto, toda a sua porção superior, grande parte da qual em geral fica submersa, estava bem visível. Seus olhos, ou melhor, os lugares onde antes estavam, podiam ser vistos. Do mesmo modo que substâncias estranhas crescem nos olhos dos nós dos carvalhos mais nobres, quando derrubados, assim também nos lugares onde os olhos da baleia haviam estado saíam bulbos cegos, uma comiseração horrível de ser vista. Mas não havia clemência. Apesar de toda a sua idade, apesar da sua única barbatana e dos seus olhos cegos, ela devia morrer aquela morte horrível, assassinada para iluminar as núpcias alegres e outras festividades dos homens, e também para iluminar as igrejas solenes que pregam que todos devem ser incondicionalmente inofensivos uns para os outros."
Moby Dick, Herman Melville, ed. Cosac Naify, Pág 381

Não comento mais nada. Só quero meditar um pouco nisso.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Malhação

Felipe Melo. Esse é o nome do nosso próximo Judas. Na copa passada foi Roberto Carlos e suas meias. Agora temos um mais novo boi de piranha. Não vamos cobrar o Dunga, nem o Kaká nem mais nenhum outro jogador. Inclusive o Dunga está com crédito por ter “brigado” com a Rede Globo e já circulou um email tornando-o rei.

E por que o futebol é tão importante para nós, brasileiros?

Para responder a essa pergunta volto à história. Um poeta romano chamado Juvenal (100 D.C.) criou uma expressão em seu poema Sátira para designar o tipo de política empregada pelo imperador Gaius Sempronius Gracchus (154 A.C. –121 A.C.) que virou moda e foi conhecida como panem et circenses, do latim, pão e circo. Consistia em manter a população feliz fazendo torneios de gladiadores nos quais eram feitos distribuição comida de graça. O povo, então feliz e de barriga cheia, abria mão de uma rebelião nos centros urbanos caóticos e escravizados. A proposta foi tão boa que passou a ser usada por governos opressores, onde o líder político passa a impressão de boa gente dando uma esmola enquanto enche os bolsos do dinheiro público. Bem, não preciso explicar mais nada se olhamos para nosso país. E quem é que compra todos os campeonatos de futebol para transmissões televisivas? Qual emissora detém a maioria do ibope televisivo brasileiro? Quem colocou e tirou presidente? Qual a influência dessa emissora na cabeça do povo, manipulado, que só sabe falar sobre novela, programa de reality show e fica satisfeitíssimo com o “Bolsa Família”? É muita teoria da conspiração para sua cabeça? Para a minha não é.

O futebol é incutido em nós, desde que nascemos, e aprendemos a gostar disso, fazendo uma quase religião com nosso time adorado. Não vejo mal em gostar de futebol, não quero passar essa impressão, mas vejo muito mal em pensar só em futebol. E como disse Platão, “O preço que os homens bons pagam pela indiferença aos assuntos públicos é ser governado por homens maus”. Na copa o país pára e isso é um grande exemplo de quão ligados estamos nesse esporte. Países desenvolvidos também gostam de futebol, como a Inglaterra, por exemplo, porém o povo sai às ruas para protestar contra aquilo que não concordam, fazendo sua parte em um negócio completamente desconhecido para nós chamado cidadania.

Enquanto não cai dos céus o país do futuro, ficamos aqui malhando nosso próximo Judas. Bem, eu já o malhei, e você?

sábado, 26 de junho de 2010

A busca pela Lógica

Possuímos um desejo perene que é a busca pela verdade. Normalmente não nos satisfazemos com algumas coisas e mesmo pequenos, na escola, refutamos ideias como: Por que tenho que ir para a escola? Por que preciso aprender Matemática? E assim por diante. Questionamos, ouvimos as respostas que nos são dadas, acreditamos ou não, nos conformamos ou não, e seguimos adiante, em busca do próximo passo, ou próximo nível. Mas, para Bertrand Russell a coisa não foi bem assim. Desde pequeno, ele era um menino curioso, que questionava as ordens de sua avó e se tornou posteriormente um grande filósofo matemático. No gibi chamado Logicomix nos é apresentado a vida de Bertrand Russell contada por dois filósofos gregos chamados Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou. Sem dúvida nenhuma esse trabalho, além de muito interessante, é uma obra de arte. Utilizar o gibi para discorrer sobre um assunto indigesto que é a matemática, especialmente a lógica, e a vida de um matemático poderia matar qualquer um de tédio, mas não é o que acontece nesse caso. O livro-gibi é extremamente divertido, e muito intrigante. Confesso que não conhecia a obra de Russell, e fiquei espantado com a angústia desse homem que queria a todo custo questionar os axiomas matemáticos mais básicos, como Euclides por exemplo, e iniciou uma obra para provar a fundação lógica de toda a matemática.

O que chamou a atenção do mundo e tirou Russell do anonimato foi seu paradoxo, conhecido como paradoxo de Russell que prova, por meio de um questionamento, que a teoria dos conjuntos de Georg Cantor e Gottlob Frenge é contraditória. Poderia um conjunto de todos os conjuntos os quais não contém a si próprios conter ele mesmo? Se sim, então não pode. Se não, então pode. [1] Isso gera um paradoxo, como o paradoxo do barbeiro, de Kurt Godel e o paradoxo da enciclopédia. Seria como disse Euboulides: "Caros cidadãos, estou agora mentindo para vocês." Se ele está dizendo a verdade, então está mentindo. Se está mentindo, então está dizendo a verdade.

Uma das coisas que me chamaram a atenção na obra é que Russell foi procurar Cantor para lhe questionar sobre a teoria dos conjuntos e encontrou Georg Cantor numa espécie de hospital psiquiátrico, pois não estava em seu pleno juízo. Quando Russell ao questioná-lo, viu que ele começou a falar coisas estranhas, sem muito sentido e soltou em uma de suas frases: "Jesus Cristo era na verdade filho de... José de Arimatéia!" [2]. Nos quadros seguintes mostra Russell abandonando o hospital, ainda abalado com o estado do matemático, mas a frase ficou na minha cabeça. Mais a frente, quando é publicado o paradoxo de Russell, uma enfermeia estava lendo-o para Georg Cantor, que explodiu num grito e chacoalhando a funcionária do hospital pelos ombros disse: "Finalmente sou um homem livre! Você não entende? O inglês provou que o 'Conjunto de todos os conjuntos' é uma impossibilidade! Meu monstro, o usurpador da grandeza absoluta de Deus não existe mais! Eu estou salvo..." [3] Interessante isso, não? O que gerava angústia naquele homem era pensar ter criado algo que iria contra a onipotência de Deus, e viu-se livre quando finalmente compreendeu o desfecho daquilo. Imediatamente pensei em alguns que questionam Deus se perguntando por que então Deus então não cria uma pedra que ele mesmo não consegue levantar?

Russell coloca então uma frase, que também fiquei pensando: "Dada uma certa quantia de irracionalidade, alguns podem ler religião até mesmo na lógica." [4] Apesar de seu ostracismo de uma vida religiosa, vê-se que preconceitos permeiam a mente de Russell, bem justificados com o que viveu da ignorância de sua família, e o que acontece com a maioria dos cientistas, que tentam afastar a ciência de Deus e Deus da ciência, e não percebem que tudo só faz sentido se colocados no mesmo plano.

Para finalizar, após ter terminado o volume dois de seu trabalho entitulado “The Foundations of Arithmetic”, Gottlob colocou um adendo no final, pois dobrou-se à publicação da obra, mesmo que abalada em suas fundações. O adendo diz que “Dificilmente alguma coisa mais infortúnia pode suceder para um escritor científico do que ter uma das fundações de seu edifício abalado após o trabalho estar terminado” e cita o trabalho de Bertrand Russell, que obteve o colapso de uma de suas leis. Colocar isso em seu livro foi um verdadeiro ato de honestidade intelectual, elogiado pelo próprio Russell em seu discurso de 4 de setembro de 1939, três dias após Hitler invadir a Polônia em seu Blitzkrieg.

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[1] - “Does the set of all sets which do not contain themselves contain itseft? If it does, then it doesn’t. And if it doesn’t, then it does!”

[2] - "Jesus Christ was in reality the son of… Joseph of Arimathea!"

[3] - “I’m a free man at last! Don’t you understand? The Englishman proved the ‘Set of all sets’ is an impossibility! My monster, the usurper of God’s Absolute Greatness thus no longer exists! I’m saved...”

[4] - “Given the right amount of irrationality, one can read religion even in Logic”

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bom Gosto

Estava lendo um artigo na revista Filosofia da editora Escala chamado “O Gosto dos Outros”, de Flávio Paranhos, o qual ele cita um filme que gosto muito chamado Sideways, e fala do bom gosto. Não só o bom gosto mas a mudança de gosto com a mudança de contexto. Logo me lembro de ter ficado horrorizado com um colega de trabalho ter comentado que não gostou do filme “O Livro de Eli”. Gosto é gosto, claro. Mas como pode não ter gostado desse filme? É aí que comecei a pensar no assunto. Nesse artigo da revista, Paranhos pergunta: “O que é o gosto? É possível gostar de algo ‘objetivamente’?”. Daí uma dúvida quanto à importância de uma crítica literária, de cinema, de vinho, etc. O que vale nesse aspecto é o gosto do cidadão e o que aquilo o remeteu no íntimo. E esse gosto muda, de acordo com o contexto. Um exemplo disso é pegar algum material ruim de seu autor preferido e lê-lo sem saber de quem se trata. Provavelmente você achará ruim, mas se souber que se trata do seu autor preferido, certamente olhará com outros olhos e sua crítica muda a partir daí. Gostei do filme “Cloverfield” porque é do J. J. Abrams, o qual gosto, mas pode ser que se o assistisse não sabendo disso acharia uma cópia barata de “A Bruxa de Blair”, por usar a mesma fórmula. Concordo com o artigo da revista que diz que somos todos arbitrários em nossas condenações e exaltações.

O problema disso tudo é a arrogância. Não gosto de Machado de Assis, embora seja leitor. Quando comento isso (que, aliás, evito), os que lêem clássicos me olham com total e mais absoluto desprezo. Como se fosse uma heresia monstro falar uma coisas dessas. Claro, para ele é, para mim não. Lembro-me de um amigo que toda vez que nos encontramos comenta do filme “O Cheiro do Ralo”, o qual, inocentemente, lhe recomendei e dei motivos para uma eterna brincadeira que sempre é feita quando digo que algo é bom. Ele odiou o filme, e eu gostei muito, e poderia dar uma centena de argumentos e não mudaria sua perspectiva ou opinião. “É ruim e ponto”, ele me disse. Por que será que gostei então? Fazemos parte de um grupo de amigos com mais ou menos a mesma estrutura cultural. Isso me fez pensar ainda mais no por quê de ter gostado daquele filme. Realmente é um filme diferente. Talvez por isso mesmo, por não esperar um final feliz ou uma obviedade que me fez gostar. Um outro amigo só gosta de filmes que tenham final feliz. Tem que dar tudo certo para ser bom. Eu já penso diferente. Se der tudo exatamente como planejado, qual o sentido de ficar até o fim assistindo? Se já sei como termina, para que perder todo esse tempo? Não que isso seja regra, pois gostei muito de “O Senhor dos Anéis”, mas foi por outros motivos e não especificamente o final.

E também pensei em outra coisa: Vale a pena ler uma crítica de um filme antes de assisti-lo? Você deixaria de comprar um jogo de vídeo game após as críticas ruins? Muitas pessoas, incluindo eu, são influenciadas pelo gosto dos outros. A crítica nada mais é que uma tentativa de racionalizar um gosto subjetivo. E assim como Paranhos descreve no artigo “Primeiro gostamos, depois racionalizamos. Primeiro subjetivamos, depois objetivamos. Primeiro inconscientes, depois conscientes.”. Só sei de uma coisa: Evito ao máximo indicar alguma coisa. Se o faço é porque alguém me pergunta diretamente. Não temos capacidade de entender o tipo de gosto de cada um e acertar todas as vezes. Chegamos perto, mas as vezes que erramos escutamos eternamente.

sábado, 15 de maio de 2010

Fast-thinking

Filosofando mais um pouco a respeito de Arthur C. Clarke e sua obra, comentei com alguns amigos sobre “Encontro com Rama” que disse não ter gostado em um dos meus posts. Ainda continuo não gostando, porém não tiro o mérito do autor. O estilo de Clarke é do tipo “deixa a vida me levar”, e pouca explicação é proposital por parte dele. Clarke, a meu ver, necessita fazer você pensar sobre o que ele propôs e não significa que você deva pensar necessariamente o que ele pensa. Após "Encontro com Rama" assisti novamente a “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick + Clarke. Lembro-me de ter gostado parcialmente do filme, e, depois que ouvi algumas opiniões, revi o filme com outro conceito. É inegável que o filme é bom, porém não é um filme normal, covenhamos. Não é um filme como a maioria dos filmes são produzidos, com uma história linear, amarrada e devidamente explicada no final. No filme, o que importa é a sua interpretação para o que é apresentado, e não há uma resposta definitiva, mas um conjunto de imagens que compõem um pensamento do que possa ter acontecido.

O estilo de Clarke, segundo ouvi, não é o de pegar na sua mão e te levar aonde ele quer chegar, mas te indicar um (possível) caminho e você o caminha sozinho. Diferente de Asimov, o qual prefiro, Clarke não impõe um desfecho, mas sugere um princípio. Não deixa de ser muito interessante, e acredito que fui precipitado em escrever o post antes de pensar mais a respeito.

Gosto de conhecer o propósito do autor quando escreveu determinado texto, e um excelente post sobre a falácia intencional pode ser encontrado aqui. Esta mesma falácia intencional acabou me ajudando a entender os motivos de Clarke sobre “Encontro com Rama”. Comecei então a pensar nos motivos que me levaram a não gostar desse livro.

Tratei de analisar o mundo atual, a sociedade em que vivemos e nossas necessidades modernas e como fui influenciado por elas. No mundo apressado, procuramos facilidades. Não estamos querendo pensar, demorar, analisar, ou filosofar. Queremos que acabe logo para consumir o próximo. Interessante isso. Os filmes ficam mais óbvios, os jogos de video game mais curtos, os livros mais finos, e os pensamentos mais guiados. Não consigo pensar no Clarke escrevendo um livro para ganhar dinheiro somente e escrever o próximo na sequência, mas consigo facilmente pensar isso do Dan Brown, que sempre escreve um livro/roteiro de filme. Não que seja ruim, inclusive gostei muito de “O Símbolo Perdido”, mas caminhamos para o "já pronto". Desde comida para microondas até livros. Você já percebeu quantos livros de auto-ajuda existem nas prateleiras das livrarias? Acho que já comentei isso antes, mas a cada vez que entro em alguma livraria me assusta um pouco a enorme pilha de livros querendo te dar algum conselho importantíssimo que vai mudar sua vida. A sociedade hoje está caminhando para uma total submissão das opiniões de quem fez algo importante, sem prestar atenção se aquilo é bom, se é relevante, se faz sentido para si, se contradiz algum princípio, se é verdadeiro, etc. Hoje mesmo estava falando com um amigo sobre os motivos em que as pessoas acreditam em qualquer coisa e desacreditam em uma base de onde aquilo partiu. Como já falei anteriormente, A Bíblia para mim faz sentido, ao contrário da sorte incrível do nada ter criado tudo, e faz sentido a cada vez que a estudo, a cada descoberta da ciência, a cada análise. No livro “Milagres” de C. S. Lewis (autor de Crônicas de Narnia), existe um pensamento sobre o raciocínio lógico que não se sustenta. Muito interessante, mas vejo que poucos se interessam em uma segunda opinião daquilo que tomam como certo. Percebo que hoje, as pessoas se enfurecem quando tocadas com assuntos que desmontam sua linha de raciocínio ou opiniões formadas. Depois do fast-food, estamos tendo o fast-thinking. Não analisamos, só acreditamos. Se não está no Google, não existe. Desdenhamos de tudo que não entendemos.

Vou tentar mudar minhas análises literárias, mas sigo preferindo Asimov.