segunda-feira, 23 de abril de 2012

Cortando o cabelo

Esse final de semana fui cortar o cabelo e vi o quanto mudou esse serviço desde quando era criança. Antigamente, cortava o cabelo na barbearia do Seu José, que era um senhor que não falava muito. Na verdade eu sempre achei que ele era mudo, pois só acenava com a cabeça e sorria. Inventei também o nome Seu José, pois seu José nunca me disse seu nome. Como era criança, não tinha muita conversa mesmo para ser dita, pois o que diria ao Seu José além de bom dia? Bem, entendia que não tinha muita conversa mesmo. Entretanto uma coisa que gostava muito da barbearia do dele era a velocidade do serviço. Em apenas 10 minutos meu cabelo estava cortado. Era como se eu fosse até a banca de jornal comprar o novo número do gibi do Batman e no meio do caminho cortava o cabelo. Simples, rápido e barato. Não precisava marcar. Era chegar e cortar (pois era rápido para todos).

Hoje em dia isso mudou e cortar cabelo tornou-se um evento. O Seu José morreu (acredito eu, pois já tinha uns 90 anos quando eu tinha 10 e o homem mais velho do mundo tem 115 anos e não é o Seu José). Pra começar, não temos mais barbearias em São Paulo. Agora só temos salões chiques ou salões que querem ser chiques mas não são. E os dois tipos que existem são ruins pelos motivos abaixo:

Salão de pobre não chique:

  1. Você marca com a Joseclaynette por telefone e quando chega não tem nada marcado. A Joseclaynette tinha sido despedida aquele dia e esqueceu de marcar seu corte. Foi um barraco a despedida dela, menino! Falou um monte para o patrão e ameaçou matar todo mundo com uma tesoura enferrujada, acredita?
  2. É uma sujeira dos infernos o salão. Não tem baratas porque elas foram embora de tanta sujeira. São baratas sim, mas ainda sobra um pouco de dignidade.
  3. Se o sofá que você senta na espera tiver menos que quatrocentos furos ou rasgos você deu sorte. Fora o fato que você fica entalado no sofá quebrado e precisa de um abdome do Michael Phelps para sair de lá.
  4. Tem um monte de gente gritando e gritando falando sobre a vida dos outros. Muitas vezes tem crianças correndo, ranhentas, berrando (aprendem desde cedo) pelo salão
  5. Tem sempre um gato magro te roçando ou um cachorro pulguento desanimado num canto.
  6. O shapoo que usam é uma espécie de Dolly dos shampoos. O cheiro é inacreditavelmente irritante.
  7. O cabeleireiro faz força para ser bicha, e fica fazendo caras e bocas para uma outra funcionária, pensando que você não está notando, sobre a manicure ao lado fazendo a maior caca na unha da patroa
  8. Não aceita cartão, e se aceita ninguém sabe mexer na “maquininha”
  9. A conversa é sobre big brother, novela, futebol ou sobre a Brigitteliete que saiu do salão e foi ganhar bem mais como no jogo do bicho da banca da esquina. Comprou até um carro parcelado em 60 vezes e está grávida de novo.
  10. A espera é relativamente rápida, mas é tortuosa devido ao sofá, ao cheiro do Dolly Shampoo, a gritaria dos infernos e as revistas. A revista mais nova tinha na capa Tancredo Neves e a Wilza Carla magra.

Salão chique:

  1. Desnecessariamente caro.
  2. Você espera no mínimo uma hora e meia antes de ser atendido. Com cafézinho, água mineral com gás, num sofá limpo, ok. Mas espera.
  3. Para cada cabeleireiro(a) existem dois auxiliares que acabam atrapalhando mais que ajudando, pois normalmente o cabeleireiro está treinando um deles (na sua vez).
  4. Nunca imaginei que lavar um cabelo levasse tanto tempo. Após 4 shapoos e 3 condicionadores, ainda tem a massagem (que odeio) na cabeça (!) e dura uma meia hora (parece que leva uma vida). Inacreditável.
  5. Te enchem a orelha de sabão, você fica temporariamente surdo, porém a menina quer conversar. Após o quarto “ã?” que você fala (pois está surdo), ela desiste.
  6. Demora muito, muito, muito tempo para cortar a porcaria do cabelo. Claro, tem que justificar o primeiro ponto.
  7. A conversa é sobre big brother, novela, futebol ou sobre a Paty que voltou de Paris e trouxe um lenço bonito para a Fulanette e não trouxe a encomenda que o cabeleireiro pediu. Ele está sentido demais com isso. Não gostou de não terem trazido o amplificador valvulado que ele pediu.
  8. Tem sempre uma mulher horrível do seu lado arrumando a cabeleira (com um laquê) e achando que está abafando, mexendo no iPhone 4S branco que ela acabou de comprar.
  9. Todos são muito ricos, tem iates, casa em Malibu, oito carros na garagem e viajaram o mundo inteiro. Pelo menos é o que se ouve.
  10. A falsidade é quase como tomar um café. Ninguém se incomoda em descer o sarrafo nas amigas mais íntimas ou esculachar o novo namorado da Silvânia.

Depois desses pontos desanimadores, torço ainda por encontrar uma barbearia. Vazia, com um senhor lendo o Jornal da Tarde e o barbeiro fazendo rapidamente seu serviço e cobrando o preço justo por ele. Ah, que saudade do Seu José...


sexta-feira, 16 de março de 2012

Elevadores

Não sei se você tem o mesmo desconforto em pegar o elevador com outras pessoas como eu tenho. Primeiro que começo já no hall, lendo aquela infame placa “Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado no andar”. Quem será esse "Mesmo", meu Deus? Será um psicopata que fica aí parado no andar, te olhando? Bem, além da escrita equivocada do uso de "o mesmo" em substituição de um pronome [1], pegar o elevador é ainda mais estranho.

Não sei se é comum em outros locais, mas aqui em São Paulo ninguém cumprimenta ninguém, e normalmente pela manhã quando você ouve um "Bom Dia" no elevador já começa a rezar para não ter que responder à perguntas do tipo “será que vai chover?” ou “você viu o trânsito hoje?”. Não sei qual o intuito de tal conversa mole logo cedo, já que é óbvio que vai chover com esse céu preto e calor dos infernos e é mais óbvio o trânsito de hoje, já que a gente mora em Sampa, e até no parquinho tem trânsito no carrinho de bate-bate. Aliás, boletim de trânsito aqui é uma piada. Nunca ouvi a pessoa dando uma notícia boa, que em algum lugar está fluindo bem. Nunca. Boletim de trânsito aqui é mais inútil que o anjo da guarda dos Kennedy, porém algumas rádios ainda insistem. Após o “Bom Dia” e graças a Deus sem conversa mole, fico esperando meu andar chegar, com aquela cara de ursinho, meio-sorriso e olhar fixo, tentando disfarçar o fato que tem sempre um te encarando.

Quando estava trabalhando na empresa anterior, ficávamos no sexto andar, e havia uma empresa que alugou os andares dois, três e quatro. Era um tédio pegar o elevador. Toda vez que você chamava um dos seis elevadores, ele parava invariavelmente em todos os andares que a empresa tinha alugado. Ou era para a pessoa subir do segundo até o terceiro, ou o que é pior: descer um único andar. Não vou confirmar aqui o que ouvia “não é à toa que é gordo”, porque provavelmente vão me acusar de preconceito também, e não tenho nada contra o peso da pessoa. Mas era tudo gordo mesmo. Pronto. Falei.

Elevadores são muitas vezes confundidos com coração de mãe. Abre a porta, tem sempre uma tia perfumada (de manhã) que fala “ah, cabe mais um né?” Lógico que não cabe. Espera a porcaria do próximo elevador. Tá todo mundo se esbarrando aqui nessa joça metálica, será que você não está vendo? Agora uma coisa muito estranha mesmo é quando a pessoa entra (mesmo cheio) e puxa um desses assuntos para querer saber da sua vida, e quando chega o andar dela,  esta continua com a conversa mole, contando de um primo que foi mordido por um escorpião rei em Pindamonhangaba, e fica segurando a porta, terminando a conversa chata e desnecessária. O pessoal te olhando feio, achando que você conhece a tia (que nunca viu mais gorda, opa, falei de novo), e a tia que não se manca. Gente, 1) Não quero saber do seu primo; 2) Não te conheço; 3) Não me importo. Solta a porcaria da porta!

No prédio em que moro tem um tiozinho mais chato que pisar na merda descalço. Todo santo dia que o encontro ele faz as mesmas perguntas, querendo investigar minha vida, onde trabalho, que horas que entro e saio, de onde eu sou, etc. Além do saco de responder às mesmas perguntas, que a cada dia respondo uma coisa diferente pra variar um pouco, ele ainda entra com um cachorro que fica latindo sem parar. Sério, para chegar até o décimo andar parece que leva um mês. E sempre dou a sorte de pegar elevador com ele quando chego cansado do trabalho (e de ônibus).

Hoje em dia os elevadores possuem um monitor que passam notícias, embora normalmente inúteis mas tudo bem, porém a coisa só piorou. Além dos comentários de “será que vai chover”, ainda temos que sorrir para os comentários “Você viu que a Val falou que num homem a gente olha para o relógio e para o sapato?”. É muito desanimador.



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[1] Não é errado a frase acima “do mesmo”, porém é ridícula. Só tome cuidado com o preconceito linguístico. Dêxa o povo falá do jeito qui gostcha, oxe.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

No Banheiro



É no banheiro que a verdadeira personalidade da pessoa aflora. Lá é onde manifesta-se o lado negro da força. Infelizmente o assunto é um tanto incômodo, e muitos preferem mudar de assunto, mas é inegável que todos temos que enfrentar um banheiro. E a coragem vem daqueles que conseguem enfrentar um banheiro de uma empresa. Trabalhei em empresas com pessoas mais gabaritadas que já conheci, mas uma coisa é certa: No banheiro não tem bonzinho. 

A tarefa era para ser simples, em quatro passos básicos: sentar, fazer, limpar, dar descarga. Mas parece que a cada vez que entro em uma "casinha", essa regra é de longe quebrada. O quarto passo, dar a descarga, parece ser o mais complexo. Diversas vezes a gente entra e tá lá o monstro te encarando. Tem uns que jogam papel junto com a coisa, e fica parecendo uma noiva macabra. Quando a tampa está fechada, eu não abro. Já conheço a surpresa. 

Hoje me deparei com uma situação que me fez pensar: "como ele fez?". O cesto de lixo estava com o papel de cima totalmente sujo. Tipo, sujo mesmo. Como o cesto é uma pilha do tipo LIFO (last in, first out), ou seja, o último que entra é o primeiro a sair, isso pode significar três coisas: 
a) A pessoa terminou de se limpar e guardou o resto do papel limpo no bolso; b) A pessoa jogou o resto do papel no vaso e deu descarga ou 
c) A pessoa não terminou o passo "limpar-se". Tem noção de como saiu do banheiro? Todo cagadinho! Como pode? 

Certa vez em uma das empresas que trabalhei, foi encontrado uma fivela de cinto no vaso, e a tampa estava quebrada. Montamos a teoria que a criatura se voltou contra seu mestre e não queria partir. Este, desesperado, dava cintadas na coisa e se defendia com a tampa, como um escudo improvisado. Infelizmente não temos uma teoria mais plausível. 

E parece que quanto mais top a empresa é, mais demoníaco é o banheiro. Além do cheiro de velório de bode que sai dali, a sujeira é de desanimar. Pior mesmo é quando você está sentado, em uma das casinhas, e chega alguém na casinha imediatamente ao lado da sua, e descarrega toda aquela amargura que a vida lhe impôs. Vai subindo a fumaça maligna para seu lado, e você ali, desesperado para ir embora, e justo nesse dia seu parto de jegue vai ter que sair de cesárea. Desespero. Horror. Chame do que quiser. O cheiro é tamanho que desmancha até seu cabelo. 

E ainda tem as situações constrangedoras. Exemplo: tarde da noite e você ainda na empresa. Sua barriga começa a dar sinais que o urubú está beliscando a cueca. É a hora do parto. Você vai até o banheiro, que não tem uma viva alma e começa o serviço. Eis que de repente surge um maldito, entra no banheiro, faz um xixi rápido, sai e apaga a luz! Pronto! E agora? Você se lembra do seu celular e também lembra-se da promessa de nunca mais deixá-lo na sua mesa. O calafrio percorre seu corpo. Não teve coragem de gritar na hora "Ô meu, tô cagando!". Somente seu olfato será seu guia espiritual nessa jornada de fé para saber quando a coisa estará limpa de fato. Vai ter que ficar cheirando o papel, não tem outro jeito. 

Teve empresas por onde passei que alguns tinham o ânus fora de centro. A sujeira estava nas paredes laterais! Ou não deu tempo do indivíduo sentar completamente, e foi de pé mesmo. Uma explosão nuclear fecal bilateral. 

É, eu sei que o assunto é deveras incômodo, mas queria deixar aqui um pedido de pelamordedeus, faça a coisa direito. Siga os quatro passos direitinho, e lembre-se que você que emporcalha o vaso pode se deparar com ele emporcalhado também. E isso é uma merda.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Calor

"Que delícia, chegou o verão! Sol! Ah, que calor gostoso!". Quando leio isso no Facebook minha vontade é entrar pelo fio da internet e esfaquear a pessoa na jugular. Tudo bem, claro que gosto é gosto, mas tudo tem um limite! Como pode alguém poder gostar de ficar todo melado o dia inteiro, nesse inferno de quase quarenta graus? No frio ainda tem solução, você coloca blusa, mas e no calor? Faz o que? E nem me venha com a conversa mole que vai para a praia, porque paulista até para ir para a praia paga promessa. É fila no pedágio, chegando lá não tem água para tomar banho, a praia tá mais cheia que umbigo de gordo no calor e sem contar que você pega um trânsito tão absurdo pra voltar que sua perna esquerda perde a sensibilidade de tanto trocar a marcha do carro subindo a serra.

Uma coisa também horrorosa no calor é trabalhar. Não sei o que acontece, mas nenhuma empresa que trabalhei consegue deixar o ar na temperatura adequada. Ou está menos trinta ou mais quarenta. Ambos os casos são problemáticos. No caso do menos trinta, quando você sai para o almoço sofre aquela pasteurização e quase morre com o bafo quente da rua. E no caso do calor, bem, nem precisa dizer. O suador é um terror, principalmente assistir alguém suando, fazendo aquela pizza de quatro queijos embaixo do braço. Ainda por cima a pessoa suando fica falando na sua orelha que tá "soando" muito... Você não é sino, maldito. Esses dias a minha área estava uns 40 graus. Chamaram o pessoal da manutenção para arrumar o ar condicionado. Foram lá, deram uma olhada e sumiram. Quando perguntamos o por quê que não arrumaram me disseram que o pessoal da manutenção foi embora porque estava muito calor ali.

E pra dormir é ainda melhor, né? Vou ver se compro uma cama com Teflon, pois pelo menos assim eu frito, mas não grudo. Dormir é sempre um pesadelo nesses dias em que somos treinees do inferno. No frio você se aconchega, coloca aquele cobertor gostoso e dorme tranquilamente. No calor a gente fica virando que nem croquete de boteco, passando mal, tentando revezar a dobrinha da vez que vai suar.

Semana passada fui almoçar em um restaurante que tinha nas cadeiras um assento revestido de couro. Estava ao ar livre, sem ar condicionado. Aquilo era praticamente um aparelho de cauterização de hemorróidas. Devia estar uns noventa graus naquele assento. Suava que fazia até poça na meia. Que coisa mais desagradável.  A cueca então, nem se fala. Já tinha se enrolado toda e se transformou em uniforme de sumô.  Tudo é ruim no calor, pois nem a praia dá para aproveitar direito. Como diria um amigo meu, por mim eu faria uma insulfilmosfera para conter esse sol.

Mas existe a máxima que diz que sempre pode piorar. Pega um ônibus com esse calor, pega?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A arte de pegar um ônibus

Sua vida anda monótona? Você tem tendências suicidas? Está procurando alguma forma de aventura barata ou exercício físico forçado? Tenho aqui minha sugestão: Pegue um ônibus! Diariamente tenho que pegar um maldito bumba (my ox) do trabalho para casa (na ida tenho carona) e vou te contar que não é uma experiência agradável. Aliás, se tomarmos pela palavra "experiência", podemos tranquilamente dizer que aquilo é uma experiência para ver até onde vai a força do brasileiro.

Tudo começa no ponto de ônibus. Além da quantidade de gente que tem no ponto no horário de pico (em São Paulo horário de pico é das 4h da manhã até a meia noite), ainda temos os vendedores de qualquer coisa que possa ser pirateada que você possa imaginar. Além das marcas duvidosas, como SONYA, Tênis Mike, Fuma, Ardidas, Pop Station, Nokla, etc, ainda temos o famoso (e não tão bom) churrasquinho de carne (de felino), que solta uma fumaça dos infernos na sua cara (além da fumaça do tio do milho cozido). Esses camaradas ambulantes não deixam espaço para ninguém ficar no ponto, especialmente aos que desejam somente passar de uma ponta à outra da calçada. O pessoal se espreme e ainda reza para não chover, porque aí a diversão dos motoristas é escolher aquela poça de água para molhar os infelizes.  Depois daquela meia hora (mínima) costumeira, você resolve que estar num ônibus, mesmo que lotado, é melhor que ficar ali, certo? Ledo engano. 

Dentro do ônibus podemos conhecer a pior espécie de gente que existe. Temos os camaradas do funk no celular (também conhecidos como FDP), temos as senhoras (e senhores) com sacolas, temos os bafudos e fedidos e temos um pessoal que até hoje não entendo: Os tarados por porta. O ônibus que pego chama-se Termina Qualquer Coisa. Ele vai parar no Terminal Qualquer Coisa. É sabido disso, porque o camarada pega aquela joça todos os dias e desce no Terminal. Mas ele entra e para onde? Normalmente esse camarada está munido de uma sacola tamanho bunda-carla-perez. Eu acho que deve ser algum distúrbio, do tipo meencoxafobia, ou alguma coisa do gênero. Imagine que você tem que descer antes do Terminal Qualquer Coisa. Já é um parto o motorista filho de primos parar no ponto. Tudo depende do humor do condutor, que àquela altura está mais raro que uma papisa lésbica. Quando a porta abre, o cara da porta não alivia não. É do tipo, vou levar todo mundo comigo pro inferno. Você simplesmente tem que dar um mergulho (um mosh) por cima da sacola, por cima dos demônios tranca-porta, e cai dentro de uma churrasqueira do próximo ponto. Andar na brasa é coisa monótona pra mim. Nem preciso de santo daime nem nada.

Mas voltando à aventura dentro do ônibus, pois ainda não acabou, temos uma espécie também bem peculiar: As conversadoras contralto. São aquelas mulheres que gostam de falar sobre o dia, ou sobre o marido, ou sobre o patrão, só que uma fica na porta da frente e a outra na porta de trás, e óbvio que aquela que fala mais alto é a fêmea-alfa, por isso há uma disputa acirrada. Sua orelha fica no meio disso tudo, e aliado ao calor, ao fedor, ao encoxa, e ao pessoal carente, temos a visão dos quintos dos infernos. O pessoal carente é um pessoal que usa aquele desodorante mais forte que a química consegue combinar, e fica se roçando em você. Normalmente são mulheres feias (muito feias), pra piorar. Um dia desses olhei feio para uma que estava me empurrando mas perdi. Ela era muito mais feia. A arcada superior só tinha o Cafú, e a inferior não consegui ver, pois virei minha cabeça tão forte para o outro lado que arrebentei a testa no ferro do ônibus. Imagino que a arcada inferior também era só desgraça, mas a julgar pela arcada superior foi mais que suficiente a desejar arrancar meus olhos. 

E passar na catraca então? Tem infeliz que coloca o bilhete único no meio de uma carteira do tamanho de um X-tudo com salada, e é meio que óbvio que não vai funcionar o dispositivo da catraca. Aí a pessoa calmamente procura o bilhete dentro daquele cuscuz de papel e você ali esperando, desajeitado porque já tinha dado o passo sem chão (aquele passo que quando você levanta o pé já não tem mais chão para colocá-lo de volta, pois já tomaram seu espaço).

Enfim, andar de ônibus aqui em São Paulo é uma tarefa hercúlea que não desejo para ninguém. Infelizmente sabemos que isso vai continuar por muito mais tempo, porque ninguém reclama como deveria, e só se preocupam com o BBB e a Luiza que está no Canadá (mas será que já voltou?).



quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Modernidade


O oitavo jogo da série Call of Duty, chamado Modern Warfare 3, lucrou 400 milhões de dólares nas primeiras 24 horas de venda, e a Activision anunciou que o jogo faturou 1 bilhão de dólares, em 16 dias, passando até o filme Avatar, de James Cameron, que fez um bilhão em 17 dias. A série Call of Duty já faturou 4 bilhões de dólares desde 2003. A indústria do cinema faturou em 2010 84 bilhões de dólares, e a indústria dos jogos fez nesse mesmo período 56 bilhões. A projeção para a indústria do cinema é um crescimento de 6,1% até 2015 e a do mundo dos games é de 8,2% para esse mesmo período.

Cocooning é um termo cunhado por Faith Popcorn em 1990 e relaciona a tendência de indivíduos se socializando menos e ficando mais em casa. Num dos livros de Chuck Palahniuk (de Clube da Luta) chamado “Haunted”, é citado o cocooning (chamado no livro de “Slumming”) como uma doença da sociedade moderna, parecido em partes com o Hikikomori, um termo japonês que significa “retraimento social agudo”, referente ao fenômeno de jovens que escolhem se retirar da vida social, geralmente buscando altos níveis de isolamento e confinamento devido a vários fatores pessoais e sociais em suas vidas. Esse problema social ficou mais evidente no Japão no final do século vinte em que indivíduos (sem maiores problemas aparentes) escolhiam se recolher em casa por um período maior que seis meses.

Um recente documentário produzido por Cosima Dannoritzer em 2010 chamado The Light Bulb Conspiracy (a conspiração da lâmpada), que está disponível de graça no YouTube nesse link, mostra um conceito antigo mas que movimenta a sociedade moderna atual: A Obsolescência Programada. Esse termo significa que a indústria produz produtos com data programada para quebrar, ou seja, sua durabilidade é meticulosamente planejada para que o consumidor compre outro produto após determinado tempo. Isso pode ser feito de duas maneiras: 

A primeira é realmente inserir algo no produto que após um certo tempo ou um certo número de vezes que em foi usado o dispositivo pare de funcionar, como o exemplo das impressoras e lâmpadas, ou então fazendo algo mais sutil e inteligente: Lançar produtos mais novos e induzir o consumidor a querer trocar seu produto ainda em funcionamento para um modelo mais moderno. Essa técnica foi popularizada por Brooks Stevens em 1950, nos Estados Unidos, e desde então vem sendo aplicada em todos os bens de consumo. Essa ideia da obsolescência programada surgiu no pós crise de 1929, idealizada por Bernard London, que até tinha uma ideia não-consumista na época, de programar os produtos para terem uma certa durabilidade, forçando o consumidor a trocá-los, movimentando assim a indústria, gerando empregos e tirando o país da lama. No documentário, a técnica (não admitida pelas indústrias) da obsolescência programada é comprovada, através de documentos da década de 30, sobre o chamado “cartel da lâmpada”, que forçou toda a indústria que produzia lâmpadas no mundo a colocarem uma data para queimar, que na sua versão final girava em torno de 1.000 horas. Isso era bem diferente das lâmpadas produzidas até então, como por exemplo a lâmpada que ainda está acesa há mais de 100 anos em Livermore, California, e está sendo filmada por uma web cam, que inclusive foi trocada duas vezes por defeitos, enquanto a lâmpada está funcionando perfeitamente. Essa lâmpada foi projetada por Adolphe Chailet, produzida por Shelby Electric Company no estado americano de Ohio em 1901, e ele morreu com os segredos do projeto.

Nesse mesmo documentário, é mencionado que a bateria dos primeiros iPods era feita para durar de seis a doze meses, e a Apple na época sugeria que você comprasse outro iPod caso a bateria estivesse com problemas. Graças a uma ação na justiça isso foi "mudado" (para um prazo um pouco maior).

Esse lixo todo produzido pelo consumismo acaba indo para países subdesenvolvidos, como mostra nesse mesmo filme, e containers inteiros de entulho são exportado para, por exemplo, Gana, na África,  destruindo completamente o meio ambiente daquele país. A ideia de sustentabilidade parece que não está bem clara. 

Isaac Asimov foi um escritor de ficção científica ateu e humanista. Seus livros mostram que no futuro o homem deixa de se preocupar com coisas menores e passa a se preocupar com a humanidade, avançando cientificamente se expandindo, para a colonização do universo. Essa também é a ideia central de outro documentário chamado Zeitgeist – Moving Forward, que inclusive promoveu recentes protestos em Wall Street, na bolsa de valores americana. Particularmente, acho pouco provável que façamos alguma coisa a não ser quando não tiver mais jeito, e formos obrigados a mudar e a salvar o pouco que restar do planeta para nossa própria e particular sobrevivência. Até lá continuaremos a consumir e a produzir lixo desnecessário, e a esgotar a matéria-prima, simplesmente porque temos algo que C.S. Lewis chamou de o maior pecado de todos: Orgulho.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Dragões


"E viu-se outro sinal no céu, e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre as cabeças, sete diademas." Apocalipse 12:3

A palavra “dragão” veio do Latim draconem, significando “serpente enorme”, do grego drakon, “serpente, peixe gigante”, com raíz na palavra derkesthai, “ver claramente”, e retirada talvez daí a capacidade dos dragões de vigiarem tesouros, uma das características dessa lendária criatura, mito em diversas culturas de diversas origens.

Os dragões são lendas em praticamente todas as culturas do planeta mas aparentemente esse bicho perdeu a hora no dia de entrar na arca de Noé e sua existência nunca foi realmente comprovada, tampouco desmentida. O mais interessante é que os dragões quase sempre tem significados religiosos nas culturas pelo mundo. Nos países asiáticos, o dragão é reverenciado como representante das forças primárias da natureza, associado com sabedoria e longevidade. Nota-se que os dragões possuem também um caráter mágico, ou num caso mais específico, sobrenatural, fazendo parte também da Bíblia Sagrada na batalha do Apocalipse. 

As semelhanças da palavra dragão com serpente me faz pensar sobre a serpente do Jardim do Édem, que provavelmente era um Dragão, como relatado em Apocalipse 12:9 “E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele.” Isso quer dizer que a serpente era ou a forma antiga do dragão, que em apocalipse ganha sete cabeças e dez chifres, ou a palavra que foi sendo alterada durante o tempo, do hebraico (língua do velho testamento) até o grego (língua do novo testamento). As primeiras menções ao bicho em forma de dragão na Bíblia vem da palavra Nachash Bare'ach, descritas em Isaías 27:1 e Jó 26:13, e significa Serpente dos pólos, ou serpente do mar, derivando também da palavra Taninim, monstro marinho, leviatã (Gn 1:21).

Na cultura chinesa, a palavra dragão se pronuncia “lóng” em mandarim, ou “lùhng” em cantonês, e a presença de artefatos com representação de dragões da dinastia Shang e Zhou datam do século 16 antes de Cristo. Acredita-se que a palavra dragão em chinês é uma onomatopéia do som que o trovão faz, e interessante essa relação dragão x céu que também ocorre na batalha do Apocalípse citada acima, em que o dragão com sua cauda lança sobre a Terra a terça parte das estrelas do céu (referenciando talvez aos anjos que Lúcifer levou consigo em sua queda, que foi um terço deles). Esse dragão que aparece em Apocalípse é derrotado pelo ser angelical Miguel, protetor de Israel na visão de Daniel (citado em Daniel 10:13-21. E ainda algumas pessoas desejam ver anjos. Tenho comigo que se um anjo aparecer é porque a coisa tá feia e a melhor coisa seria desejá-los bem longe, pois a maioria das vezes em que aparecem é para fazer uma “limpeza” divina. Seriam uma espécie de ROTA ou Tropa de Elite dos céus).

Particularmente tenho muito interesse nos dragões, em livros do gênero fantasia que possuem esses  seres e no momento terminei um jogo fantástico, chamado The Elder Scrools V – Skyrim, que gira em torno da volta dos dragões num determinado universo de fantasia.








Me desperta o interesse de saber se esse bicho realmente existiu, mas é inegável que praticamente todas as culturas relatam mais ou menos o mesmo animal, com as características semelhantes. 

E mais um detalhe: Antigamente os cartógrafos colocavam nos mapas as áreas não exploradas com a frase em latim “hic sunt dracones”, que significa “os dragões estão aqui” (Here Be Dragons), mostrando que a lenda existia na época para territórios virgens, e monstros marinhos assolavam a imaginação dos exploradores.