sábado, 26 de junho de 2010

A busca pela Lógica

Possuímos um desejo perene que é a busca pela verdade. Normalmente não nos satisfazemos com algumas coisas e mesmo pequenos, na escola, refutamos ideias como: Por que tenho que ir para a escola? Por que preciso aprender Matemática? E assim por diante. Questionamos, ouvimos as respostas que nos são dadas, acreditamos ou não, nos conformamos ou não, e seguimos adiante, em busca do próximo passo, ou próximo nível. Mas, para Bertrand Russell a coisa não foi bem assim. Desde pequeno, ele era um menino curioso, que questionava as ordens de sua avó e se tornou posteriormente um grande filósofo matemático. No gibi chamado Logicomix nos é apresentado a vida de Bertrand Russell contada por dois filósofos gregos chamados Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou. Sem dúvida nenhuma esse trabalho, além de muito interessante, é uma obra de arte. Utilizar o gibi para discorrer sobre um assunto indigesto que é a matemática, especialmente a lógica, e a vida de um matemático poderia matar qualquer um de tédio, mas não é o que acontece nesse caso. O livro-gibi é extremamente divertido, e muito intrigante. Confesso que não conhecia a obra de Russell, e fiquei espantado com a angústia desse homem que queria a todo custo questionar os axiomas matemáticos mais básicos, como Euclides por exemplo, e iniciou uma obra para provar a fundação lógica de toda a matemática.

O que chamou a atenção do mundo e tirou Russell do anonimato foi seu paradoxo, conhecido como paradoxo de Russell que prova, por meio de um questionamento, que a teoria dos conjuntos de Georg Cantor e Gottlob Frenge é contraditória. Poderia um conjunto de todos os conjuntos os quais não contém a si próprios conter ele mesmo? Se sim, então não pode. Se não, então pode. [1] Isso gera um paradoxo, como o paradoxo do barbeiro, de Kurt Godel e o paradoxo da enciclopédia. Seria como disse Euboulides: "Caros cidadãos, estou agora mentindo para vocês." Se ele está dizendo a verdade, então está mentindo. Se está mentindo, então está dizendo a verdade.

Uma das coisas que me chamaram a atenção na obra é que Russell foi procurar Cantor para lhe questionar sobre a teoria dos conjuntos e encontrou Georg Cantor numa espécie de hospital psiquiátrico, pois não estava em seu pleno juízo. Quando Russell ao questioná-lo, viu que ele começou a falar coisas estranhas, sem muito sentido e soltou em uma de suas frases: "Jesus Cristo era na verdade filho de... José de Arimatéia!" [2]. Nos quadros seguintes mostra Russell abandonando o hospital, ainda abalado com o estado do matemático, mas a frase ficou na minha cabeça. Mais a frente, quando é publicado o paradoxo de Russell, uma enfermeia estava lendo-o para Georg Cantor, que explodiu num grito e chacoalhando a funcionária do hospital pelos ombros disse: "Finalmente sou um homem livre! Você não entende? O inglês provou que o 'Conjunto de todos os conjuntos' é uma impossibilidade! Meu monstro, o usurpador da grandeza absoluta de Deus não existe mais! Eu estou salvo..." [3] Interessante isso, não? O que gerava angústia naquele homem era pensar ter criado algo que iria contra a onipotência de Deus, e viu-se livre quando finalmente compreendeu o desfecho daquilo. Imediatamente pensei em alguns que questionam Deus se perguntando por que então Deus então não cria uma pedra que ele mesmo não consegue levantar?

Russell coloca então uma frase, que também fiquei pensando: "Dada uma certa quantia de irracionalidade, alguns podem ler religião até mesmo na lógica." [4] Apesar de seu ostracismo de uma vida religiosa, vê-se que preconceitos permeiam a mente de Russell, bem justificados com o que viveu da ignorância de sua família, e o que acontece com a maioria dos cientistas, que tentam afastar a ciência de Deus e Deus da ciência, e não percebem que tudo só faz sentido se colocados no mesmo plano.

Para finalizar, após ter terminado o volume dois de seu trabalho entitulado “The Foundations of Arithmetic”, Gottlob colocou um adendo no final, pois dobrou-se à publicação da obra, mesmo que abalada em suas fundações. O adendo diz que “Dificilmente alguma coisa mais infortúnia pode suceder para um escritor científico do que ter uma das fundações de seu edifício abalado após o trabalho estar terminado” e cita o trabalho de Bertrand Russell, que obteve o colapso de uma de suas leis. Colocar isso em seu livro foi um verdadeiro ato de honestidade intelectual, elogiado pelo próprio Russell em seu discurso de 4 de setembro de 1939, três dias após Hitler invadir a Polônia em seu Blitzkrieg.

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[1] - “Does the set of all sets which do not contain themselves contain itseft? If it does, then it doesn’t. And if it doesn’t, then it does!”

[2] - "Jesus Christ was in reality the son of… Joseph of Arimathea!"

[3] - “I’m a free man at last! Don’t you understand? The Englishman proved the ‘Set of all sets’ is an impossibility! My monster, the usurper of God’s Absolute Greatness thus no longer exists! I’m saved...”

[4] - “Given the right amount of irrationality, one can read religion even in Logic”

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bom Gosto

Estava lendo um artigo na revista Filosofia da editora Escala chamado “O Gosto dos Outros”, de Flávio Paranhos, o qual ele cita um filme que gosto muito chamado Sideways, e fala do bom gosto. Não só o bom gosto mas a mudança de gosto com a mudança de contexto. Logo me lembro de ter ficado horrorizado com um colega de trabalho ter comentado que não gostou do filme “O Livro de Eli”. Gosto é gosto, claro. Mas como pode não ter gostado desse filme? É aí que comecei a pensar no assunto. Nesse artigo da revista, Paranhos pergunta: “O que é o gosto? É possível gostar de algo ‘objetivamente’?”. Daí uma dúvida quanto à importância de uma crítica literária, de cinema, de vinho, etc. O que vale nesse aspecto é o gosto do cidadão e o que aquilo o remeteu no íntimo. E esse gosto muda, de acordo com o contexto. Um exemplo disso é pegar algum material ruim de seu autor preferido e lê-lo sem saber de quem se trata. Provavelmente você achará ruim, mas se souber que se trata do seu autor preferido, certamente olhará com outros olhos e sua crítica muda a partir daí. Gostei do filme “Cloverfield” porque é do J. J. Abrams, o qual gosto, mas pode ser que se o assistisse não sabendo disso acharia uma cópia barata de “A Bruxa de Blair”, por usar a mesma fórmula. Concordo com o artigo da revista que diz que somos todos arbitrários em nossas condenações e exaltações.

O problema disso tudo é a arrogância. Não gosto de Machado de Assis, embora seja leitor. Quando comento isso (que, aliás, evito), os que lêem clássicos me olham com total e mais absoluto desprezo. Como se fosse uma heresia monstro falar uma coisas dessas. Claro, para ele é, para mim não. Lembro-me de um amigo que toda vez que nos encontramos comenta do filme “O Cheiro do Ralo”, o qual, inocentemente, lhe recomendei e dei motivos para uma eterna brincadeira que sempre é feita quando digo que algo é bom. Ele odiou o filme, e eu gostei muito, e poderia dar uma centena de argumentos e não mudaria sua perspectiva ou opinião. “É ruim e ponto”, ele me disse. Por que será que gostei então? Fazemos parte de um grupo de amigos com mais ou menos a mesma estrutura cultural. Isso me fez pensar ainda mais no por quê de ter gostado daquele filme. Realmente é um filme diferente. Talvez por isso mesmo, por não esperar um final feliz ou uma obviedade que me fez gostar. Um outro amigo só gosta de filmes que tenham final feliz. Tem que dar tudo certo para ser bom. Eu já penso diferente. Se der tudo exatamente como planejado, qual o sentido de ficar até o fim assistindo? Se já sei como termina, para que perder todo esse tempo? Não que isso seja regra, pois gostei muito de “O Senhor dos Anéis”, mas foi por outros motivos e não especificamente o final.

E também pensei em outra coisa: Vale a pena ler uma crítica de um filme antes de assisti-lo? Você deixaria de comprar um jogo de vídeo game após as críticas ruins? Muitas pessoas, incluindo eu, são influenciadas pelo gosto dos outros. A crítica nada mais é que uma tentativa de racionalizar um gosto subjetivo. E assim como Paranhos descreve no artigo “Primeiro gostamos, depois racionalizamos. Primeiro subjetivamos, depois objetivamos. Primeiro inconscientes, depois conscientes.”. Só sei de uma coisa: Evito ao máximo indicar alguma coisa. Se o faço é porque alguém me pergunta diretamente. Não temos capacidade de entender o tipo de gosto de cada um e acertar todas as vezes. Chegamos perto, mas as vezes que erramos escutamos eternamente.

sábado, 15 de maio de 2010

Fast-thinking

Filosofando mais um pouco a respeito de Arthur C. Clarke e sua obra, comentei com alguns amigos sobre “Encontro com Rama” que disse não ter gostado em um dos meus posts. Ainda continuo não gostando, porém não tiro o mérito do autor. O estilo de Clarke é do tipo “deixa a vida me levar”, e pouca explicação é proposital por parte dele. Clarke, a meu ver, necessita fazer você pensar sobre o que ele propôs e não significa que você deva pensar necessariamente o que ele pensa. Após "Encontro com Rama" assisti novamente a “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick + Clarke. Lembro-me de ter gostado parcialmente do filme, e, depois que ouvi algumas opiniões, revi o filme com outro conceito. É inegável que o filme é bom, porém não é um filme normal, covenhamos. Não é um filme como a maioria dos filmes são produzidos, com uma história linear, amarrada e devidamente explicada no final. No filme, o que importa é a sua interpretação para o que é apresentado, e não há uma resposta definitiva, mas um conjunto de imagens que compõem um pensamento do que possa ter acontecido.

O estilo de Clarke, segundo ouvi, não é o de pegar na sua mão e te levar aonde ele quer chegar, mas te indicar um (possível) caminho e você o caminha sozinho. Diferente de Asimov, o qual prefiro, Clarke não impõe um desfecho, mas sugere um princípio. Não deixa de ser muito interessante, e acredito que fui precipitado em escrever o post antes de pensar mais a respeito.

Gosto de conhecer o propósito do autor quando escreveu determinado texto, e um excelente post sobre a falácia intencional pode ser encontrado aqui. Esta mesma falácia intencional acabou me ajudando a entender os motivos de Clarke sobre “Encontro com Rama”. Comecei então a pensar nos motivos que me levaram a não gostar desse livro.

Tratei de analisar o mundo atual, a sociedade em que vivemos e nossas necessidades modernas e como fui influenciado por elas. No mundo apressado, procuramos facilidades. Não estamos querendo pensar, demorar, analisar, ou filosofar. Queremos que acabe logo para consumir o próximo. Interessante isso. Os filmes ficam mais óbvios, os jogos de video game mais curtos, os livros mais finos, e os pensamentos mais guiados. Não consigo pensar no Clarke escrevendo um livro para ganhar dinheiro somente e escrever o próximo na sequência, mas consigo facilmente pensar isso do Dan Brown, que sempre escreve um livro/roteiro de filme. Não que seja ruim, inclusive gostei muito de “O Símbolo Perdido”, mas caminhamos para o "já pronto". Desde comida para microondas até livros. Você já percebeu quantos livros de auto-ajuda existem nas prateleiras das livrarias? Acho que já comentei isso antes, mas a cada vez que entro em alguma livraria me assusta um pouco a enorme pilha de livros querendo te dar algum conselho importantíssimo que vai mudar sua vida. A sociedade hoje está caminhando para uma total submissão das opiniões de quem fez algo importante, sem prestar atenção se aquilo é bom, se é relevante, se faz sentido para si, se contradiz algum princípio, se é verdadeiro, etc. Hoje mesmo estava falando com um amigo sobre os motivos em que as pessoas acreditam em qualquer coisa e desacreditam em uma base de onde aquilo partiu. Como já falei anteriormente, A Bíblia para mim faz sentido, ao contrário da sorte incrível do nada ter criado tudo, e faz sentido a cada vez que a estudo, a cada descoberta da ciência, a cada análise. No livro “Milagres” de C. S. Lewis (autor de Crônicas de Narnia), existe um pensamento sobre o raciocínio lógico que não se sustenta. Muito interessante, mas vejo que poucos se interessam em uma segunda opinião daquilo que tomam como certo. Percebo que hoje, as pessoas se enfurecem quando tocadas com assuntos que desmontam sua linha de raciocínio ou opiniões formadas. Depois do fast-food, estamos tendo o fast-thinking. Não analisamos, só acreditamos. Se não está no Google, não existe. Desdenhamos de tudo que não entendemos.

Vou tentar mudar minhas análises literárias, mas sigo preferindo Asimov.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Bye, bye, James

Essa semana fui acometido com uma notícia um tanto triste: James Gosling, o pai do Java, está deixando a companhia. Após a compra da Sun pela Oracle, é natural que cabeças rolem, mas fiquei surpreso de saber que a cabeça em questão era o mentor chefe da linguagem em que me sustento nos dias de hoje. Ontem estava estudando um pouco a linguagem e percebi a complexidade em que as coisas se tornaram. A quantidade de frameworks [1] em Java é tanta que é praticamente impossível estudar todas elas. O profissional hoje no máximo trabalha com duas a três frameworks principais, as quais deve conhecer bem, e o resto ele “já ouviu falar” e corre atrás do Google por referências. Nessa abordagem, temos vários problemas envolvidos: Dificuldade de encontrar profissional sênior em determinada framework (que tenha desenvolvido pelo menos cinco projetos inteiros ou três anos de experiência, o que vier primeiro), codificação porca e confusa, arquitetura falha, dificuldade de manutenção, uso inadequado de funcionalidade e por aí vai. Com as linguagens atuais mais fáceis, como Ruby, .NET ou até mesmo o bom e velho PHP, o Java perdeu um pouco de espaço. Hoje, para o profissional, a quantidade de frameworks, ferramentas de desenvolvimento, banco de dados, padrões de projetos em Java é tanta que ninguém mais consegue ficar atualizado. Não dá para discernir sobre o que estudar e o que esquecer.

Algumas vezes comento isso com colegas de trabalho e a resposta que ouço não varia muito. “Vá estudar VB então que é mais fácil.” Ou então “Java não é para qualquer um mesmo”. Hoje em dia o programador Java se comporta como o programador C++ de dez anos atrás.

Einstein mudou a física com sua simplicidade de pensamento, e a equação que todos lembram é E=mc2. Simples. Einstein também tinha uma máxima que dizia “Tudo tem que ser feito de maneira mais simples possível, mas não simplória”. Há um princípio chamado KISS (Keep It Simple and Stupid) que prega a simplicidade nos projetos. Quem cunhou esse termo foi Kelly Johnson, engenheiro do Lockheed Skunk Works (criadores do avião-espião Blackbird). Leonardo Da Vinci dizia que “A simplicidade é a sofisticação definitiva”. Não vejo Java como sendo simples. Não vejo jovens querendo aprender Java. Como em alguns artigos que li recentemente, parece haver uma tendência de premeditar a morte do Java baseado nisso. Será que não é hora de mudar?

Se mantivermos esse modelo lento, estaremos com a morte da linguagem decretada. É preciso inovar, e rápido.
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[1] Frameworks são bibliotecas que proveem funcionalidades genéricas, e que permitem uma customização de acordo com o projeto em questão.


terça-feira, 13 de abril de 2010

O Livro de Eli

Seguindo a tendência dos posts sobre indicações, este aqui fala do filme que assisti nos cinemas recentemente, O Livro de Eli. Passado em um futuro pós-apocalíptico o filme não é uma mesmice que esperava. Pelo contrário, tem um conteúdo plausível e muito intrigante. Existiu uma guerra santa e todos se destruíram. O que restou do mundo é caótico, e a natureza como conhecemos praticamente acabou por conta das bombas que destruíram a camada de ozônio de vez. As pessoas lutam pela sobrevivência e o mais forte manda, voltando para um faroeste característico em uma das poucas vilas existentes no planeta.

Nos primeiros minutos veio à minha cabeça um Mad Max moderno, porém percebe-se que a trama é muito mais profunda que aparenta, deixando Mel Gibson e a Tina Turner chupando dedo. Eli, protagonista vivido por Denzel Washington, carrega um livro (adivinhem qual é) e uma missão de levá-lo para o Oeste, até que ele mesmo, Eli, saiba que chegou ao local escolhido. Nessa missão, um líder comunitário de uma das vilas fica em seu caminho, e toda uma história se desenvolve aí. Se você for assistir a esse filme, preste muita atenção aos detalhes. A cada fala, a cada gesto. É muito interessante as referências que o filme faz a tudo que acontece hoje. A tal guerra que dizimou tudo não é explicada em detalhes, mas nós conseguimos facilmente deduzir o que aconteceu.

Fazendo um paralelo ao filme, hoje pela manhã estava lendo uma matéria na Newsweek dessa semana sobre os abusos sexuais da Igreja Católica. Mais uma vez esse assunto está na moda, só que agora percebo uma certa diferença. Essa diferença é referente à nova religião mundial, a ciência, e a fé cega que acomete as pessoas mais instruídas a acreditarem apenas no que entendem ou podem provar. Antigamente, não entender algo não significava não acreditar na sua existência. Hoje em dia não entender algo significa que esse algo é uma ilusão de nossas mentes, ou algo ainda inexplicado pela ciência. Deus, nesse contexto todo, foi suprimido como uma ignorância das massas, uma tentativa de explicar o que não entendemos ou uma forma de controlar o povo. Não se acredita mais que Deus sequer existe, como demonstrado na Bíblia Sagrada, simplesmente porque não temos provas suficientes, e ninguém viu alguém caminhar sobre as águas que não seja o Criss Angel.

Estamos limitados ao que vemos, sentimos e vivenciamos. Se não se pode provar, é mentira, ilusão ou bobagem. A vida é curta, vamos aproveitar. Carpe diem quam minimum credula postero. [1] Só que a coisa não fica só nisso. As pessoas estão criando um ódio (ou indiferença, o que é pior) pelos que acreditam na Bíblia. Cada vez mais o menosprezo dos crentes da ciência abraçam a ideia que não existe nada de especial na vida, e ridicularizam os crentes em Deus. Tudo é uma grande coincidência ou sorte. A espiritualidade foi deturpada. Ou ela não existe de fato ou existe em tudo que não é Deus. Idolatramos atores e atrizes, esquecemos dos familiares (o próximo). Acreditamos em duendes, bruxas, vampiros-emo, pedras mágicas, videntes, força invisível, I-Ching, ou qualquer outra coisa que não é Deus, e não está na Bíblia. Achamos que as histórias da Bíblia são bobagens, inventadas por velhos tolos com propósitos manipuladores. Só que ninguém quer pesquisar. Ninguém quer ir atrás para saber se o que consta lá pode ter acontecido. Acreditamos em Alexandre, o grande, que possui muito menos referência histórica de sua existência do que Jesus. Só queremos malhar e pegar emprestado opiniões de “sábios” pensadores modernos. Naquela moda que todos são especialistas após uma pesquisa no Google, ficamos mais burros do que antigamente, porém nos julgamos mais sábios que todos porque temos acesso à informação.

Isso é retratado bem claramente no filme. A busca pelo “livro” é a fonte do controle. A guerra santa destruiu tudo, mas queremos o controle através da fé cega. A fé ignorante do acreditar porque sim. Isso sim destrói.

“O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.” Oséias 4:6

Belo trabalho dos irmãos Hughes, que também dirigiram Do Inferno, e ótima história de Gary Whitta, que é jornalista de games, contribuindo Gears of War e quase escreveu o roteiro no novo filme da Blizzard, World of Warcraft, mas saiu do projeto após Sam Raimi ter assumido a direção. Fica aqui a dica.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Você!

Todos somos culpados, mas a corrente sempre rompe no seu elo mais fraco. E os demais elos culpam o elo rompido, como se eles mesmos não fizessem parte da mesma corrente. No mundo da informática, no qual me insiro, não existe culpado maior pelos problemas de um sistema do que o programador. Quem trabalha nesse meio sabe que o programador é um peão de fábrica, que trabalha com prazos irreais, e com clientes sempre insatisfeitos. Se alguma coisa não funciona a culpa é sempre do programador.

Será que as pessoas gostam de hipocrisia? Gerentes, arquitetos, coordenadores, clientes, analistas de negócio, vendedores, testadores, todos podem errar, mas a culpa adivinha de quem é? Se tudo dá certo, parabéns aos gerentes, arquitetos, coordenadores, clientes, analistas de negócio, vendedores e testadores. Não temos parabéns para o programador, afinal, não fez mais que a sua obrigação, não é verdade? Não! Não é verdade. O programador trabalha em ambiente insalubre. Normalmente trabalha este com uma máquina muito ultrapassada, com recursos limitadíssimos, com servidores de teste entulhados de problemas, com banco de dados que não tem informação válida sem falar nos prazos para ontem. Por que será que ainda hoje, após anos de programação e métodos de trabalho, após diversos PMIs e metodologias pomposas com gráficos em Power Point, ainda temos que passar por situações em que não é humanamente possível entregar um projeto decente? Não observa isso os gerentes, clientes e quem mais define liderança em uma empresa? Será que é mais bonito entregar primeiro e correr atrás do erro depois? Claro que a pergunta é retórica. Primeiro vende-se o produto. Depois alguém vai ver se dá pra fazer o prometido. E se não der? Ah, aí culpa-se alguém, né?

No mundo capitalista, vivemos uma situação em que o dinheiro vem em primeiro plano. O que gera renda imediata, a curto prazo, é o principal da situação. Não se tem planejamento se este impeça a venda de alguma coisa naquele momento. Até isso acontecer, é uma consequência do capitalismo. O que não deveria acontecer é um bando de hipócritas querendo jogar a culpa nas pessoas que realmente produziram o software.

As ferramentas de programação e linguagens estão ficando mais amigáveis. Com interfaces mais simples, como o Code Bubbles para Java (veja o vídeo), e o Spring Framework, que facilitam muito tarefas comuns em todos os projetos, isso tudo para agilizar o desenvolvimento e a entrega do produto. É algo como “se não podemos vencê-los juntemo-nos a eles”. A comunidade se esforça para tornar a parte de codificação mais rápida. Apesar da resistência das empresas adotarem as ferramentas e frameworks mais novas, ainda existe uma luz no fim do túnel, e um dia teremos ferramentas modernas o suficiente em que o desenvolvimento em si se torne apenas uma montagem de regras de negócio específicas de cada projeto, e a codificação seja implícita, ou pelo menos bem menor. Aí, talvez teremos um outro culpado: O Analista de Negócio. A culpa é minha e coloco ela em quem eu quiser.

domingo, 7 de março de 2010

Moon

Sam Bell e Gerty. Dois companheiros a bordo da estação espacial na lua extraindo um gás chamado Helium 3, que é a resposta para o problema de energia da Terra. A empresa Lunar fez um contrato de três anos com Sam, e Gerty não precisa voltar, pois é um computador. Esse enredo pode parecer batido, mas o que acontece nesse filme de Duncan Jones é surpreendente. O filme não trata de explosões, tiros e sexo, portanto se você é um fã de filmes de ação (e gosta de Big Brother) esqueça. O filme é para pensar. Assim como 2001 uma Odisséia no Espaço, algumas coisas não são ditas, mas facilmente interpretadas. O filme é filosófico, e nos mostra mais uma vez um futuro possível. No que as pessoas estão se tornando. No que as empresas controladas por pessoas estão parecendo. O filme é excelente, do meu ponto de vista. Sei que a maioria prefere não pensar. Prefere sentar no sofá e reclamar que amanhã é segunda-feira. Preferem não fazer nada. Eu também sou assim, e isso me chateia, mas pelo menos gosto de filmes alternativos.

O diretor Duncan Jones (que é diretor, roteirista e também filho de David Bowie) propõe além da exploração do gás lunar também uma exploração pessoal. Nos limites do ser humano, isolado em uma estação espacial com sua esposa e filha na Terra esperando por sua volta, Sam é tomados pelos efeitos do confinamento. A comunicação dentro da base é feita por gravações refletidas em Júpiter, já que a antena principal está destruída, completando assim a solidão. Não dá para não perceber a semelhança de Gerty, o computador da estação, com HAL 9000, só que Gerty é mais gente boa, dublado por Kevin Spacey. Sam, que tem seu contrato vencendo em duas semanas, após três anos de isolamento, começa a ter alucinações e é aí que a coisa toda começa a ficar interessante.

Para quem gosta de ficção científica, esse filme é essencial. De baixo orçamento, acabou saindo direto para DVD no Brasil, porém não demonstra ter custado somente 5 milhões de dólares. Os efeitos e tomadas externas são de primeira, embora a maioria das tomadas acontece dentro da base lunar Sarang, que “por acaso” significa “amor” em coreano.

Recomendo.