sábado, 15 de maio de 2010

Fast-thinking

Filosofando mais um pouco a respeito de Arthur C. Clarke e sua obra, comentei com alguns amigos sobre “Encontro com Rama” que disse não ter gostado em um dos meus posts. Ainda continuo não gostando, porém não tiro o mérito do autor. O estilo de Clarke é do tipo “deixa a vida me levar”, e pouca explicação é proposital por parte dele. Clarke, a meu ver, necessita fazer você pensar sobre o que ele propôs e não significa que você deva pensar necessariamente o que ele pensa. Após "Encontro com Rama" assisti novamente a “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick + Clarke. Lembro-me de ter gostado parcialmente do filme, e, depois que ouvi algumas opiniões, revi o filme com outro conceito. É inegável que o filme é bom, porém não é um filme normal, covenhamos. Não é um filme como a maioria dos filmes são produzidos, com uma história linear, amarrada e devidamente explicada no final. No filme, o que importa é a sua interpretação para o que é apresentado, e não há uma resposta definitiva, mas um conjunto de imagens que compõem um pensamento do que possa ter acontecido.

O estilo de Clarke, segundo ouvi, não é o de pegar na sua mão e te levar aonde ele quer chegar, mas te indicar um (possível) caminho e você o caminha sozinho. Diferente de Asimov, o qual prefiro, Clarke não impõe um desfecho, mas sugere um princípio. Não deixa de ser muito interessante, e acredito que fui precipitado em escrever o post antes de pensar mais a respeito.

Gosto de conhecer o propósito do autor quando escreveu determinado texto, e um excelente post sobre a falácia intencional pode ser encontrado aqui. Esta mesma falácia intencional acabou me ajudando a entender os motivos de Clarke sobre “Encontro com Rama”. Comecei então a pensar nos motivos que me levaram a não gostar desse livro.

Tratei de analisar o mundo atual, a sociedade em que vivemos e nossas necessidades modernas e como fui influenciado por elas. No mundo apressado, procuramos facilidades. Não estamos querendo pensar, demorar, analisar, ou filosofar. Queremos que acabe logo para consumir o próximo. Interessante isso. Os filmes ficam mais óbvios, os jogos de video game mais curtos, os livros mais finos, e os pensamentos mais guiados. Não consigo pensar no Clarke escrevendo um livro para ganhar dinheiro somente e escrever o próximo na sequência, mas consigo facilmente pensar isso do Dan Brown, que sempre escreve um livro/roteiro de filme. Não que seja ruim, inclusive gostei muito de “O Símbolo Perdido”, mas caminhamos para o "já pronto". Desde comida para microondas até livros. Você já percebeu quantos livros de auto-ajuda existem nas prateleiras das livrarias? Acho que já comentei isso antes, mas a cada vez que entro em alguma livraria me assusta um pouco a enorme pilha de livros querendo te dar algum conselho importantíssimo que vai mudar sua vida. A sociedade hoje está caminhando para uma total submissão das opiniões de quem fez algo importante, sem prestar atenção se aquilo é bom, se é relevante, se faz sentido para si, se contradiz algum princípio, se é verdadeiro, etc. Hoje mesmo estava falando com um amigo sobre os motivos em que as pessoas acreditam em qualquer coisa e desacreditam em uma base de onde aquilo partiu. Como já falei anteriormente, A Bíblia para mim faz sentido, ao contrário da sorte incrível do nada ter criado tudo, e faz sentido a cada vez que a estudo, a cada descoberta da ciência, a cada análise. No livro “Milagres” de C. S. Lewis (autor de Crônicas de Narnia), existe um pensamento sobre o raciocínio lógico que não se sustenta. Muito interessante, mas vejo que poucos se interessam em uma segunda opinião daquilo que tomam como certo. Percebo que hoje, as pessoas se enfurecem quando tocadas com assuntos que desmontam sua linha de raciocínio ou opiniões formadas. Depois do fast-food, estamos tendo o fast-thinking. Não analisamos, só acreditamos. Se não está no Google, não existe. Desdenhamos de tudo que não entendemos.

Vou tentar mudar minhas análises literárias, mas sigo preferindo Asimov.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Bye, bye, James

Essa semana fui acometido com uma notícia um tanto triste: James Gosling, o pai do Java, está deixando a companhia. Após a compra da Sun pela Oracle, é natural que cabeças rolem, mas fiquei surpreso de saber que a cabeça em questão era o mentor chefe da linguagem em que me sustento nos dias de hoje. Ontem estava estudando um pouco a linguagem e percebi a complexidade em que as coisas se tornaram. A quantidade de frameworks [1] em Java é tanta que é praticamente impossível estudar todas elas. O profissional hoje no máximo trabalha com duas a três frameworks principais, as quais deve conhecer bem, e o resto ele “já ouviu falar” e corre atrás do Google por referências. Nessa abordagem, temos vários problemas envolvidos: Dificuldade de encontrar profissional sênior em determinada framework (que tenha desenvolvido pelo menos cinco projetos inteiros ou três anos de experiência, o que vier primeiro), codificação porca e confusa, arquitetura falha, dificuldade de manutenção, uso inadequado de funcionalidade e por aí vai. Com as linguagens atuais mais fáceis, como Ruby, .NET ou até mesmo o bom e velho PHP, o Java perdeu um pouco de espaço. Hoje, para o profissional, a quantidade de frameworks, ferramentas de desenvolvimento, banco de dados, padrões de projetos em Java é tanta que ninguém mais consegue ficar atualizado. Não dá para discernir sobre o que estudar e o que esquecer.

Algumas vezes comento isso com colegas de trabalho e a resposta que ouço não varia muito. “Vá estudar VB então que é mais fácil.” Ou então “Java não é para qualquer um mesmo”. Hoje em dia o programador Java se comporta como o programador C++ de dez anos atrás.

Einstein mudou a física com sua simplicidade de pensamento, e a equação que todos lembram é E=mc2. Simples. Einstein também tinha uma máxima que dizia “Tudo tem que ser feito de maneira mais simples possível, mas não simplória”. Há um princípio chamado KISS (Keep It Simple and Stupid) que prega a simplicidade nos projetos. Quem cunhou esse termo foi Kelly Johnson, engenheiro do Lockheed Skunk Works (criadores do avião-espião Blackbird). Leonardo Da Vinci dizia que “A simplicidade é a sofisticação definitiva”. Não vejo Java como sendo simples. Não vejo jovens querendo aprender Java. Como em alguns artigos que li recentemente, parece haver uma tendência de premeditar a morte do Java baseado nisso. Será que não é hora de mudar?

Se mantivermos esse modelo lento, estaremos com a morte da linguagem decretada. É preciso inovar, e rápido.
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[1] Frameworks são bibliotecas que proveem funcionalidades genéricas, e que permitem uma customização de acordo com o projeto em questão.


terça-feira, 13 de abril de 2010

O Livro de Eli

Seguindo a tendência dos posts sobre indicações, este aqui fala do filme que assisti nos cinemas recentemente, O Livro de Eli. Passado em um futuro pós-apocalíptico o filme não é uma mesmice que esperava. Pelo contrário, tem um conteúdo plausível e muito intrigante. Existiu uma guerra santa e todos se destruíram. O que restou do mundo é caótico, e a natureza como conhecemos praticamente acabou por conta das bombas que destruíram a camada de ozônio de vez. As pessoas lutam pela sobrevivência e o mais forte manda, voltando para um faroeste característico em uma das poucas vilas existentes no planeta.

Nos primeiros minutos veio à minha cabeça um Mad Max moderno, porém percebe-se que a trama é muito mais profunda que aparenta, deixando Mel Gibson e a Tina Turner chupando dedo. Eli, protagonista vivido por Denzel Washington, carrega um livro (adivinhem qual é) e uma missão de levá-lo para o Oeste, até que ele mesmo, Eli, saiba que chegou ao local escolhido. Nessa missão, um líder comunitário de uma das vilas fica em seu caminho, e toda uma história se desenvolve aí. Se você for assistir a esse filme, preste muita atenção aos detalhes. A cada fala, a cada gesto. É muito interessante as referências que o filme faz a tudo que acontece hoje. A tal guerra que dizimou tudo não é explicada em detalhes, mas nós conseguimos facilmente deduzir o que aconteceu.

Fazendo um paralelo ao filme, hoje pela manhã estava lendo uma matéria na Newsweek dessa semana sobre os abusos sexuais da Igreja Católica. Mais uma vez esse assunto está na moda, só que agora percebo uma certa diferença. Essa diferença é referente à nova religião mundial, a ciência, e a fé cega que acomete as pessoas mais instruídas a acreditarem apenas no que entendem ou podem provar. Antigamente, não entender algo não significava não acreditar na sua existência. Hoje em dia não entender algo significa que esse algo é uma ilusão de nossas mentes, ou algo ainda inexplicado pela ciência. Deus, nesse contexto todo, foi suprimido como uma ignorância das massas, uma tentativa de explicar o que não entendemos ou uma forma de controlar o povo. Não se acredita mais que Deus sequer existe, como demonstrado na Bíblia Sagrada, simplesmente porque não temos provas suficientes, e ninguém viu alguém caminhar sobre as águas que não seja o Criss Angel.

Estamos limitados ao que vemos, sentimos e vivenciamos. Se não se pode provar, é mentira, ilusão ou bobagem. A vida é curta, vamos aproveitar. Carpe diem quam minimum credula postero. [1] Só que a coisa não fica só nisso. As pessoas estão criando um ódio (ou indiferença, o que é pior) pelos que acreditam na Bíblia. Cada vez mais o menosprezo dos crentes da ciência abraçam a ideia que não existe nada de especial na vida, e ridicularizam os crentes em Deus. Tudo é uma grande coincidência ou sorte. A espiritualidade foi deturpada. Ou ela não existe de fato ou existe em tudo que não é Deus. Idolatramos atores e atrizes, esquecemos dos familiares (o próximo). Acreditamos em duendes, bruxas, vampiros-emo, pedras mágicas, videntes, força invisível, I-Ching, ou qualquer outra coisa que não é Deus, e não está na Bíblia. Achamos que as histórias da Bíblia são bobagens, inventadas por velhos tolos com propósitos manipuladores. Só que ninguém quer pesquisar. Ninguém quer ir atrás para saber se o que consta lá pode ter acontecido. Acreditamos em Alexandre, o grande, que possui muito menos referência histórica de sua existência do que Jesus. Só queremos malhar e pegar emprestado opiniões de “sábios” pensadores modernos. Naquela moda que todos são especialistas após uma pesquisa no Google, ficamos mais burros do que antigamente, porém nos julgamos mais sábios que todos porque temos acesso à informação.

Isso é retratado bem claramente no filme. A busca pelo “livro” é a fonte do controle. A guerra santa destruiu tudo, mas queremos o controle através da fé cega. A fé ignorante do acreditar porque sim. Isso sim destrói.

“O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.” Oséias 4:6

Belo trabalho dos irmãos Hughes, que também dirigiram Do Inferno, e ótima história de Gary Whitta, que é jornalista de games, contribuindo Gears of War e quase escreveu o roteiro no novo filme da Blizzard, World of Warcraft, mas saiu do projeto após Sam Raimi ter assumido a direção. Fica aqui a dica.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Você!

Todos somos culpados, mas a corrente sempre rompe no seu elo mais fraco. E os demais elos culpam o elo rompido, como se eles mesmos não fizessem parte da mesma corrente. No mundo da informática, no qual me insiro, não existe culpado maior pelos problemas de um sistema do que o programador. Quem trabalha nesse meio sabe que o programador é um peão de fábrica, que trabalha com prazos irreais, e com clientes sempre insatisfeitos. Se alguma coisa não funciona a culpa é sempre do programador.

Será que as pessoas gostam de hipocrisia? Gerentes, arquitetos, coordenadores, clientes, analistas de negócio, vendedores, testadores, todos podem errar, mas a culpa adivinha de quem é? Se tudo dá certo, parabéns aos gerentes, arquitetos, coordenadores, clientes, analistas de negócio, vendedores e testadores. Não temos parabéns para o programador, afinal, não fez mais que a sua obrigação, não é verdade? Não! Não é verdade. O programador trabalha em ambiente insalubre. Normalmente trabalha este com uma máquina muito ultrapassada, com recursos limitadíssimos, com servidores de teste entulhados de problemas, com banco de dados que não tem informação válida sem falar nos prazos para ontem. Por que será que ainda hoje, após anos de programação e métodos de trabalho, após diversos PMIs e metodologias pomposas com gráficos em Power Point, ainda temos que passar por situações em que não é humanamente possível entregar um projeto decente? Não observa isso os gerentes, clientes e quem mais define liderança em uma empresa? Será que é mais bonito entregar primeiro e correr atrás do erro depois? Claro que a pergunta é retórica. Primeiro vende-se o produto. Depois alguém vai ver se dá pra fazer o prometido. E se não der? Ah, aí culpa-se alguém, né?

No mundo capitalista, vivemos uma situação em que o dinheiro vem em primeiro plano. O que gera renda imediata, a curto prazo, é o principal da situação. Não se tem planejamento se este impeça a venda de alguma coisa naquele momento. Até isso acontecer, é uma consequência do capitalismo. O que não deveria acontecer é um bando de hipócritas querendo jogar a culpa nas pessoas que realmente produziram o software.

As ferramentas de programação e linguagens estão ficando mais amigáveis. Com interfaces mais simples, como o Code Bubbles para Java (veja o vídeo), e o Spring Framework, que facilitam muito tarefas comuns em todos os projetos, isso tudo para agilizar o desenvolvimento e a entrega do produto. É algo como “se não podemos vencê-los juntemo-nos a eles”. A comunidade se esforça para tornar a parte de codificação mais rápida. Apesar da resistência das empresas adotarem as ferramentas e frameworks mais novas, ainda existe uma luz no fim do túnel, e um dia teremos ferramentas modernas o suficiente em que o desenvolvimento em si se torne apenas uma montagem de regras de negócio específicas de cada projeto, e a codificação seja implícita, ou pelo menos bem menor. Aí, talvez teremos um outro culpado: O Analista de Negócio. A culpa é minha e coloco ela em quem eu quiser.

domingo, 7 de março de 2010

Moon

Sam Bell e Gerty. Dois companheiros a bordo da estação espacial na lua extraindo um gás chamado Helium 3, que é a resposta para o problema de energia da Terra. A empresa Lunar fez um contrato de três anos com Sam, e Gerty não precisa voltar, pois é um computador. Esse enredo pode parecer batido, mas o que acontece nesse filme de Duncan Jones é surpreendente. O filme não trata de explosões, tiros e sexo, portanto se você é um fã de filmes de ação (e gosta de Big Brother) esqueça. O filme é para pensar. Assim como 2001 uma Odisséia no Espaço, algumas coisas não são ditas, mas facilmente interpretadas. O filme é filosófico, e nos mostra mais uma vez um futuro possível. No que as pessoas estão se tornando. No que as empresas controladas por pessoas estão parecendo. O filme é excelente, do meu ponto de vista. Sei que a maioria prefere não pensar. Prefere sentar no sofá e reclamar que amanhã é segunda-feira. Preferem não fazer nada. Eu também sou assim, e isso me chateia, mas pelo menos gosto de filmes alternativos.

O diretor Duncan Jones (que é diretor, roteirista e também filho de David Bowie) propõe além da exploração do gás lunar também uma exploração pessoal. Nos limites do ser humano, isolado em uma estação espacial com sua esposa e filha na Terra esperando por sua volta, Sam é tomados pelos efeitos do confinamento. A comunicação dentro da base é feita por gravações refletidas em Júpiter, já que a antena principal está destruída, completando assim a solidão. Não dá para não perceber a semelhança de Gerty, o computador da estação, com HAL 9000, só que Gerty é mais gente boa, dublado por Kevin Spacey. Sam, que tem seu contrato vencendo em duas semanas, após três anos de isolamento, começa a ter alucinações e é aí que a coisa toda começa a ficar interessante.

Para quem gosta de ficção científica, esse filme é essencial. De baixo orçamento, acabou saindo direto para DVD no Brasil, porém não demonstra ter custado somente 5 milhões de dólares. Os efeitos e tomadas externas são de primeira, embora a maioria das tomadas acontece dentro da base lunar Sarang, que “por acaso” significa “amor” em coreano.

Recomendo.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Encontro com Rama

Interessante como as opiniões divergem mesmo dentro de um mesmo assunto de agrado de duas pessoas. Terminei ontem de ler “Rendezvous with Rama” (Encontro com Rama) de Arthur C. Clarke. Já vou te adiantar que se pretende ler esse livro um dia é melhor parar por aqui, porque vou falar algumas coisas que talvez estraguem (spoiler) seu prazer em lê-lo.

Encontro com Rama trata de um futuro não tão distante, em 2130, em que os astrônomos (americanos, é claro) detectam um enorme asteróide na órbita de Júpiter com velocidade de 100.000 km/h que desperta a atenção desses cientistas por muitos fatores que não vem ao caso agora. Então, mandam uma nave tripulada (após uma sonda) para avaliar o objeto, que a princípio foi identificado como uma super nave extraterrestre. Já imaginei o Bruce Willis no meio da coisa tentando plantar uma bomba atômica no núcleo e tal, mas pelo menos a história não foi para esse lado.

O problema todo é que o livro não foi pra lado nenhum. Nada acontece. Me senti lendo o roteiro de Lost. Acontece tudo mas não explica nada. As dúvidas que tinha no primeiro capítulo continuei tendo depois da última página. Após terminar o livro, vi que ele foi finalizado com uma frase de efeito, que poderia gerar muitos significados e interpretações. Fui correndo na Wikipedia procurar por seu significado. Descobri que o velho Clarke só quis terminar o livro “in a good way”, ou seja, de uma maneira bacana. Bacana pra ele, claro. A única coisa que pensei significar algo na verdade não significa nada. Se você gostou do filme 2001 Uma Odisséia no Espaço (também dele) provavelmente vai gostar de Encontro com Rama. Eu achei médio. Tem seu mérito, é um clássico, ganhou muitos prêmios, tem sua filosofia, sua futurologia bem amarrada, mas não chega perto de um conto ruim do Isaac Asimov. Suas continuações também não explicam muita coisa (já me informei) e o pior: Ele não escreveu as três continuações, dando-as para um autor chamado Gentry Lee, que era chefe de engenharia do laboratório de propulsão a Jato e também (mau) escritor.

A opinião divergente que citei acima foi porque um amigo meu do trabalho me recomendou muito esse livro, e gostamos de ficção científica, mas nesse caso discordo totalmente da opinião dele. Interessante que neste livro verfiquei alguns nomes latinos presentes na tripulação da Endeavour, nave que vai ao encontro de Rama. Nomes como Perera e até um Boris Rodrigo estão presentes na obra. Inclusive o Rodrigo é um “cristão” devoto da Quinta Igreja do Cristo Cosmonauta. Essa religião acreditava que “Jesus Cristo era um visitante do espaço e uma teologia inteira foi construída com essa suposição”.

Valeu Clarke por ter proposto a comunicação por satélite e ter descoberto a órbita estacionária deles, mas em Rendezvous with Rama eu boiei.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Traição

“Pois é, e estou contando pra você porque não tinha mais ninguém para falar sobre isso.”

Alguns minutos em silêncio, Antônio finalmente falou: “Bem, Pedro. Realmente estou sem palavras. Não sei o que te dizer ainda.”

“É, eu sei. Cara, não estou conseguindo visualizar aquela vadia na minha frente. Já tinha reparado no churrasco da empresa que ela deu um sorrisinho para o mané, mas preferi fingir que não vi nada. Agora ela me liga dizendo que dormiu com o cara! Porra, se ela me fala pessoalmente esmurraria a desgraçada até não sobrar nada. Cadela do inferno!”

“É por isso talvez que ela resolveu ligar do Hotel. Já sabia do seu temperamento. Mas, sei lá. Tenho um pensamento diferente do seu e qualquer coisa que te disser você não vai concordar ou vai te deixar mais nervoso ainda. Acho que nem vale a pena dizer nada. Vamos só deixar a cabeça esfriar um pouco e aí pensarmos no que fazer.”

“Se você resolver me falar daquela merda de religião de novo eu boto você pra correr daqui. Aliás, o que teu Deus acha disso tudo? Provavelmente Jesus disse pra perdoar as vagabundas e continuar o casamento cheio de alegria, né?”

Um sorriso brotou na cara de Antônio, que ainda olhava cabisbaixo seus sapatos, com olhos parados, pensando em um monte de coisas que não conseguia exprimir da forma que gostaria. Levantou os olhos um pouco, ainda olhando o nada, e disse:

“Na verdade Jesus disse que nesse caso a separação é de certa forma permitida.”

“Tá brincando! Jesus disse isso?” - Pedro exclamou, jogando seu corpo para trás na cadeira.

“É, ele disse que qualquer um que se separar de sua mulher e casar com outra comete pecado, exceto em caso de adultério.”

“Tipo, então adultério é sério? Ele deixa quieto isso se a vaca da mulher der pra outro?”

“É, pois Jesus sabe que o coração do homem é duro, e para perdoar um ato dessa magnitude é muito difícil. Eu particularmente acho que foi permitido dessa forma porque se o homem continuasse casado para agradar a Deus somente, não cometendo o pecado da separação, o casamento não seria feliz nem agradável, mas um fardo pesado que o marido e a esposa carregariam e o marido jogaria na cara de sua esposa esse fato em todas as possibilidades que tivesse”

“Nossa, nunca imaginei que Jesus diria isso. Ele é tão deixa disso, dá a outra face e tal que pra mim Ele diria para perdoar a libertina, filha de uma puta. Nossa não tô querendo lembrar daquela desgraçada. Já me subiu o sangue de novo...”

“Fico pensando aqui se eu perdoaria minha esposa nesse caso também. Sendo cristão, sabendo do perdão de Deus... Sei lá... Imagine um ser supremo que criou tudo que existe. Sei que você não acredita nisso, mas imagine o que acredito...”

“É, realmente não acredito num ser barbudo sentado num trono, sorridente, brincando de matar formigas.”

“Nem eu acredito num ser barbudo sentado num trono. Já deixei de acreditar em papai Noel quando tinha quatro anos. Mas meu pensamento é mais ou menos esse: Imagine um Ser supremo, que no seu caso pode ser aquela sua fórmula matemática que criou o tudo, ou a coincidência tresloucada, não importa. No meu caso é um Ser supremo com consciência. Criou o homem e nos deu a moral. O cidadão resolve tocar a vida de sua maneira. Uns se dão bem, outros se dão mal, mas no final da vida, no leito de morte, passa aquele filme na cabeça. O filme revela que você não vai ter mais vida. Vai morrer e pronto, acabou. Ser lançado no rio de fogo. Não vai ter a chance de levar sua consciência para outra dimensão e continuar existindo. Já era. Game over. Bate aquele desespero básico e a pessoa resolve pedir a salvação a Deus. Se arrepende de todos os seus pecados, sejam eles quais forem. Matou, roubou, estuprou, degolou, etc. Não importa. Mas se arrepende profundamente, e pede perdão. Deus vai lá e perdoa o cara...”
“Ah, me desculpe. Aí é complicado também. Que justiça é essa então? Um cara que estuprou uma criancinha de 5 anos tem perdão? Ah, pára com isso. Tem que arder nos mais profundos mármores do inferno, se é que existe isso...”

“Pois é, mas no Deus que eu acredito Ele perdoa. Sabe por quê? Porque o preço do pecado é a morte. Se você pecou, e não existe pecadinho ou pecadão, o preço é a morte. Deus te perdoa porque o filho Dele morreu, inocente, para que você não morra. Isso é muito difícil de entender, mas quando você acredita, as coisas começam a fazer sentido. Se um Ser dessa magnitude Te perdoa, porque você, cheio de defeitos e coisas erradas, não poderia perdoar alguém também?”
“Porque aquela vaca velha deveria estar morta, com a boca cheia de formiga agora. Como você pode me dizer para perdoar aquela maldita prostituta?”

“Calma. Não disse que você deve perdoar. Nem sei se eu perdoaria minha esposa se isso acontecesse. Só estou dizendo que me passou esse pensamento pela cabeça. E achei interessante dividi-lo com você. Realmente não sei se perdoaria, mas sei que Deus me perdoaria se eu O traísse. E Ele é Deus e eu sou nada.”

“Aliás, já começa a confusão aí, Antônio. Deus, Jesus, Espírito sei lá o que... E ainda é tudo um só. Como alguém entende um treco desses?”

“Hehehehe... É difícil mesmo. Mas um escritor chamado Bene Him escreveu uma vez algo que fez um bom sentido pra mim. Ele disse: ‘Imagine o sol. O sol produz calor e luz. Agora imagine que o calor é o Espírito Santo, a luz é Jesus, mas tudo isso é o Sol, que é Deus’. O calor você sente, a luz você vê e o Sol você sabe que existe, e está lá. Três em um só. Para mim esse exemplo simplista foi bem elucidativo.”

“É... agora fez um pouco mais de sentido. Mas sei lá... Não posso acreditar nessa história. Não é possível isso acontecer. Não tenho como acreditar. É muito irracional.”

“Realmente não sei o que te dizer. Para mim é uma questão resolvida. Eu acredito. Não só pela fé, mas para mim faz todo o sentido do mundo. Se Ele me criou, deveria Se revelar. Ele se revelou, a Bíblia é um exemplo disso, mas não temos como provar nada. Por isso a história faz sentido do jeito que é. Iremos para Deus por amor e fé, e não por medo e coação de sua revelação pública indubitável. Tem muitas coisas que não entendo, aliás ninguém entende cem por cento. Mas o básico já entendi. Isso me basta.”

“Olha, nem sei mais se estou com tanta raiva assim. Amanhã vou ver o que faço. Agora quero ir embora, tomar um banho e esfriar a cabeça. Pelo menos jogar conversa fora me deu uma acalmada. Como sempre você foi bem sincero e ponderado. Valeu por me ouvir.”

“Sempre que precisar pode contar comigo. Também tenho que ir. Amanhã é dia útil. Um abração e me liga amanhã.”

“Pode deixar. Abraço, cara. Até amanhã”